As
primeiras notas atingiram meus ouvidos e se espalharam pelo resto de meu corpo
na forma de uma estranha combinação de energia e paz. Lentamente, comecei a
batucar meus dedos nas minhas cochas, minha cabeça também começou a balançar
pra frente e pra traz em movimentos uniformes e ainda lentos.
Cantei
com o vocalista e outras centenas de vozes quando a letra começou. O espaço ao
meu redor ficava cada vez mais claustrofóbico enquanto mais e mais pessoas
tentavam se aproximar do palco. Eu era empurrado de todos os lados e a cada
topada, era como se uma troca de energia ocorresse entre os corpos em colisão.
Conforme
o som ficava mais pesado e forte, minha entrega aquele momento também se
intensificava. Logo eu estava gritando, pulando abraçado com desconhecidos em
um momento e empurrando todos ao meu redor no seguinte. Eu havia encontrado um
novo nível de consciência.
Eu
podia sentir os olhares das pessoas que ainda não estavam tão entregues quanto
eu se divertindo com minha falta de inibição. Após um constrangimento inicial,
passei a sentir pena delas por não estarem aproveitando todo o potencial do
show como eu estava. Momentos depois eu nem mais me importava que elas
existissem.
Meu
Universo estendia-se apenas tanto quanto o alcance da música. Não havia antes
ou depois. Eu nasci quando a primeira música começou e morreria quando a última
nota da última música acabasse. As vozes em minha cabeça, que teimam em
lembrar-me de obrigações, problemas e erros, se calaram. Ou melhor, juntaram-se
para cantar e gritar junto comigo.
Eu
era pura energia. Antes reprimida pelas obrigações da rotina, mas agora liberta
de minhas correntes, movendo-me como que depois de anos de imobilidade,
gritando como que após séculos de silêncio, ao ponto de minha garganta doer.
Meu sangue fervia com uma raiva imensurável. Não uma raiva destrutiva, mas uma
que impulsiona a ação.
Não
sabia quem eram as pessoas ao meu redor, mas como eu, todos haviam nascido
naquela noite e morreriam ao final da apresentação. Quem eles eram antes e
depois não importava. Médicos, advogados, professores, secretárias,
balconistas, desempregados, foda-se, ali, todos eram igualados. Todos se
divertiam igualmente, trocando olhares, sorrisos, apertos de mão, abrações,
empurrões.
Duas
horas. Foi a duração do show daquela noite. Mas seu efeito em mim durou muito
mais. A música cessara e eu continuei ali. Cada célula cansada de meu corpo
ainda querendo mais. Eu estava vivo. Mais vivo que em qualquer outro lugar que
já passei. Mal posso esperar pelo próximo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário