quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cicatrizes

- Nós estávamos voltando pra casa do restaurante, o cara veio por trás de nós, encostou a faca na minha costa e pediu nossos celulares. Eu entreguei o meu, minha irmã entregou o dela. Então ele pediu o relógio que minha irmã estava usando. Aquilo eu não podia permitir. Vejam bem, sou completamente contra reagir a um assalto, acho que nossa vida vale mais que celulares, carteiras, ou qualquer quantia de dinheiro que você possa estar carregando, mas aquele relógio era a única herança que nossa avó deixou. Ela morreu quando ainda éramos crianças, mas nós éramos muito próximos a ela. Eu não podia deixar um delinquente drogado levá-lo. E como ele estava apenas usando uma faca, eu reagi. A gente lutou um pouco, eu segurando o braço dele, minha irmã meio que paralisou com o medo. Ele conseguiu me cortar, mas mesmo sangrando eu acho que ele viu que não valia a pena tentar brigar comigo pelo relógio, então ele correu.

Era uma reunião entre amigos, meu irmão contava esta história de forma extremamente dramática sob o olhar atento e admirado de uma moça que um de nossos amigos trouxe. Ela ouvia cada palavra fazendo expressões faciais exageradas em pontos chaves da história demonstrando surpresa e apreensão. Meu irmão a levou pra casa naquela noite.

Essa era sua versão favorita de como ele conseguiu sua cicatriz. Tinha também a versão durante uma corrida de Motocross, num acidente que o fez desistir da carreira profissional. Outra versão incluía um acidente de trânsito em que ele acabou resgatando duas crianças de um carro em chamas. Uma que ele não usa mais em que ele viajara para África e era atacado por um leão. Acho que ele percebeu que essa era exagerada demais.

Acho que ninguém fora da família e dos amigos mais antigos sabe a verdadeira história por trás da cicatriz. Quando eu perguntei pra quê ele se dá ao trabalho de inventar e lembrar-se de todas essas versões diferentes, e de qual ele contou pra cada pessoa, a resposta foi bem simples.

- Mana, mana, mana, cicatrizes são maravilhosas. Eu posso inventar qualquer história sobre elas e as pessoas vão acreditar porque a própria cicatriz serve como prova do relato que eu acabei fazer.

Sempre me incomodou como ele conseguia enganar a todos com suas historinhas, talvez pelo fato de eu ter convivido tantos anos com ele diariamente e saber que ele seria incapaz de fazer o que diz ter feito nessas fantasias todas. Também me incomodava o fato de que ele criava histórias que o faziam parecer corajoso e aventureiro quando a verdadeira revela justamente o oposto.

Nós estávamos subindo na árvore que ficava no quintal da casa da vovó pra pegar abacate. Nesse dia fizemos uma aposta de quem conseguia chegar o mais alto na árvore. Eu ganhei, claro. Na hora de descer, ele ficou paralisado com o medo da altura. Tentei conversar com ele pra acalmá-lo e quando finalmente consegui convencê-lo a se mexer, ele se pisou em falso no meio da descida e se cortou em um pedaço de galho quebrado. Por sorte, ele conseguiu segurar em um outro galho e evitou fazer o resto do caminho caindo, mas assim ele ganhou a cicatriz que anos depois ele usaria pra conseguir mulheres e impressionar os amigos.

Eu também tenho uma cicatriz. Essa sim tem uma história interessante por trás, eu apenas não a uso pra impressionar os outros como meu irmão faz.

Meu filho tinha começado a andar fazia alguns meses e neste dia estávamos passeando pelo bairro. Quando dobramos a esquina da rua de nossa casa, vimos que o cachorro da dona Alice tinha escapado. Ele viu meu filho, que estava alguns passos a minha frente, e avançou. Meu peito parecia que ia explodir com a velocidade que meu coração começou a bater. Quando ele pulou no Betinho, eu me pus no meio do caminho e agarrei o cachorro pelo pescoço.

Meu filho começou a chorar e o cachorro latia enquanto eu colocava meu corpo sobre o dele. Alguns vizinhos viram minha luta e vieram em meu auxilio. Mas não antes do cachorro conseguir colocar os dentes em mim. Depois que ele tinha sido seguro pelos outros, eu corri pra abraçar meu filho, que ainda estava desesperado, pra acalmá-lo. Até hoje ele não gosta de cachorros.


Essa sim foi uma história emocionante. Sempre que eu conto as pessoas acham inacreditável. Ainda bem que tenho minha cicatriz pra provar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A bancada julgadora

Eu me movia a uma velocidade no limite entre o andar e o correr. Demorei um pouco a tocar a campainha para poder recuperar o fôlego. Apesar do meu atraso, Amanda atendeu a porta com um largo sorriso.

- Oi, desculpa a demora. O trânsito estava terrível. Houve um acidente, o braço do motoqueiro foi parar no sentido contrário da rua. Terrível.

- Não tem problema, isso nos deu mais tempo pra dar uma última revisada no nosso questionário. Entre.

- Questionário? Que questionário? – Perguntei enquanto cruzava a porta só pra me deparar com três mulheres sentadas lado a lado no sofá me encarando e uma cadeira vazia posta de frente pra elas.

- Sente-se.

Obedeci na cadeira diante das moças enquanto acenava para elas, nenhuma parecia especialmente amistosa.

- O que tá acontecendo?

- Bem, Carlos, é o seguinte: nós dois já saímos algumas vezes e eu acho que estou começando a realmente gostar de você. O problema é que os últimos três namorados que eu tive começaram do mesmo jeito. Eles pareciam ótimos, charmosos, educados e o segundo era até bom de cama. O problema é que todos acabaram do mesmo jeito: O primeiro me traiu com minha irmã, o segundo me traiu com várias mulheres da academia que ele frequentava e o terceiro me traiu com vários homens da academia que ele frequentava.

- Entendo – eu disse sem entender onde aquilo ia parar.

- Em todos esses relacionamentos, sem exceção, minhas amigas me avisaram que não os achavam tão maravilhosos quanto eles pareciam. Eu não dei ouvidos e agora tenho três pares de chifre na minha cabeça como recordação de cada namorado. Trinta e seis, se contarmos um par pra cada pessoa diferente que com quem eles me traíram. Que eu saiba. Então, quando começamos a sair, decidi que não ia deixar meu pobre julgamento me prejudicar de novo, e pedi que minhas amigas o avaliassem, assim me poupando de um possível coração partido. E aí entra o questionário que preparamos.

- Isso é estranho, eu preciso mesmo fazer isso?

- Você pode fazer isso ou nunca mais vê-la. – Disse a moça na extremidade esquerda do sofá.

- Bem. Essa é Ana – disse Amanda apontando para a tal moça - minha amiga desde a escola. Esta é Clara – continuou ela apontando para a jovem ao meio - nos conhecemos na faculdade, e essa é Alana, minha irmã – apontou pra jovem à direita – pessoal, este é Carlos.

Enquanto acenava novamente para cada uma conforme era apresentado, percebi que Ana era a menos amistosa do trio, nem ao menos esboçando um sorriso, enquanto Clara se mostrou mais receptiva e chegou a acenar pra mim com as mãos. Já Alana tinha no rosto uma expressão de quem obviamente não queria estar.

- Essa é a irmã que ficou com seu primeiro namorado?

- Sim.

- Você vai deixar sua irmã que ficou com seu primeiro namorado avaliar seu possível novo namorado?

- Aquilo foi muito tempo atrás, nós superamos.

- Como?

- Ela colocou laxante na minha comida. No dia do meu casamento – Disse ela cruzando os braços.

- Ah.

- Eu tenho uma pergunta pra você, Carlos: você frequenta alguma academia?

- Não.

- Fique longe de qualquer uma e eu te dou minha aprovação. Posso ir embora? – Ela finalizou com um olhar antipático para a irmã.

- Não. Você vai ficar aí mesmo. Preciso te lembrar de que ainda tenho o vídeo do seu vestido de casamento deixando de ser completamente branco?

- Ok, continuando – Disse Ana tirando alguns papeis que estavam grampeados de dentro de sua bolsa que estava no chão - Carlos, eu tenho em mãos o relatório que Amanda nos passou de todas as interações que vocês tiveram até agora. Após uma cuidadosa análise, percebi que você tem a tendência a fazer muitos elogios a respeito da aparência dela. No primeiro encontro você fez um total de 11 comentários a esse respeito, incluindo frases sobre o “olhar misterioso”, “cabelos brilhantes” e “pinta engraçadinha na bochecha”. Você diria que a aparência é muito importante pra você?

- Bem, eu diria que sim, ao menos a princípio. Aparência é a primeira coisa que nos chama atenção quando conhecemos uma pessoa nova. É o que desperta o nosso primeiro interesse, para depois conhecermos quem aquela pessoa é no interior.

- Muito bem, digamos que daqui uns anos, quando você já estiver acostumado com a beleza de Amanda, você encontre uma mulher que considere igualmente ou mais bela, você iria querer conhecer o “interior” dela?

- Bem, é provável que eu a olhasse por instinto, mas se eu estiver em um relacionamento firme com alguém, eu não faria nada além disso.

Ela anotou algo num caderninho, pelo movimento labial foi possível ver que entre as palavras estavam “papo furado” e “instinto”.

- Sente-se confiante nisso? Você alguma vez já traiu alguma namorada?

Nessa pergunta eu paralisei. Queria muito olhar para Amanda, mas não tive coragem.

- Sim. Já traí duas, pra ser exato. Uma no ensino médio, outra na faculdade. Uma eu traí durante uma festa em que eu bebi demais e outra eu traí com uma ex-namorada.

Ana e Clara fizeram anotações em seus blocos.

- Escutem, eu sei que errei ao fazer isso e se eu pudesse voltar atrás eu não faria de novo. Bem, talvez a primeira. Mas certamente nunca mais farei algo assim.

- Tem certeza? – Perguntou Clara, em um tom insinuante – Nem com o incentivo dos teus amigos você cairia numa tentação?

- O que quer dizer?

- Verificamos os amigos com que você mais interage nas redes sociais. E vimos, por exemplo, seu amigo Ronaldo postando um texto romântico copiado e colado e erroneamente atribuído a Shakespeare para a namorada em comemoração aos três meses de namoro, enquanto em outra rede social, não mais que uma semana atrás ele postava sobre como a festa que ele foi só tinha, e eu cito, “mulher gostosa e bêbada”, postagem que recebeu uma curtida sua.

- Amigos curtem tudo que os outros amigos postam. E vocês não podem me julgar pelas atitudes dele.

- Pode se dizer muito sobre alguém através das companhias que ele mantém.

- Foi um comentário numa rede social. Pode ter sido estúpido, mas isso não quer dizer que ele seja. Ele é fiel à namorada, disso eu tenho certeza. Assim como todos os meus outros amigos – eu pauso e penso o quanto elas sabem dos meus outros amigos – com exceção do Júlio, Matheus, Antônio e o Marcelo. Mas eu nem falo com eles tão frequentemente assim.

- Vocês jogam futebol juntos aos domingos e se reúnem pra happy hour pelo menos uma vez por semana – disse Ana consultando seus papeis.

- Exato. Raramente nos vemos.

Mais anotações. Senti que não estava indo muito bem.

- Ele tá suando, estou começando a gostar disso – disse a irmã, sorrindo pela primeira vez – diga-me, Carlos, como é seu relacionamento com suas ex-namoradas?

- Não tenho contato com a maioria delas. Uma ainda é uma amiga com quem tenho contato ocasionalmente...

- Ocasionalmente como seus amigos de happy hour?

-... e uma outra que... bem... é minha vizinha.

As três me olharam em silêncio, surpresas.

- Essa é a ex com quem você traiu uma de suas namoradas? – pergunta a irmã estreitando os olhos.

- Sim. Ela é minha vizinha desde a infância e foi a minha primeira namorada.

- Interessante.

As três fizeram anotações em seus papeis.

- Muito bem, eu cansei – disse enquanto me levantava – Vocês já se divertiram bastante, mas já chega. Amanda, se você quiser realmente me conhecer vai ter que ser do modo antigo: convivendo comigo. Eu aposto que se eu vasculhasse a vida de vocês, o que vocês postam na internet, com quem vocês andam, eu encontraria centenas de motivos pra não namorar qualquer uma de vocês. Eu vou pra casa, você disse que estava começando a gostar de mim. Se isso é verdade, me dê uma chance de provar que sou mais que meu perfil numa rede social. De que não é uma entrevista que vai dizer se sou o cara certo pra você.

Amanda não falou para alguns segundos e ficou apenas imóvel olhando para o chão até começar a andar lentamente em minha direção. Ela parou diante de mim e tocou meu rosto com as duas mãos e me olhou nos olhos pelo que me pareceu uma eternidade antes de falar.


- Carlos, o resultado da sua avaliação sai em 48 horas. Entraremos em contato. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Um show de Rock.

As primeiras notas atingiram meus ouvidos e se espalharam pelo resto de meu corpo na forma de uma estranha combinação de energia e paz. Lentamente, comecei a batucar meus dedos nas minhas cochas, minha cabeça também começou a balançar pra frente e pra traz em movimentos uniformes e ainda lentos.

Cantei com o vocalista e outras centenas de vozes quando a letra começou. O espaço ao meu redor ficava cada vez mais claustrofóbico enquanto mais e mais pessoas tentavam se aproximar do palco. Eu era empurrado de todos os lados e a cada topada, era como se uma troca de energia ocorresse entre os corpos em colisão.


Conforme o som ficava mais pesado e forte, minha entrega aquele momento também se intensificava. Logo eu estava gritando, pulando abraçado com desconhecidos em um momento e empurrando todos ao meu redor no seguinte. Eu havia encontrado um novo nível de consciência.

Eu podia sentir os olhares das pessoas que ainda não estavam tão entregues quanto eu se divertindo com minha falta de inibição. Após um constrangimento inicial, passei a sentir pena delas por não estarem aproveitando todo o potencial do show como eu estava. Momentos depois eu nem mais me importava que elas existissem.

Meu Universo estendia-se apenas tanto quanto o alcance da música. Não havia antes ou depois. Eu nasci quando a primeira música começou e morreria quando a última nota da última música acabasse. As vozes em minha cabeça, que teimam em lembrar-me de obrigações, problemas e erros, se calaram. Ou melhor, juntaram-se para cantar e gritar junto comigo.

Eu era pura energia. Antes reprimida pelas obrigações da rotina, mas agora liberta de minhas correntes, movendo-me como que depois de anos de imobilidade, gritando como que após séculos de silêncio, ao ponto de minha garganta doer. Meu sangue fervia com uma raiva imensurável. Não uma raiva destrutiva, mas uma que impulsiona a ação.

Não sabia quem eram as pessoas ao meu redor, mas como eu, todos haviam nascido naquela noite e morreriam ao final da apresentação. Quem eles eram antes e depois não importava. Médicos, advogados, professores, secretárias, balconistas, desempregados, foda-se, ali, todos eram igualados. Todos se divertiam igualmente, trocando olhares, sorrisos, apertos de mão, abrações, empurrões.


Duas horas. Foi a duração do show daquela noite. Mas seu efeito em mim durou muito mais. A música cessara e eu continuei ali. Cada célula cansada de meu corpo ainda querendo mais. Eu estava vivo. Mais vivo que em qualquer outro lugar que já passei. Mal posso esperar pelo próximo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Diálogos com a Morte #01 - O Suicida.

A dor durou apenas um milésimo de segundo, talvez até menos. Eu a senti porque ele sentiu. Agora ele se contorce estranhamente enquanto volta à consciência. Quando me vê, sua boca se abre, mas nenhum som é emitido. Ele se move pateticamente ainda ignorante do fato que aqui as regras são diferentes. Eu penso, ele escuta.

- Acalme-se. Não tente falar. Não existe ar aqui para o som se propagar. Respirar também não é possível, nem necessário. Deixe as palavras que quer dizer passarem pela sua mente. Eu saberei. Não precisa andar, basta pensar e irá se mover. Embora todo lugar aqui seja igual ao anterior. Você está no Vazio.

Ele olha pra mim em pânico. Ainda não se acostumou com a falta de gravidade. As emoções humanas ainda não o deixaram completamente, mas falta pouco.

- Estou morto? – Ele pensa.

Eu surjo ao seu lado. Ele não se assusta. Medo é sempre a primeira sensação a desaparecer.

- Sim, você está morto. Era o que queria, não?

- Achei que tudo ia acabar. Por que ainda estou... aqui?

- Porque sua vida acabou, mas não sua existência. A realidade de que escapou era apenas um estágio da completude da experiência humana. Estou aqui pra prepará-lo para o próximo.

- Qual é o próximo?

- Não sou eu que decido ou informo. Eu apenas o ajudo a aceitar o fim de sua existência anterior. No caso dos suicidas, costuma ser mais fácil. Vocês costumam aceitar o fim rapidamente, já aceitar a continuidade leva algum tempo.

- O fato de eu ter me matado influencia no que acontece a seguir? Onde eu nasci, na religião em que fui criado, sempre me foi dito que os suicidas vão para o inferno.

-. O que vem a seguir é algo além de minha compreensão, não me foi dado o dom ou liberdade de conhecer o que acontece além deste patamar. Uma coisa eu sei, porém, é que não há inferno. Pelo menos não do modo que os humanos criaram em suas mitologias.

Ele mexe o corpo no Vazio lentamente. Experimentando as novas sensações que fogem as leis da física que estava acostumando, por um segundo, parece até esquecer que está acompanhado. Eu decido lembrar-lhe deste fato.

- Já lidei com muitos suicidas, com os mais diversos motivos: doença terminal, desilusão amorosa, depressão. Qual foi o seu?

- Você não sabe?

- Não sou onisciente. O instante em que você puxou o gatilho foi a primeira vez que soube da sua existência. Tudo o que sei sobre você é o seu fim e o que você me contar.

Ele olha para todos os lados por alguns segundos, contemplando a vastidão sombria, procurando as palavras pra expressar, talvez pela primeira vez, aquilo que ele certamente nunca falou pra ninguém durante sua vida.

- Você chamou esse lugar de O Vazio. Eu uso essa palavra pra descrever como eu me senti a vida inteira. Eu não tinha qualquer doença terminal, nunca amei ninguém pra me desiludir e nunca fui diagnosticado com depressão, não que eu já tenha ido a um psiquiatra pra descobrir. Eu não sentia qualquer apego à vida, ou a qualquer pessoa. Eu vivia sozinho. Não me entenda mal, eu não queria a companhia de ninguém, não tinha nenhum grande objetivo. Ainda sim, me via cheio de obrigações: trabalho, pagar contas, socializar, entre tantas outras. Eu fazia tudo isso sem motivo algum além do fato que fui ensinado que devia. Um dia eu simplesmente cansei.

- Escutei discursos similares antes. Normalmente eles são concluídos com um evento dramático que faz o suicida cansar da espera e apressar a minha chegada. Qual foi o seu evento?

Ele pensa um pouco, talvez pela primeira vez percebendo que sua história não é única. Que o que ele passou, outras pessoas passaram também. Que ele não é especial.

- Fui demitido do meu emprego. Não era um emprego particularmente bom, mas me dava uma vida confortável o bastante pra me manter vivendo um dia após o outro. Depois que o perdi, reavaliei minha vida e acho que decidi que não valia a pena ir atrás de outro e voltar à velha rotina sem sentido.

- Você se matou pra não ter que procurar um emprego?

- Não. Perder o emprego me fez perceber que eu não queria viver. Ir todo dia àquele trabalho, que minha mãe arrumou pra mim, diga-se de passagem, me mantinha inerte, seguindo em ciclos diários sem nem ao menos pensar no que estava fazendo. Nos primeiros dias em que fiquei casa, sozinho, fora desse ciclo, percebi que não queria voltar pra ele ou pra qualquer outro. Foi quando fui atrás de uma arma.

- E colocou uma bala em sua cabeça.

Eu mostro a ele na palma da minha mão a bala destruiu seu crânio. Ele olha pra ela inexpressivamente, então ele estende a própria mão e a bala já se encontra em sua palma e ele começa a girá-la entre seus dedos. Ele dominou as regras desse mundo bem facilmente.

- Por que escolheu um tiro na cabeça? – Eu pergunto.

- Eu queria algo imediato, instantâneo. Não queria pular de um prédio e me arrepender no meio da queda. Não queria cortar os pulsos e me arrepender antes do sangue terminar de deixar meu corpo. Não queria me enforcar e me arrepender enquanto sufocava.

- E se arrepende agora que sabe que existe um depois da morte?

- Não tenho certeza. Não me arrependo de deixar minha antiga vida. Talvez me arrependa quando souber o que é esse próximo estágio. Algum dos outros já se arrependeu aqui, enquanto falava com você?

- Alguns. Eles teriam chorado se ainda fossem capazes de fazer isto aqui. Você não me parece o tipo que choraria.

- Só chorei uma vez em vida. Chorei quando meu pai morreu. Chorei pelo que me pareceu horas enquanto minha mãe me abraçava. Ela já sabe que eu morri?

- Sim e não. Estamos num plano fora da noção de tempo empregada na realidade em que você viveu. Você acabou de morrer, você morreu 10 mil anos atrás e ainda nem nasceu. E o mesmo vale pra todo ser vivente.

- Isso é tudo muito confuso.

- Eu não posso responder sua pergunta. Como eu disse, tudo o que sei sobre qualquer pessoa é o seu fim e o que ela me conta neste estágio. O que posso dizer é que ela morre idosa, numa casa de repouso.

Noto uma sutil expressão de alívio enquanto ele se permite acreditar em minha mentira.

- Você se importa com o sentimento causado pelo seu suicídio?

- Sim, me importo. Eu sei que minha vida importava pra alguns. Sei que algumas pessoas ficarão tristes, talvez até devastadas. Mas eu apenas não estava disposto a viver uma vida que eu não queria pra satisfazer os outros. No fim do dia, ninguém sabe como era viver na minha cabeça.

- Lembro que quando eu era criança e reclamava de algo, minha me dizia que eu deveria ser grato por estar vivo. Depois de anos ouvindo esse discurso, eu comecei a ver que não era bem assim. Todos nós somos trazidos à vida pelas escolhas dos outros, de nossos pais. Esperam que sigamos até que a vida acabe naturalmente ou por acaso independente do que nos aconteça. Não eu. Não pedi minha vida, mas ela era minha e se eu tinha o direito de decidir o que fazer com ela, também tinha o direito de decidir como ela acabaria. Nos meus próprios termos, não como obra do acaso ou destino. Eu decido quando as coisas acontecem pra mim.

Ele olha diretamente pra mim. O rosto com uma expressão séria, decidida.

- Estou pronto. Mostre-me o próximo passo.

Eu aponto pra porta de madeira a nossa frente que não estava lá segundos atrás.

- Aí está. Não precisa bater. Tem certeza que é hora?

- Pra que esperar mais? Obrigado por me ouvir, mas já passei tempo demais no Vazio.

Com um pensamento ele está de pé diante da porta. Ele gira a maçaneta e entra sem hesitar. Poucas vezes vi alguém atravessar aquela porta com tanta convicção. Ele realmente queria deixar a vida que tinha para trás.

Este ambiente de transição é um reflexo da alma sendo coletada. A maioria dos suicidas ainda trás algo pra cá: lembranças dolorosas, esperanças destruídas, oceanos de lágrimas. Este realmente não trouxe nada. Uma vida finalizada sem nunca ter de fato começado.

Uma vida vazia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Bêbado com razão

Eu andava lentamente a passos irregulares enquanto o mundo girava ao meu redor. A garrafa vazia na minha mão estava extremamente leve, mas mesmo assim eu fui incapaz de impedir que ela escapasse por entre meus dedos e se quebrasse no chão, provavelmente por ter sido a nona que eu esvaziava naquela noite.

Eu sentei na parada de ônibus, alguns carros passavam diante de mim a uma velocidade que seria impossível durante o dia e um cachorro fedorento estava deitado alguns metros ao meu lado. O vento frio da noite fazia o efeito da bebida passar aos poucos, fazendo-me lembrar do motivo de eu ter começado a beber em primeiro lugar, mas eu não queria relembrar.

Vasculho meus bolsos torcendo pra encontrar mais dinheiro para outras bebidas, mas só encontro algumas moedas, as mesmas que estavam lá da última vez que procurei antes de sair do bar. Moedas que provavelmente nem pagariam uma passagem de ônibus. Eu tento lutar contra as lágrimas, mas sempre fui péssimo em lutas.

Será que eles ainda estão acordados? Era muito tarde para ainda estarem um sobre o outro, gemendo e tocando-se em todas as partes do corpo. Provavelmente estavam dormindo, de conchinha, ou talvez ela estivesse deitada sobre ele. Talvez ela tivesse adormecido depois de meia hora de cafuné. Ou pior, talvez estivessem acordados, conversando sobre seus sonhos, fazendo planos para o futuro, decidindo o que fazer no domingo a tarde.

Eu dou socos no banco em que estou sentado. A princípio, fracos, mas que logo vão se intensificando. Sinto meus dedos inchando e doendo, mas não paro. Meus dentes estão cerrados a ponto de minha mandíbula doer. Perco a luta contra as lágrimas. Perco como perdi minha esposa pra aquele personal trainer fajuto de academia barata.

O pior era perceber o quão insignificante eu era para ela. Ela nem se deu ao trabalho de tentar disfarçar muito. Todas as vezes que eu a traí eu me desdobrei, gastei grandes quantias de dinheiro, justamente pra que ela nunca soubesse e vivesse feliz na ignorância. Isso é amor de verdade. Isso é se importar com seu parceiro.

Já ela. Praticamente gritou aos quatro ventos o quanto achava o Celio... Caio... Cícero, seja lá qual for o nome do sujeito, gostoso.  E durante os treinos, mesmo eu estando do lado, ela conseguia um jeito de apalpar os músculos dele. Posso nem ficar com raiva do Célio... Caio... Cícero por ter ido pra cama com ela. Eu com certeza iria.

Eu poderia viver com isso. Poderia prosseguir com minha vida fingindo que não sabia de nada. Os vizinhos que a ouviam gritando no meio da tarde provavelmente iam me lembrar, mas bastava nos mudarmos. Não era muito difícil. Mas aí veio o vídeo na internet.

Eu não assisti ao vídeo. Não todo. Ainda. Mas não acredito que ela foi capaz de fazer aquelas coisas. Coisas que eu implorava que fizéssemos e sempre recebia um não, as vezes com nojo na voz. Então num belo dia, chega um cara com um corpo perfeito e realiza minhas fantasias com minha esposa. Aí é demais. Se ainda tivesse uma bebida, eu faria um brinde ao pivete que roubou o celular de minha esposa e postou o vídeo na internet. Eu nunca saberia o tipo de pessoa que eu tinha casado se não fosse por ele.

Sim, sou um babaca, mas estou bêbado e chifrudo. Mereço ser um pouco babaca. Só um pouquinho, vai.

Não posso voltar pra casa. E assim que faço essa decisão, vejo o primeiro ônibus do dia vindo ao longe. Decido entrar nele, não sei aonde ele vai e nem me importo. Só quero ir pra bem longe. Pego as moedas em meu bolso e entrego ao cobrador. Ele me olha com sua cara de sono e me fala:

“Tá faltando 35 centavos”.