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Nós estávamos voltando pra casa do restaurante, o cara veio por trás de nós,
encostou a faca na minha costa e pediu nossos celulares. Eu entreguei o meu,
minha irmã entregou o dela. Então ele pediu o relógio que minha irmã estava
usando. Aquilo eu não podia permitir. Vejam bem, sou completamente contra
reagir a um assalto, acho que nossa vida vale mais que celulares, carteiras, ou
qualquer quantia de dinheiro que você possa estar carregando, mas aquele relógio era a única herança que nossa avó deixou. Ela morreu quando ainda éramos
crianças, mas nós éramos muito próximos a ela. Eu não podia deixar um
delinquente drogado levá-lo. E como ele estava apenas usando uma faca, eu
reagi. A gente lutou um pouco, eu segurando o braço dele, minha irmã meio que
paralisou com o medo. Ele conseguiu me cortar, mas mesmo sangrando eu acho que ele viu que não valia a pena tentar brigar comigo pelo relógio, então ele correu.
Era
uma reunião entre amigos, meu irmão contava esta história de forma extremamente
dramática sob o olhar atento e admirado de uma moça que um de nossos amigos
trouxe. Ela ouvia cada palavra fazendo expressões faciais exageradas em pontos
chaves da história demonstrando surpresa e apreensão. Meu irmão a levou pra
casa naquela noite.
Essa
era sua versão favorita de como ele conseguiu sua cicatriz. Tinha também a
versão durante uma corrida de Motocross, num acidente que o fez desistir da
carreira profissional. Outra versão incluía um acidente de trânsito em que ele
acabou resgatando duas crianças de um carro em chamas. Uma que ele não usa mais em que ele viajara para África e era
atacado por um leão. Acho que ele percebeu que essa era exagerada demais.
Acho
que ninguém fora da família e dos amigos mais antigos sabe a verdadeira
história por trás da cicatriz. Quando eu perguntei pra quê ele se dá ao
trabalho de inventar e lembrar-se de todas essas versões diferentes, e de qual
ele contou pra cada pessoa, a resposta foi bem simples.
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Mana, mana, mana, cicatrizes são maravilhosas. Eu posso inventar qualquer história
sobre elas e as pessoas vão acreditar porque a própria cicatriz serve como
prova do relato que eu acabei fazer.
Sempre
me incomodou como ele conseguia enganar a todos com suas historinhas, talvez
pelo fato de eu ter convivido tantos anos com ele diariamente e saber que ele
seria incapaz de fazer o que diz ter feito nessas fantasias todas. Também me
incomodava o fato de que ele criava histórias que o faziam parecer corajoso e
aventureiro quando a verdadeira revela justamente o oposto.
Nós
estávamos subindo na árvore que ficava no quintal da casa da vovó pra pegar
abacate. Nesse dia fizemos uma aposta de quem conseguia chegar o mais alto na
árvore. Eu ganhei, claro. Na hora de descer, ele ficou paralisado com o medo da
altura. Tentei conversar com ele pra acalmá-lo e quando finalmente consegui
convencê-lo a se mexer, ele se pisou em falso no meio da descida e se cortou em
um pedaço de galho quebrado. Por sorte, ele conseguiu segurar em um outro galho e
evitou fazer o resto do caminho caindo, mas assim ele ganhou a cicatriz que
anos depois ele usaria pra conseguir mulheres e impressionar os amigos.
Eu
também tenho uma cicatriz. Essa sim tem uma história interessante por trás, eu
apenas não a uso pra impressionar os outros como meu irmão faz.
Meu
filho tinha começado a andar fazia alguns meses e neste dia estávamos passeando
pelo bairro. Quando dobramos a esquina da rua de nossa casa, vimos que o cachorro da
dona Alice tinha escapado. Ele viu meu filho, que estava alguns passos a minha
frente, e avançou. Meu peito parecia que ia explodir com a velocidade que meu
coração começou a bater. Quando ele pulou no Betinho, eu me pus no meio do
caminho e agarrei o cachorro pelo pescoço.
Meu
filho começou a chorar e o cachorro latia enquanto eu colocava meu corpo sobre
o dele. Alguns vizinhos viram minha luta e vieram em meu auxilio. Mas não antes
do cachorro conseguir colocar os dentes em mim. Depois que ele tinha sido
seguro pelos outros, eu corri pra abraçar meu filho, que ainda estava
desesperado, pra acalmá-lo. Até hoje ele não gosta de cachorros.
Essa
sim foi uma história emocionante. Sempre que eu conto as pessoas acham
inacreditável. Ainda bem que tenho minha cicatriz pra provar.




