quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cicatrizes

- Nós estávamos voltando pra casa do restaurante, o cara veio por trás de nós, encostou a faca na minha costa e pediu nossos celulares. Eu entreguei o meu, minha irmã entregou o dela. Então ele pediu o relógio que minha irmã estava usando. Aquilo eu não podia permitir. Vejam bem, sou completamente contra reagir a um assalto, acho que nossa vida vale mais que celulares, carteiras, ou qualquer quantia de dinheiro que você possa estar carregando, mas aquele relógio era a única herança que nossa avó deixou. Ela morreu quando ainda éramos crianças, mas nós éramos muito próximos a ela. Eu não podia deixar um delinquente drogado levá-lo. E como ele estava apenas usando uma faca, eu reagi. A gente lutou um pouco, eu segurando o braço dele, minha irmã meio que paralisou com o medo. Ele conseguiu me cortar, mas mesmo sangrando eu acho que ele viu que não valia a pena tentar brigar comigo pelo relógio, então ele correu.

Era uma reunião entre amigos, meu irmão contava esta história de forma extremamente dramática sob o olhar atento e admirado de uma moça que um de nossos amigos trouxe. Ela ouvia cada palavra fazendo expressões faciais exageradas em pontos chaves da história demonstrando surpresa e apreensão. Meu irmão a levou pra casa naquela noite.

Essa era sua versão favorita de como ele conseguiu sua cicatriz. Tinha também a versão durante uma corrida de Motocross, num acidente que o fez desistir da carreira profissional. Outra versão incluía um acidente de trânsito em que ele acabou resgatando duas crianças de um carro em chamas. Uma que ele não usa mais em que ele viajara para África e era atacado por um leão. Acho que ele percebeu que essa era exagerada demais.

Acho que ninguém fora da família e dos amigos mais antigos sabe a verdadeira história por trás da cicatriz. Quando eu perguntei pra quê ele se dá ao trabalho de inventar e lembrar-se de todas essas versões diferentes, e de qual ele contou pra cada pessoa, a resposta foi bem simples.

- Mana, mana, mana, cicatrizes são maravilhosas. Eu posso inventar qualquer história sobre elas e as pessoas vão acreditar porque a própria cicatriz serve como prova do relato que eu acabei fazer.

Sempre me incomodou como ele conseguia enganar a todos com suas historinhas, talvez pelo fato de eu ter convivido tantos anos com ele diariamente e saber que ele seria incapaz de fazer o que diz ter feito nessas fantasias todas. Também me incomodava o fato de que ele criava histórias que o faziam parecer corajoso e aventureiro quando a verdadeira revela justamente o oposto.

Nós estávamos subindo na árvore que ficava no quintal da casa da vovó pra pegar abacate. Nesse dia fizemos uma aposta de quem conseguia chegar o mais alto na árvore. Eu ganhei, claro. Na hora de descer, ele ficou paralisado com o medo da altura. Tentei conversar com ele pra acalmá-lo e quando finalmente consegui convencê-lo a se mexer, ele se pisou em falso no meio da descida e se cortou em um pedaço de galho quebrado. Por sorte, ele conseguiu segurar em um outro galho e evitou fazer o resto do caminho caindo, mas assim ele ganhou a cicatriz que anos depois ele usaria pra conseguir mulheres e impressionar os amigos.

Eu também tenho uma cicatriz. Essa sim tem uma história interessante por trás, eu apenas não a uso pra impressionar os outros como meu irmão faz.

Meu filho tinha começado a andar fazia alguns meses e neste dia estávamos passeando pelo bairro. Quando dobramos a esquina da rua de nossa casa, vimos que o cachorro da dona Alice tinha escapado. Ele viu meu filho, que estava alguns passos a minha frente, e avançou. Meu peito parecia que ia explodir com a velocidade que meu coração começou a bater. Quando ele pulou no Betinho, eu me pus no meio do caminho e agarrei o cachorro pelo pescoço.

Meu filho começou a chorar e o cachorro latia enquanto eu colocava meu corpo sobre o dele. Alguns vizinhos viram minha luta e vieram em meu auxilio. Mas não antes do cachorro conseguir colocar os dentes em mim. Depois que ele tinha sido seguro pelos outros, eu corri pra abraçar meu filho, que ainda estava desesperado, pra acalmá-lo. Até hoje ele não gosta de cachorros.


Essa sim foi uma história emocionante. Sempre que eu conto as pessoas acham inacreditável. Ainda bem que tenho minha cicatriz pra provar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A bancada julgadora

Eu me movia a uma velocidade no limite entre o andar e o correr. Demorei um pouco a tocar a campainha para poder recuperar o fôlego. Apesar do meu atraso, Amanda atendeu a porta com um largo sorriso.

- Oi, desculpa a demora. O trânsito estava terrível. Houve um acidente, o braço do motoqueiro foi parar no sentido contrário da rua. Terrível.

- Não tem problema, isso nos deu mais tempo pra dar uma última revisada no nosso questionário. Entre.

- Questionário? Que questionário? – Perguntei enquanto cruzava a porta só pra me deparar com três mulheres sentadas lado a lado no sofá me encarando e uma cadeira vazia posta de frente pra elas.

- Sente-se.

Obedeci na cadeira diante das moças enquanto acenava para elas, nenhuma parecia especialmente amistosa.

- O que tá acontecendo?

- Bem, Carlos, é o seguinte: nós dois já saímos algumas vezes e eu acho que estou começando a realmente gostar de você. O problema é que os últimos três namorados que eu tive começaram do mesmo jeito. Eles pareciam ótimos, charmosos, educados e o segundo era até bom de cama. O problema é que todos acabaram do mesmo jeito: O primeiro me traiu com minha irmã, o segundo me traiu com várias mulheres da academia que ele frequentava e o terceiro me traiu com vários homens da academia que ele frequentava.

- Entendo – eu disse sem entender onde aquilo ia parar.

- Em todos esses relacionamentos, sem exceção, minhas amigas me avisaram que não os achavam tão maravilhosos quanto eles pareciam. Eu não dei ouvidos e agora tenho três pares de chifre na minha cabeça como recordação de cada namorado. Trinta e seis, se contarmos um par pra cada pessoa diferente que com quem eles me traíram. Que eu saiba. Então, quando começamos a sair, decidi que não ia deixar meu pobre julgamento me prejudicar de novo, e pedi que minhas amigas o avaliassem, assim me poupando de um possível coração partido. E aí entra o questionário que preparamos.

- Isso é estranho, eu preciso mesmo fazer isso?

- Você pode fazer isso ou nunca mais vê-la. – Disse a moça na extremidade esquerda do sofá.

- Bem. Essa é Ana – disse Amanda apontando para a tal moça - minha amiga desde a escola. Esta é Clara – continuou ela apontando para a jovem ao meio - nos conhecemos na faculdade, e essa é Alana, minha irmã – apontou pra jovem à direita – pessoal, este é Carlos.

Enquanto acenava novamente para cada uma conforme era apresentado, percebi que Ana era a menos amistosa do trio, nem ao menos esboçando um sorriso, enquanto Clara se mostrou mais receptiva e chegou a acenar pra mim com as mãos. Já Alana tinha no rosto uma expressão de quem obviamente não queria estar.

- Essa é a irmã que ficou com seu primeiro namorado?

- Sim.

- Você vai deixar sua irmã que ficou com seu primeiro namorado avaliar seu possível novo namorado?

- Aquilo foi muito tempo atrás, nós superamos.

- Como?

- Ela colocou laxante na minha comida. No dia do meu casamento – Disse ela cruzando os braços.

- Ah.

- Eu tenho uma pergunta pra você, Carlos: você frequenta alguma academia?

- Não.

- Fique longe de qualquer uma e eu te dou minha aprovação. Posso ir embora? – Ela finalizou com um olhar antipático para a irmã.

- Não. Você vai ficar aí mesmo. Preciso te lembrar de que ainda tenho o vídeo do seu vestido de casamento deixando de ser completamente branco?

- Ok, continuando – Disse Ana tirando alguns papeis que estavam grampeados de dentro de sua bolsa que estava no chão - Carlos, eu tenho em mãos o relatório que Amanda nos passou de todas as interações que vocês tiveram até agora. Após uma cuidadosa análise, percebi que você tem a tendência a fazer muitos elogios a respeito da aparência dela. No primeiro encontro você fez um total de 11 comentários a esse respeito, incluindo frases sobre o “olhar misterioso”, “cabelos brilhantes” e “pinta engraçadinha na bochecha”. Você diria que a aparência é muito importante pra você?

- Bem, eu diria que sim, ao menos a princípio. Aparência é a primeira coisa que nos chama atenção quando conhecemos uma pessoa nova. É o que desperta o nosso primeiro interesse, para depois conhecermos quem aquela pessoa é no interior.

- Muito bem, digamos que daqui uns anos, quando você já estiver acostumado com a beleza de Amanda, você encontre uma mulher que considere igualmente ou mais bela, você iria querer conhecer o “interior” dela?

- Bem, é provável que eu a olhasse por instinto, mas se eu estiver em um relacionamento firme com alguém, eu não faria nada além disso.

Ela anotou algo num caderninho, pelo movimento labial foi possível ver que entre as palavras estavam “papo furado” e “instinto”.

- Sente-se confiante nisso? Você alguma vez já traiu alguma namorada?

Nessa pergunta eu paralisei. Queria muito olhar para Amanda, mas não tive coragem.

- Sim. Já traí duas, pra ser exato. Uma no ensino médio, outra na faculdade. Uma eu traí durante uma festa em que eu bebi demais e outra eu traí com uma ex-namorada.

Ana e Clara fizeram anotações em seus blocos.

- Escutem, eu sei que errei ao fazer isso e se eu pudesse voltar atrás eu não faria de novo. Bem, talvez a primeira. Mas certamente nunca mais farei algo assim.

- Tem certeza? – Perguntou Clara, em um tom insinuante – Nem com o incentivo dos teus amigos você cairia numa tentação?

- O que quer dizer?

- Verificamos os amigos com que você mais interage nas redes sociais. E vimos, por exemplo, seu amigo Ronaldo postando um texto romântico copiado e colado e erroneamente atribuído a Shakespeare para a namorada em comemoração aos três meses de namoro, enquanto em outra rede social, não mais que uma semana atrás ele postava sobre como a festa que ele foi só tinha, e eu cito, “mulher gostosa e bêbada”, postagem que recebeu uma curtida sua.

- Amigos curtem tudo que os outros amigos postam. E vocês não podem me julgar pelas atitudes dele.

- Pode se dizer muito sobre alguém através das companhias que ele mantém.

- Foi um comentário numa rede social. Pode ter sido estúpido, mas isso não quer dizer que ele seja. Ele é fiel à namorada, disso eu tenho certeza. Assim como todos os meus outros amigos – eu pauso e penso o quanto elas sabem dos meus outros amigos – com exceção do Júlio, Matheus, Antônio e o Marcelo. Mas eu nem falo com eles tão frequentemente assim.

- Vocês jogam futebol juntos aos domingos e se reúnem pra happy hour pelo menos uma vez por semana – disse Ana consultando seus papeis.

- Exato. Raramente nos vemos.

Mais anotações. Senti que não estava indo muito bem.

- Ele tá suando, estou começando a gostar disso – disse a irmã, sorrindo pela primeira vez – diga-me, Carlos, como é seu relacionamento com suas ex-namoradas?

- Não tenho contato com a maioria delas. Uma ainda é uma amiga com quem tenho contato ocasionalmente...

- Ocasionalmente como seus amigos de happy hour?

-... e uma outra que... bem... é minha vizinha.

As três me olharam em silêncio, surpresas.

- Essa é a ex com quem você traiu uma de suas namoradas? – pergunta a irmã estreitando os olhos.

- Sim. Ela é minha vizinha desde a infância e foi a minha primeira namorada.

- Interessante.

As três fizeram anotações em seus papeis.

- Muito bem, eu cansei – disse enquanto me levantava – Vocês já se divertiram bastante, mas já chega. Amanda, se você quiser realmente me conhecer vai ter que ser do modo antigo: convivendo comigo. Eu aposto que se eu vasculhasse a vida de vocês, o que vocês postam na internet, com quem vocês andam, eu encontraria centenas de motivos pra não namorar qualquer uma de vocês. Eu vou pra casa, você disse que estava começando a gostar de mim. Se isso é verdade, me dê uma chance de provar que sou mais que meu perfil numa rede social. De que não é uma entrevista que vai dizer se sou o cara certo pra você.

Amanda não falou para alguns segundos e ficou apenas imóvel olhando para o chão até começar a andar lentamente em minha direção. Ela parou diante de mim e tocou meu rosto com as duas mãos e me olhou nos olhos pelo que me pareceu uma eternidade antes de falar.


- Carlos, o resultado da sua avaliação sai em 48 horas. Entraremos em contato. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Um show de Rock.

As primeiras notas atingiram meus ouvidos e se espalharam pelo resto de meu corpo na forma de uma estranha combinação de energia e paz. Lentamente, comecei a batucar meus dedos nas minhas cochas, minha cabeça também começou a balançar pra frente e pra traz em movimentos uniformes e ainda lentos.

Cantei com o vocalista e outras centenas de vozes quando a letra começou. O espaço ao meu redor ficava cada vez mais claustrofóbico enquanto mais e mais pessoas tentavam se aproximar do palco. Eu era empurrado de todos os lados e a cada topada, era como se uma troca de energia ocorresse entre os corpos em colisão.


Conforme o som ficava mais pesado e forte, minha entrega aquele momento também se intensificava. Logo eu estava gritando, pulando abraçado com desconhecidos em um momento e empurrando todos ao meu redor no seguinte. Eu havia encontrado um novo nível de consciência.

Eu podia sentir os olhares das pessoas que ainda não estavam tão entregues quanto eu se divertindo com minha falta de inibição. Após um constrangimento inicial, passei a sentir pena delas por não estarem aproveitando todo o potencial do show como eu estava. Momentos depois eu nem mais me importava que elas existissem.

Meu Universo estendia-se apenas tanto quanto o alcance da música. Não havia antes ou depois. Eu nasci quando a primeira música começou e morreria quando a última nota da última música acabasse. As vozes em minha cabeça, que teimam em lembrar-me de obrigações, problemas e erros, se calaram. Ou melhor, juntaram-se para cantar e gritar junto comigo.

Eu era pura energia. Antes reprimida pelas obrigações da rotina, mas agora liberta de minhas correntes, movendo-me como que depois de anos de imobilidade, gritando como que após séculos de silêncio, ao ponto de minha garganta doer. Meu sangue fervia com uma raiva imensurável. Não uma raiva destrutiva, mas uma que impulsiona a ação.

Não sabia quem eram as pessoas ao meu redor, mas como eu, todos haviam nascido naquela noite e morreriam ao final da apresentação. Quem eles eram antes e depois não importava. Médicos, advogados, professores, secretárias, balconistas, desempregados, foda-se, ali, todos eram igualados. Todos se divertiam igualmente, trocando olhares, sorrisos, apertos de mão, abrações, empurrões.


Duas horas. Foi a duração do show daquela noite. Mas seu efeito em mim durou muito mais. A música cessara e eu continuei ali. Cada célula cansada de meu corpo ainda querendo mais. Eu estava vivo. Mais vivo que em qualquer outro lugar que já passei. Mal posso esperar pelo próximo.