domingo, 30 de novembro de 2014

Aos que ficam...



Estou olhando pra baixo. O som da brisa é quase uma triste trilha sonora do fim. Os quinze andares entre o chão e eu são mais que o suficiente. Várias vezes eu estive aqui, decidi que seria o lugar perfeito pra me matar. A vista é linda, especialmente ao pôr-do-sol e a noite, quando a cidade está toda iluminada. Gostaria que esta fosse minha última visão. Algo, porém, sempre me impediu de ir adiante. Os segundos finais da queda.

Pergunto-me se eu me sentiria em paz. Seria irônico, sentir paz, alivio, ou qualquer sentimento agradável no momento em que finalmente conseguisse me jogar para morte. Ou talvez eu me desesperasse e desejasse não ter pulado. O que seria uma constatação terrível pra se ter enquanto se aproxima do chão. Pelo menos eu não teria tanto tempo assim pra ficar arrependido.

Talvez você esteja se perguntando por que eu quero pular daqui, pra começo de conversa. Ou talvez nem se importe. E aí está um dos motivos, ninguém se importa. Que clichê! Você deve estar pensando. Bem, os clichês nascem justamente pela repetição. Então desculpa se eu não sou exatamente um caso excepcional.

Tentei fazer amigos a vida toda. Até consegui alguns, mas logo se tornou óbvio que não tinha nada a acrescentar na vida de quem quer que seja e era deixado de lado. Meus relacionamentos mais duradouros foram com outros rejeitados, mas estes também só duravam até que elas achassem um rejeitado mais interessante. Não as culpo por isso, também não enxergo qualquer atrativo em mim que pudesse segurar qualquer pessoa. Não falo isso querendo pena de alguém, só estou... bem, dane-se, estou preste a me matar, talvez eu mereça um pouco de pena. Mas sério, só queria explicar a situação.

Já são quarenta anos disso. Sei que não vou mudar agora. Sabe essas histórias de velhinhos que se graduam na universidade depois dos noventa ou que dão a volta ao mundo? Eu não sou um desses, sou do outro tipo. Do tipo que fica rabugento e reclama dos garotos que fazem barulho na rua.

Se você chegou até aqui, deve estar pensando que não é a toa que ninguém me atura. Que bom. Não quero que ninguém fique triste com minha partida. Talvez uma ou outra ex-namorada, mas a essa altura duvido que elas sequer tenham como saber de minha morte. Não mantenho contato com muita gente.

Falo com você porque não deixei nenhum bilhete. Não haveria ninguém pra ler. Nem muito pra escrever. Não tenho nenhum grande motivo real pra fazer isso. Nenhuma doença terminal que me condenaria a anos de sofrimento, nem alguma grande desilusão amorosa nem fui à falência. Não tenho motivos pra morrer, apenas também não tenho nenhum pra viver.

Talvez por isso tenha subido até aqui tantas vezes e descido pelo elevador ao invés de pelo lado de fora. Penso em pessoas que de fato se matam porque não aguentam mais viver após anos de sofrimento ou porque não querem os anos de sofrimento que sabem que terão. Elas não vem aqui várias vezes. Não olham pra baixo e passam horas pensando, e se pensam provavelmente isso só lhes dá mais motivos pra pular. E então elas o fazem.

Quando somos crianças e aprendemos que um dia todos vamos morrer, criamos um medo da morte porque tudo é divertido e mágico e não queremos que acabe. Mas quando a diversão se esgota a morte não parece tão assustadora.

Já tentei fazer trabalho voluntário tentando assim me iludir de que minha vida tinha algum significado maior. Mas a verdade é que não me importo com outras pessoas a ponto de fazer do ato de ajudá-las um hábito. Por isso não culpo ninguém por não se importarem comigo. O sentimento é recíproco.

Depois de toda essa conversa eu acho que seria muito anticlimático se eu não pulasse. Mas também não vou me apressar só por causa de vocês. Desculpa. Ou talvez você esteja esperando uma epifania que me faça enxergar que a vida é bela e que tenho muito pelo que viver e que eu devo pegar o elevador e sair em busca do amor. Acredite, não vai acontecer.

Já estive aqui no alto várias vezes esperando essa epifania que nunca veio. Mas a verdade que apenas uma coisa me mantém vivo. Aqueles malditos segundos finais.

domingo, 23 de novembro de 2014

Um Rosto Conhecido



Eu estava encarando o casal duas mesas distante da minha há quase dez minutos quando finalmente reconheci aquele homem. Aquilo estava realmente me incomodando. Sabia que conhecia aquele rosto, mas não fazia ideia de onde.

Vasculhei toda a minha memória. Talvez se tratasse de alguém que tenha estudado no mesmo colégio que eu, ou algum zelador de algum prédio em que trabalhei, ou um primo de segundo grau de alguma antiga namorada.

Precisei regressar até minhas memórias mais antigas pra resposta finalmente aparecer. Tentei imaginar aquele rosto bem mais jovem e uma imagem foi se formando em minha mente. Crianças brincando de futebol numa rua de asfaltamento irregular usando suas sandálias como trave e uma bola velha e encardida. Casas ao redor com portões enferrujados e muros com pinturas descascando e cheias de lodo. E no meio disso tudo, aquele rosto.

Como uma fileira de dominós, uma lembrança foi trazendo outras em sequência. Comecei a lembrar de todo tipo de brincadeira que eu, aquele homem e nossos vários colegas da vizinhança fazíamos. Policial e ladrão, Cobra ou Passarinho e tantas outras.

Ele era o mais ousado e aventureiro de nós. Era sempre o primeiro a tentar coisas que em nossas mentes infantis eram bastante arriscadas, como andar de bicicleta sem a as mãos, apertar a campainha recém instalada do seu Braga e sair correndo ou pegar escondidos as revistas adultas de seu pai. Só não conseguia me lembrar do seu nome.

Conseguia lembrar o nome de todos os meus amigos, menos o dele. Tinha o Ítalo, ou 32 polegadas por causa de sua cabeça enorme e quadrada que lembrava uma TV. Tinha o Augusto, ou puro osso, que dispensa explicações. Já o homem no mesmo restaurante que eu, nada. Era algo tipo Marcos, Marcelo ou Marcio. Ah!, lembrei, era Felipe.

Não pude evitar sorrir sozinho agora que todas as lembranças estavam de volta. Era como se toda a alegria que tive durante aquela época tivesse voltado de uma vez só. Anos de felicidade infantil resgatadas em um minuto. Mesmo o mais amargurado dos adultos sorriria.

Tentava decidir se devia ir falar com ele. Seria lembranças de infância compartilhadas o bastante pra justificar abordar um estranho? Sim, éramos estranhos agora. Havia mais anos desde que nos vimos pela última vez do que nós tínhamos de idade na época que nos conhecemos.

De repente, ele olha pra mim e eu, instintivamente, desvio o olhar para o meu prato de comida quase intocado e já frio. Posso sentir que ele ainda me observa e me pergunto se ele tenta me reconhecer também ou só está imaginando porque um estranho o encarava e a sua namorada/esposa/amante.

Quando ele e sua companhia se levantam e passam por mim no caminho até a porta, já decidi que não deveria falar com ele. Não quero saber que tipo de pessoa meu amigo se tornou.

Analisando minha própria vida, vejo quantos sonhos de infância não cumpri, quantas expectativas não se concretizaram e lamento. Mas não quero saber que aquele rapaz tão cheio de vida virou um babaca ou um burocrata sem imaginação. Mesmo que seja um grande cara, não há como superar os sonhos de criança. Seria uma decepção. Quero minhas lembranças de infância puras pelo que podia ter vindo seguir, não maculadas com a realidade do que realmente veio.

Quando vejo a porta se fechar atrás de meu velho amigo, sua imagem presente começa rapidamente a se esvair, deixando apenas sua imagem infantil que de fato conheci, mas, desta vez, com a certeza de que não esquecerei.

domingo, 16 de novembro de 2014

Túmulo sem Flores



Após uma vida ingerindo mais bebidas alcoólicas que água, Antenor finalmente morreu. Poucos compareceram a seu enterro. Menos ainda de fato lamentavam sua morte. Segue aqui o que algumas delas pensaram enquanto seu caixão era posto sob a terra.

Lucas, sobrinho de 16 anos.

“Será que eu devia estar sentindo algo? Só vi este homem duas vezes que sou capaz de lembrar. Deu-me um carrinho de controle remoto no meu quinto aniversário. E me deu meu primeiro gole de cerveja numa festa de ano novo sem que minha mãe soubesse. Ele é família, sinto que deveria estar lamentando sua morte, mas não sinto nada. Vejo apenas um estranho. Um estranho que provavelmente foi como eu um dia.”

“Vejo minha mãe e tia com bons empregos e em famílias estáveis e me pergunto como ele pode ter tomado um rumo tão diferente. Seria culpa de meu avô de alguma forma ou você acabou desse jeito unicamente por tuas próprias escolhas? Seria apenas azar que faz uma irmã virar gerente de um grande banco enquanto o outro vive na miséria até a morte? O que aconteceu com você?”

Seu Antônio, colega de bar.

“Descanse em paz, meu camarada. Poucas pessoas conseguiam me acompanhar numa mesa de bar. Poucas falavam tanta besteira também, mas você foi uma boa companhia. Agora só sobrei eu da velha turma, sempre soube que eu ia ficar por último.”

“Vou fazer o bar brindar a sua memória hoje, vai ser mais que essas suas irmãs almofadinhas vão fazer por você, aposto. Fingem que nem me veem, agora sei o porquê de você odiar elas. Duas patricinhas de nariz empinado se achando melhor que gente tipo eu e você.”

“Toma umas boas com o Célio e o Braga aí no céu. Avise todo mundo que, do jeito que as coisas vão aqui dentro, eu não devo demorar pra chegar.”

Dona Marieta, irmã mais velha.

“Ah, meu Deus, leve o Toninho pro seu lado, sei que ele não teve muito juízo e fez um monte de bobada, mas no fundo ele não era má pessoa. Se o papai tivesse tentado mais quando ele ainda era jovem, lhe dado mais uma chance, tenho certeza que ele teria se ajeitado.”

“Não posso pedir que todos aqui o perdoem pelo que fez, nem eu sei se eu sou capaz. Mas o Senhor é. Só o Senhor teria misericórdia o bastante pra fazer isso. Falei com ele várias vezes no hospital. Sei que debaixo da pose ele sabia dos erros que cometeu e se arrependia deles. Ele já sofreu tanto nos últimos meses, deixe que ele tenha um pouco de paz agora.”
“Não pense no homem que ele se tornou, lembre daquele jovem cheio de energia e engraçado que dizia que ia ser jogador de futebol ou astronauta. Sei que mesmo perto do fim, aquele garoto ainda existia em algum lugar. Receba esse garoto em Seus braços. Ele merece.”

Dona Carla, irmã mais nova.

“Quanto tempo será que isso demora? Até depois de morto esse traste me dá trabalho. Aposto que era isso queria. Não podia ir embora sem deixar uma última dor de cabeça pra nós. Nem dinheiro pro próprio caixão ele tinha. Ainda bem que depois de hoje não vou mais ter que me incomodar com esse infeliz.”

“Devia ter deixado te enterrarem como indigente, assim você continuaria depois de morto aquilo que foi em vida: um ninguém. Ou ao menos eu gostaria que você tivesse sido um ninguém, assim o papai não teria passado o que passou por sua causa.”

“Deus me perdoe por pensar assim num enterro, mas não tem como ser de outra forma. Mas espero mesmo que você esteja em algum lugar melhor, meu irmão, pois este lugar aqui está melhor sem você.”

Ricardo. Coveiro.

“Já vi muitos rostos em enterros. Já vi rostos desesperados, em negação, resignados pelos que se foram. Já vi rostos compadecidos pelos que ficaram. Poucas vezes vi rostos como o de hoje. Não tenho certeza, mas se tivesse que descrever o que vejo aqui só poderia chamar de alivio.”

“Não sei quem foi esse sujeito, se foi alguém terrível que merece se despedir do mundo sem nenhuma lágrima derramada sobre seu caixão. Ou se foi apenas alguém que passou anônimo na vida, incapaz de causar saudades em quem quer que seja. Só sei que essa lápide nunca receberá visitas. Pertence a alguém que deixou esse mundo sendo amado por ninguém. Um túmulo sem flores.”

“Como será o túmulo de todos nós. Um dia.”

domingo, 9 de novembro de 2014

Os Sorrisos de Sabrina



De todas as qualidades que compunham a perfeição que era Sabrina, minha favorita sempre foi o sorriso. Seu sorriso comunicava tudo que alguém precisava saber sobre seu estado de espírito. Seu sorriso valia mais que mil palavras. Foi assim do primeiro ao último.

O primeiro veio quando fomos apresentados na festa de um amigo em comum. Era um sorriso pequeno e acanhado, um substituto para o “oi” que sua timidez extrema a impediu de dizer. Não quis ser apresentado a mais ninguém pelo resto da noite.

Semanas depois, após jogarmos boliche com alguns amigos, ofereci carona para ela. Primeira vez que ficamos sozinhos. Foi uma viagem de vinte minutos. Vinte minutos que foram o bastante pra transformar suas risadinhas educadas em verdadeiras gargalhadas. O bastante pra me dar confiança de dizer que devíamos sair juntos um dia.

Quando ela riu abertamente de um trocadilho idiota que fiz foi que percebi que ela realmente gostava de mim. Todos os outros deram risadas constrangidas da tolice de meu comentário, ela riu de verdade. Não se ri de verdade de um comentário daqueles, apenas se gostar bastante de seu autor ou se for um completo idiota. E ela não nem um pouco idiota. Ela era perfeita.

O sorriso constrangido, mas indubitavelmente feliz, que ela deu depois de nos beijarmos pela primeira vez me deu a certeza de que começávamos algo real ali. Aquele não seria um momento único, mas um começo. Eu dizia “tchau”, mas me recusava a largar sua mão quando ela tentava ir embora, seu sorriso cada vez que eu fazia isso me dizia o quanto ela também não queria se despedir.

Quando a pedi em casamento, o sorriso banhado em lágrimas que ela me deu enquanto eu estava de joelhos tornou o “sim” que o seguiu redundante, eu sabia que passaria o resto da vida sendo presenteado com aquele rosto feliz. Sorrimos juntos e ininterruptamente por vários dias depois.

No nascimento de nosso filho vi um sorriso que nunca vira antes e nunca vi depois. Era um sorriso pleno, de alguém que está vivenciando o melhor momento de sua vida. Se houvesse um premio pra sorriso mais lindo do mundo, aquele ali seria impedido de participar pra não ser injusto com a concorrência.

A primeira vez que notei alguma mudança foi alguns anos depois, quando eu repeti o comentário tolo de quando nos conhecíamos, agora num evento de sua empresa. Não consegui nem a risada educada habitual, nem a risada incrédula balançando a cabeça de quando eu a deixava embaraçada. Consegui nada. O sorriso que ela deu foi para seus amigos. Um sorriso de quem pede desculpas.

Com o passar dos anos, sorrisos comuns foram ficando cada vez mais significativos conforme iam ficando mais e mais raros. Buscava ver neles um raio de esperança que tudo voltasse ao normal, mas pra cada sorriso genuíno, eu recebia outro ressentido quando eu pedia desculpas após uma briga.

Quando finalmente concordei com o divórcio e assinei os papéis, ela me deu um sorriso de um milésimo de segundo, que mais parecia um espasmo muscular. Foi como um triste ponto final de uma bela poesia composta de todas suas expressões alegres que testemunhei.

Só me restavam os sorrisos pequenos e acanhados quando deixamos nosso filho na casa um do outro, substitutos do “oi” que seu ressentimento não lhe permitia dizer, e as lembranças de todos os antigos. O que eu não faria pra receber um deles novamente.

Num jantar em família em que celebrávamos a formatura do ensino médio de Marquinhos, nos lembramos de sua infância, das gracinhas que fazia e o quanto ele cresceu rápido, já estava caminho da universidade e namorando sério. No meio de tantas recordações felizes, falei daquele trocadilho imbecil. Marquinhos ficou incrédulo com a tolice de seu jovem pai. 

Já Sabrina riu. De verdade.