Eu
andava lentamente a passos irregulares enquanto o mundo girava ao meu redor. A
garrafa vazia na minha mão estava extremamente leve, mas mesmo assim eu fui
incapaz de impedir que ela escapasse por entre meus dedos e se quebrasse no
chão, provavelmente por ter sido a nona que eu esvaziava naquela noite.
Eu
sentei na parada de ônibus, alguns carros passavam diante de mim a uma velocidade
que seria impossível durante o dia e um cachorro fedorento estava deitado alguns
metros ao meu lado. O vento frio da noite fazia o efeito da bebida passar aos
poucos, fazendo-me lembrar do motivo de eu ter começado a beber em primeiro lugar,
mas eu não queria relembrar.
Vasculho
meus bolsos torcendo pra encontrar mais dinheiro para outras bebidas, mas só
encontro algumas moedas, as mesmas que estavam lá da última vez que procurei antes
de sair do bar. Moedas que provavelmente nem pagariam uma passagem de ônibus.
Eu tento lutar contra as lágrimas, mas sempre fui péssimo em lutas.
Será
que eles ainda estão acordados? Era muito tarde para ainda estarem um sobre o
outro, gemendo e tocando-se em todas as partes do corpo. Provavelmente estavam
dormindo, de conchinha, ou talvez ela estivesse deitada sobre ele. Talvez ela
tivesse adormecido depois de meia hora de cafuné. Ou pior, talvez estivessem
acordados, conversando sobre seus sonhos, fazendo planos para o futuro,
decidindo o que fazer no domingo a tarde.
Eu
dou socos no banco em que estou sentado. A princípio, fracos, mas que logo vão
se intensificando. Sinto meus dedos inchando e doendo, mas não paro. Meus dentes
estão cerrados a ponto de minha mandíbula doer. Perco a luta contra as
lágrimas. Perco como perdi minha esposa pra aquele personal trainer fajuto de academia barata.
O
pior era perceber o quão insignificante eu era para ela. Ela nem se deu ao
trabalho de tentar disfarçar muito. Todas as vezes que eu a traí eu me
desdobrei, gastei grandes quantias de dinheiro, justamente pra que ela nunca soubesse
e vivesse feliz na ignorância. Isso é amor de verdade. Isso é se importar com
seu parceiro.
Já
ela. Praticamente gritou aos quatro ventos o quanto achava o Celio... Caio...
Cícero, seja lá qual for o nome do sujeito, gostoso. E durante os treinos, mesmo eu estando do
lado, ela conseguia um jeito de apalpar os músculos dele. Posso nem ficar com
raiva do Célio... Caio... Cícero por ter ido pra cama com ela. Eu com certeza
iria.
Eu
poderia viver com isso. Poderia prosseguir com minha vida fingindo que não
sabia de nada. Os vizinhos que a ouviam gritando no meio da tarde provavelmente
iam me lembrar, mas bastava nos mudarmos. Não era muito difícil. Mas aí veio o vídeo
na internet.
Eu
não assisti ao vídeo. Não todo. Ainda. Mas não acredito que ela foi capaz de
fazer aquelas coisas. Coisas que eu implorava que fizéssemos e sempre recebia
um não, as vezes com nojo na voz. Então num belo dia, chega um cara com um
corpo perfeito e realiza minhas fantasias com minha esposa. Aí é demais. Se
ainda tivesse uma bebida, eu faria um brinde ao pivete que roubou o celular de
minha esposa e postou o vídeo na internet. Eu nunca saberia o tipo de pessoa
que eu tinha casado se não fosse por ele.
Sim,
sou um babaca, mas estou bêbado e chifrudo. Mereço ser um pouco babaca. Só um
pouquinho, vai.
Não
posso voltar pra casa. E assim que faço essa decisão, vejo o primeiro ônibus do
dia vindo ao longe. Decido entrar nele, não sei aonde ele vai e nem me importo.
Só quero ir pra bem longe. Pego as moedas em meu bolso e entrego ao cobrador.
Ele me olha com sua cara de sono e me fala:
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