Dona Maria Aurélia demorou a atender a campainha. Ela ficou um longo minuto se olhando no espelho mais uma vez. Olhou para seu cabelo cuja maioria dos fios já se encontrava branca. Comtemplou o próprio rosto tomado por marcas da passagem dos anos que ela tentou em vão disfarçar com maquiagem. Encarou os próprios olhos e perguntou-se mais uma vez se estaria louca ao fazer aquilo. Despertou de seu autoquestionamento apenas ao segundo tocar da campainha.
Ela abriu a porta e esboçou um sorriso para o rapaz que agora sorria de volta. O sorriso dele, porém, era aberto, exibindo seus dentes perfeitamente alinhados e alvos. Um sorriso confiante de quem se sente confortável com a situação, de quem já está acostumado. O rapaz era forte e alto, sem dúvida um desses tipod que iam sempre à academia. Ele até mesmo usava um desses cortes de cabelo qur ela já viu em vários garotos na rua.
- Boa noite. Dona Aurélia?
Ela tentou retribuir o cumprimento, mas sua voz não passou pela sua garganta. Ela então fez apenas um aceno de cabeça pra confirmar sua identidade e abriu passagem para o rapaz. Ele entrou prontamente, pôs-se no meio da sala e olhou ao redor, observando os retratos na parede de parentes que estavam ou mortos ou que a muito tinham deixado de se importar com ela.
-Meu nome é Anderson - ele diz virando-se pra ela ainda com aquele sorriso no rosto - Você tem uma bela casa. Parece ser bem confortável.
A voz de dona Aurélia falou de novo.
- Primeira vez, certo? - ele pergunta, aproximando-se lentamente - Não se preocupe. Faremos isso do jeito que você se sentir mais confortável. Que tal uma bebida?
Ter um estranho lhe oferecendo uma bebida em sua própria casa era o oposto do que Aurélia considerava confortável, mas ela apenas confirmou novamente e apontou o caminho para a cozinha. Anderson veio logo atrás dela, a alguns passos de distancia. Ela pegou uma garrafa de vinho do qual já tinha bebido quase metade durante o dia por causa do nervosismo e apenas uma taça.
- Não vai me acompanhar? – Sua voz soava quase debochada para Aurélia, ela estava certa que ele estava sentindo pena dela e que no dia seguinte falaria da idosa caduca com quem ele teve que passar a noite.
Ela pegou mais uma taça para si e os dois começaram a beber o vinho lentamente, sem dizer nenhuma palavra a principio, o rapaz começou a fazer perguntas e ela respondia com nada além de algumas frases curtas. Monossilábicas até.
- Você mora aqui sozinha?
- Sim.
- Há quanto tempo?
- Uns sete anos.
- Você gosta?
- Às vezes.
- Eu me mudei recentemente, primeira vez morando fora da casa da minha mãe. Estou me acostumando ainda.
- Ah.
Uma longa pausa. Anderson percebe que puxar assunto não vai ajudar muito. Melhor ir logo ao que interessa antes que ela fique muito desconfortável e desista de tudo.
- Você está encantadora hoje.
Ele se aproxima e toca seu braço, olhando diretamente em seus olhos, ainda com o sorriso estampado no rosto. Ele não parou de sorrir um segundo sequer desde que entrara. Dona Aurélia não consegue evitar um pequeno espasmo no braço ao sentir os dedos do rapaz, tampouco conseguia olhá-lo nos olhos.
- Está tudo bem, você não precisa ficar nervosa – Ele diz suavemente, enquanto aproximava seu rosto do dela.
Ele beijou-a suavemente na bochecha, fazendo-a fechar os olhos e recolher os braços para junto de seu corpo. Ele colocou seus fortes braços ao redor do corpo dela e a puxou pra junto de si, enquanto continuava a beijar-lhe o rosto e aproximando lentamente de seus lábios. Ao finalmente tocá-los, porém, Aurélia abaixou o rosto, pôs suas mãos nos braços do rapaz e respirando pesadamente começou derramar pesadas lágrimas.
A pobre senhora deixou escapar um gemido pesaroso enquanto tentava inutilmente conter o choro que agora lhe escapava. O rapaz continuou abraçando-a, sem saber bem o que fazer. Confusão e terror se misturavam em sua face. Finalmente havia parado de sorrir. O corpo de Dona Aurélia começou a ficar mole, então ele puxou a cadeira mais próxima e ajudou-a a sentar-se.
- Você tá bem? Quer um copo d’água ou alguma outra coisa?
Dona Aurélia demorou a responder. Não conseguia olhá-lo. Continuou olhando para baixo enquanto enxugava as lágrimas com as mãos.
- Desculpe-me. Estou sendo tola. Esse encontro todo foi uma situação totalmente tola. Fruto da minha cabeça tola. Eu vou te dar teu dinheiro e você pode ir embora, só peço que não conte a ninguém sobre hoje. Já é ridículo o bastante saber que você vai embora sabendo o quão patética eu sou. Imaginar você contando pra outras pessoas e rindo da minha cara... por favor, seria demais.
Anderson não falou anda. Ela continuava falando e pedindo desculpas e dando explicações desconexas sobre como tinha parado naquela situação. Na sua breve carreira, ele já havia deparado com algumas situações peculiares, mas não com aquele nível de vulnerabilidade. Desejou nunca ter ido até aquele apartamento e decidiu não mais aceitar o chamado de senhoras de idade. Queria partir pra bem longe dali, mas algo em si se mostrava incapaz de simplesmente dar as costas a uma senhora em sofrimento.
- Eu não vou contar nada a ninguém. Não tenho a quem contar.
Dona Aurélia continuou soluçando mais alguns minutos. Anderson continuou sem ação. Ela inspirou o ar profundamente várias vezes até que aos poucos parecia estar recuperando a calma. O que deixou Anderson mais tranquilo.
- Sabe quanto tempo que eu não sou tocada por ninguém com carinho? Ou desejo? Desde pelo menos 10 anos antes da morte do meu marido. Nos amávamos muito ainda, mas o desejo físico já tinha morrido a muito tempo nele. Nem mesmo um velho como ele conseguia se excitar com uma velha como eu. Ele ficava feliz apenas indo pra praça e observar moças correndo com aquelas calças coloridas e apertadas. Eu tinha virado apenas uma colega de quarto pra ele.
- Eu não sou especialista no assunto – Anderson falou cautelosamente, temendo falar algo que provocasse outra crise de choro – Mas me parece normal que um casal depois de tanto tempo junto perca um pouco desse desejo. Não deveria enxergar isso como por causa da sua aparência. Tenho certeza que tem gente que ainda a desejaria.
- Isso não é verdade. Mesmo em centro de idosos eu sou a pessoa mais velha do local. Eu excedi a expectativa de vida. Sou uma velha entre os velhos. Nenhum deles nem me olha duas vezes. Preferem as senhoras que ainda conseguem dançar salsa a noite inteira. Se eu tentasse dançar provavelmente pararia no hospital com o quadril deslocado.
Sua voz foi enfraquecendo enquanto falava e ao final de sua última frase ela já estava soluçando de novo. Anderson a tocou no braço carinhosamente e ela colocou a sua outra mão sobre a dele. Seu toque era leve, carinhoso.
- Eu nem queria muito, sabe? Já desisti de um dia receber meus filhos novamente. Provavelmente só aparecerão no meu funeral e mesmo assim apenas pra manter as aparências enquanto esperam pra ver o que podem conseguir de herança. Os poucos amigos que eu tinha já estão ou mortos ou ocupados demais sendo avôs ou avós de alguém pra lembrarem que eu existo. Família, amigos. Não me importo mais com nada disso. Só o que eu queria era uma noite de prazer. Uma noite de prazer no meio a todas de tédio que são a constante na minha vida – Ela então o olhou nos olhos, não exibindo mais qualquer sinal de vulnerabilidade – É pedir muito?
Anderson não sabia o que dizer. Imaginou-se na idade daquela senhora. Completamente sozinho. Já estava sozinho fazia muito tempo. Entrou nesse ramo justamente por não ser bom em mais nada na vida. Só o que sabia fazer era frequentar a academia. Não seria capaz de achar um emprego decente se tentasse. Nunca teve cabeça pra faculdade. Era burro demais pra manter um relacionamento com alguém que tivesse mais de dois neurônios funcionais. Sua aparência só lhe servia pra conseguir mulheres em bares. Eram as únicas noites em que sentia alguma conexão, mesmo que puramente física, com alguém. Então ele entendia bem o que uma noite de fuga poderia significar pra alguém, mesmo que não fosse capaz de articular esse pensamento em palavras nem pra si mesmo.
Sem saber direito como isso aconteceu, estava na cama com ela. Explorando seu corpo e tendo o seu tocado de maneira que não sabia ser possível até então. Não saberia dizer quanto tempo se passou entre o momento em que entrou pela porta o que saiu. Era como se ele tivesse saído da realidade e entrado num transe que não conseguiria explicar. Foi embora se sentindo confuso, mas satisfeito. Nem lembrou que tinha dinheiro a receber.
Dona Aurélia estava em sua casa, guardando de volta o dinheiro que havia separado pra aquela noite. Mais uma em que não precisou usá-lo. Mais uma em que provou a quem disse que ela era uma mulher manipuladora e que morreria sozinha e triste que estavam errados. Manipuladora talvez ela fosse, mas nunca estava sozinha e certamente não estava triste. De volta ao seu quarto ela pegou o jornal que estava em seu criado mudo, riscou o anúncio com o nome de Anderson da lista e começou a discar o número do próximo.
