quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Um show de Rock.

As primeiras notas atingiram meus ouvidos e se espalharam pelo resto de meu corpo na forma de uma estranha combinação de energia e paz. Lentamente, comecei a batucar meus dedos nas minhas cochas, minha cabeça também começou a balançar pra frente e pra traz em movimentos uniformes e ainda lentos.

Cantei com o vocalista e outras centenas de vozes quando a letra começou. O espaço ao meu redor ficava cada vez mais claustrofóbico enquanto mais e mais pessoas tentavam se aproximar do palco. Eu era empurrado de todos os lados e a cada topada, era como se uma troca de energia ocorresse entre os corpos em colisão.


Conforme o som ficava mais pesado e forte, minha entrega aquele momento também se intensificava. Logo eu estava gritando, pulando abraçado com desconhecidos em um momento e empurrando todos ao meu redor no seguinte. Eu havia encontrado um novo nível de consciência.

Eu podia sentir os olhares das pessoas que ainda não estavam tão entregues quanto eu se divertindo com minha falta de inibição. Após um constrangimento inicial, passei a sentir pena delas por não estarem aproveitando todo o potencial do show como eu estava. Momentos depois eu nem mais me importava que elas existissem.

Meu Universo estendia-se apenas tanto quanto o alcance da música. Não havia antes ou depois. Eu nasci quando a primeira música começou e morreria quando a última nota da última música acabasse. As vozes em minha cabeça, que teimam em lembrar-me de obrigações, problemas e erros, se calaram. Ou melhor, juntaram-se para cantar e gritar junto comigo.

Eu era pura energia. Antes reprimida pelas obrigações da rotina, mas agora liberta de minhas correntes, movendo-me como que depois de anos de imobilidade, gritando como que após séculos de silêncio, ao ponto de minha garganta doer. Meu sangue fervia com uma raiva imensurável. Não uma raiva destrutiva, mas uma que impulsiona a ação.

Não sabia quem eram as pessoas ao meu redor, mas como eu, todos haviam nascido naquela noite e morreriam ao final da apresentação. Quem eles eram antes e depois não importava. Médicos, advogados, professores, secretárias, balconistas, desempregados, foda-se, ali, todos eram igualados. Todos se divertiam igualmente, trocando olhares, sorrisos, apertos de mão, abrações, empurrões.


Duas horas. Foi a duração do show daquela noite. Mas seu efeito em mim durou muito mais. A música cessara e eu continuei ali. Cada célula cansada de meu corpo ainda querendo mais. Eu estava vivo. Mais vivo que em qualquer outro lugar que já passei. Mal posso esperar pelo próximo.

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