quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Bêbado com razão

Eu andava lentamente a passos irregulares enquanto o mundo girava ao meu redor. A garrafa vazia na minha mão estava extremamente leve, mas mesmo assim eu fui incapaz de impedir que ela escapasse por entre meus dedos e se quebrasse no chão, provavelmente por ter sido a nona que eu esvaziava naquela noite.

Eu sentei na parada de ônibus, alguns carros passavam diante de mim a uma velocidade que seria impossível durante o dia e um cachorro fedorento estava deitado alguns metros ao meu lado. O vento frio da noite fazia o efeito da bebida passar aos poucos, fazendo-me lembrar do motivo de eu ter começado a beber em primeiro lugar, mas eu não queria relembrar.

Vasculho meus bolsos torcendo pra encontrar mais dinheiro para outras bebidas, mas só encontro algumas moedas, as mesmas que estavam lá da última vez que procurei antes de sair do bar. Moedas que provavelmente nem pagariam uma passagem de ônibus. Eu tento lutar contra as lágrimas, mas sempre fui péssimo em lutas.

Será que eles ainda estão acordados? Era muito tarde para ainda estarem um sobre o outro, gemendo e tocando-se em todas as partes do corpo. Provavelmente estavam dormindo, de conchinha, ou talvez ela estivesse deitada sobre ele. Talvez ela tivesse adormecido depois de meia hora de cafuné. Ou pior, talvez estivessem acordados, conversando sobre seus sonhos, fazendo planos para o futuro, decidindo o que fazer no domingo a tarde.

Eu dou socos no banco em que estou sentado. A princípio, fracos, mas que logo vão se intensificando. Sinto meus dedos inchando e doendo, mas não paro. Meus dentes estão cerrados a ponto de minha mandíbula doer. Perco a luta contra as lágrimas. Perco como perdi minha esposa pra aquele personal trainer fajuto de academia barata.

O pior era perceber o quão insignificante eu era para ela. Ela nem se deu ao trabalho de tentar disfarçar muito. Todas as vezes que eu a traí eu me desdobrei, gastei grandes quantias de dinheiro, justamente pra que ela nunca soubesse e vivesse feliz na ignorância. Isso é amor de verdade. Isso é se importar com seu parceiro.

Já ela. Praticamente gritou aos quatro ventos o quanto achava o Celio... Caio... Cícero, seja lá qual for o nome do sujeito, gostoso.  E durante os treinos, mesmo eu estando do lado, ela conseguia um jeito de apalpar os músculos dele. Posso nem ficar com raiva do Célio... Caio... Cícero por ter ido pra cama com ela. Eu com certeza iria.

Eu poderia viver com isso. Poderia prosseguir com minha vida fingindo que não sabia de nada. Os vizinhos que a ouviam gritando no meio da tarde provavelmente iam me lembrar, mas bastava nos mudarmos. Não era muito difícil. Mas aí veio o vídeo na internet.

Eu não assisti ao vídeo. Não todo. Ainda. Mas não acredito que ela foi capaz de fazer aquelas coisas. Coisas que eu implorava que fizéssemos e sempre recebia um não, as vezes com nojo na voz. Então num belo dia, chega um cara com um corpo perfeito e realiza minhas fantasias com minha esposa. Aí é demais. Se ainda tivesse uma bebida, eu faria um brinde ao pivete que roubou o celular de minha esposa e postou o vídeo na internet. Eu nunca saberia o tipo de pessoa que eu tinha casado se não fosse por ele.

Sim, sou um babaca, mas estou bêbado e chifrudo. Mereço ser um pouco babaca. Só um pouquinho, vai.

Não posso voltar pra casa. E assim que faço essa decisão, vejo o primeiro ônibus do dia vindo ao longe. Decido entrar nele, não sei aonde ele vai e nem me importo. Só quero ir pra bem longe. Pego as moedas em meu bolso e entrego ao cobrador. Ele me olha com sua cara de sono e me fala:

“Tá faltando 35 centavos”.

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