Estou olhando
pra baixo. O som da brisa é quase uma triste trilha sonora do fim. Os quinze
andares entre o chão e eu são mais que o suficiente. Várias vezes eu estive
aqui, decidi que seria o lugar perfeito pra me matar. A vista é linda,
especialmente ao pôr-do-sol e a noite, quando a cidade está toda iluminada.
Gostaria que esta fosse minha última visão. Algo, porém, sempre me impediu de
ir adiante. Os segundos finais da queda.
Pergunto-me se
eu me sentiria em paz. Seria irônico, sentir paz, alivio, ou qualquer
sentimento agradável no momento em que finalmente conseguisse me jogar para
morte. Ou talvez eu me desesperasse e desejasse não ter pulado. O que seria uma
constatação terrível pra se ter enquanto se aproxima do chão. Pelo menos eu não
teria tanto tempo assim pra ficar arrependido.
Talvez você
esteja se perguntando por que eu quero pular daqui, pra começo de conversa. Ou talvez
nem se importe. E aí está um dos motivos, ninguém se importa. Que clichê! Você
deve estar pensando. Bem, os clichês nascem justamente pela repetição. Então
desculpa se eu não sou exatamente um caso excepcional.
Tentei fazer
amigos a vida toda. Até consegui alguns, mas logo se tornou óbvio que não tinha
nada a acrescentar na vida de quem quer que seja e era deixado de lado. Meus
relacionamentos mais duradouros foram com outros rejeitados, mas estes também
só duravam até que elas achassem um rejeitado mais interessante. Não as culpo
por isso, também não enxergo qualquer atrativo em mim que pudesse segurar
qualquer pessoa. Não falo isso querendo pena de alguém, só estou... bem, dane-se,
estou preste a me matar, talvez eu mereça um pouco de pena. Mas sério, só
queria explicar a situação.
Já são
quarenta anos disso. Sei que não vou mudar agora. Sabe essas histórias de
velhinhos que se graduam na universidade depois dos noventa ou que dão a volta
ao mundo? Eu não sou um desses, sou do outro tipo. Do tipo que fica rabugento e
reclama dos garotos que fazem barulho na rua.
Se você chegou
até aqui, deve estar pensando que não é a toa que ninguém me atura. Que bom.
Não quero que ninguém fique triste com minha partida. Talvez uma ou outra ex-namorada,
mas a essa altura duvido que elas sequer tenham como saber de minha morte. Não
mantenho contato com muita gente.
Falo com você
porque não deixei nenhum bilhete. Não haveria ninguém pra ler. Nem muito pra
escrever. Não tenho nenhum grande motivo real pra fazer isso. Nenhuma doença
terminal que me condenaria a anos de sofrimento, nem alguma grande desilusão
amorosa nem fui à falência. Não tenho motivos pra morrer, apenas também não
tenho nenhum pra viver.
Talvez por
isso tenha subido até aqui tantas vezes e descido pelo elevador ao invés de
pelo lado de fora. Penso em pessoas que de fato se matam porque não aguentam
mais viver após anos de sofrimento ou porque não querem os anos de sofrimento
que sabem que terão. Elas não vem aqui várias vezes. Não olham pra baixo e
passam horas pensando, e se pensam provavelmente isso só lhes dá mais motivos
pra pular. E então elas o fazem.
Quando somos
crianças e aprendemos que um dia todos vamos morrer, criamos um medo da morte
porque tudo é divertido e mágico e não queremos que acabe. Mas quando a
diversão se esgota a morte não parece tão assustadora.
Já tentei
fazer trabalho voluntário tentando assim me iludir de que minha vida tinha
algum significado maior. Mas a verdade é que não me importo com outras pessoas
a ponto de fazer do ato de ajudá-las um hábito. Por isso não culpo ninguém por
não se importarem comigo. O sentimento é recíproco.
Depois de toda
essa conversa eu acho que seria muito anticlimático se eu não pulasse. Mas
também não vou me apressar só por causa de vocês. Desculpa. Ou talvez você
esteja esperando uma epifania que me faça enxergar que a vida é bela e que
tenho muito pelo que viver e que eu devo pegar o elevador e sair em busca do
amor. Acredite, não vai acontecer.
Já estive aqui
no alto várias vezes esperando essa epifania que nunca veio. Mas a verdade que
apenas uma coisa me mantém vivo. Aqueles malditos segundos finais.