quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Vingança

Sinopse:

"Após sofrer uma perda dolorosa, Seu Francisco busca uma profissional que pode lhe dar a justiça que tanto precisa"

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Seu Francisco estava parado diante da loja a quase dez minutos. Parecia uma loja normal de roupas femininas, mas não era. Foi o que prometeu o homem que lhe deu o cartão que segurava firmemente entre seus dedos.

Ele olhou mais uma vez do cartão para o letreiro da loja. Era a sétima vez que repetia o gesto. Não pra confirmar que estava no lugar certo, já não restava dúvidas quanto a isso, mas apenas pra ter o que fazer, visto que suas pernas pareciam incapazes de decidir entre o rumo da loja ou o de volta para casa.

Era uma piada. Tinha que ser. Alguém com senso de humor doentio estava se aproveitando do pior momento de sua vida para dar umas boas risadas e ele era estúpido o bastante pra cair na brincadeira quando devia estar em casa com sua esposa.

Seu Francisco pensou em sua esposa. E pensou em sua filha. Sua filha.

Ele entrou na loja.

Seu Francisco olhou para todos os lados em busca de algo fora do normal. A loja era razoavelmente espaçosa. As duas paredes laterais eram totalmente tomadas por roupas penduradas que iam até o teto. Mesas enfileiradas formavam três corredores que iam até os fundos da loja. Sobre elas, diversas roupas amontoadas em promoção. Tudo perfeitamente normal.

- Posso ajudá-lo, senhor?

Seu Francisco virou-se de sobressalto e deparou-se com uma moça jovem e sorridente que usava uma calça jeans e uma camisa polo roxa que tinha bordada a mesma logomarca do cartão e do letreiro da loja com as palavras “Moda Afrodite”.

Com a voz enfrentando dificuldades de deixar sua garganta, tudo que Seu Francisco conseguiu dizer foi “Aah”.

- Está procurando algo específico? – insistiu a moça simpática – Temos roupas de todos os tipos: pra gordas e magras, altas e baixas, velhas e jovens. Nossa seleção é ótima.

Seu Francisco lentamente ergueu o cartão e o mostrou a moça, cujo sorriso desapareceu assim que viu o que se tratava.

- Estou procurando algo especial, que eu preciso muito, mas que não consigo achar em nenhum lugar – disse Seu Francisco finalmente.

A vendedora pegou o cartão e o colocou no bolso de trás da calça. Ela olhou Seu Francisco dos pés a cabeça, avaliando-o.

- Siga-me.

Mesmo ainda incerto, Seu Francisco seguiu a vendedora até os fundos da loja. Passaram por outra vendedora conversando com uma cliente e pela moça do caixa que encontrava-se distraída por uma revista sobre o balcão. Eles cruzaram uma porta que dizia “Apenas Pessoas Autorizadas” e entraram num corredor estreito e longo com três portas do lado direito. Eles passaram direto pela primeira porta e a vendedora abriu a segunda para que ele entrasse.

- Aguarde aqui um minuto.

Era uma sala pequena. Todos os cantos estavam cobertos de teia de aranha. Apenas uma escrivaninha e duas cadeiras, uma de cada lado, mobiliavam o aposento. Uma barata em avançado estágio de decomposição podia ser vista perto da porta. Parecia um escritório em fase final de mudança.

Seu Francisco sentou-se e aguardou. Cada segundo de espera parecia horas naquela sala claustrofóbica e malcheirosa. A ideia de que tudo não se tratava de uma piada só ganhava forças em sua cabeça. Ele estava quase levantando, pronto pra voltar pra casa e cuidar de sua esposa quando a porta se abriu.

Um homem grande o bastante pra precisar se curvar ao passar pela porta entrou. Ele possuía um olhar que intimidaria a mais corajosa das pessoas. Seu Francisco levantou-se, mas permaneceu encurvado, mal conseguindo encarar o recém-chegado nos olhos.

- Senhor, pode colocar as mãos na parede? Preciso te revistar - disse o homem com uma voz grave que Seu Francisco pôde sentir seus ossos vibrarem.

- O-o que? Por que? Quem é você?

- Só o segurança. A gerente já vem falar com você assim que eu garantir que você está limpo.

Dividido entre o medo do gigante e o próprio orgulho, Seu Francisco não se mexeu imediatamente, mas seu orgulho logo fraquejou. O gigante apalpou seus braços, pernas, torso e cintura cuidadosamente. Quando se deu por satisfeito, ele abriu outra porta pra deixar entrar uma outra pessoa.

A gerente era uma mulher que aparentava estar acima dos 50 anos, usava um longo vestido florido, óculos pendurados por um fio em volta do pescoço e várias pulseiras nos braços gordos e flácidos. Seu cabelo era curto e castanho com uma boa parcela de grisalho. Era a aparência ideal pra quem gerenciava uma loja de roupas, não pra quem tinha um segurança de prontidão para revistar qualquer um que viesse falar com ela.

- Bom dia. Meu nome é Maria das Dores, e o senhor? - disse a gerente após sentar na cadeira do outro lado da escrivaninha.

- Meu nome é Francisco e... eu não estou certo do que está acontecendo aqui.

- Bem, Francisco – diz Maria, num tom de voz doce – você veio aqui com um de nossos cartões e usou a nossa senha, então eu suponho que o senhor tenha sofrido alguma perda recente e não acredita que a polícia seja a melhor opção para ajudá-lo. Estou certa até agora?

- Sim, está. É minha filha.

- Quer me contar o que aconteceu?

Seu Francisco demorou um pouco a responder. Ele foi levado as lágrimas cada vez que falou sobre sua filha nos últimos dias e não estava disposto a chorar diante daquela estranha. Ele inspirou profundamente algumas vezes e começou.

- Ela foi... a-assassinada. Pelo marido. De acordo com os vizinhos, eles discutiram a noite toda e bem alto. De manhã, eles ouviram apenas o carro dele ir embora. Ele não voltou a noite.

- Minha esposa ficou o dia sem receber notícias dela e nenhum dos dois respondiam mensagens ou atendiam as ligações. Então ela foi até a casa deles e a encontrou.

- Minha filha estava no banheiro. Morta. Espancada. Jogada no próprio vômito e sangue. Cheia de hematomas pelo corpo, especialmente no pescoço. Isso foi o que a polícia me disse. Minha esposa mal conseguiu juntar duas palavras desde aquele dia. Ela está definhando.

- A polícia falou com a família e amigos dele e todos dizem não saber de nada e é isso. Parece que estão satisfeitos. Estão simplesmente esperando que ele apareça um dia. Ele tem dinheiro, pode estar num hotel 5 estrelas agora enquanto minha filha... minha filha...

Seu Francisco respirava pesadamente. Seus olhos estavam marejados mas nenhuma lágrima foi derramada. Maria das Dores abriu uma gaveta da escrivaninha e puxou uma caixa de lenços umedecidos e a empurrou em sua direção. Ele não pegou nenhum.

- Eu sinto muito por sua perda, qual o nome da sua filha?

- Isabela.

- É um lindo nome.

- É sim. Minha esposa escolheu. Escute. O homem que me deu esse cartão disse que vocês podiam me ajudar. Como?

- Nós temos algumas opções. A mais barata seria encontrarmos o sujeito pra você e o entregarmos a polícia. É a opção ideal caso ainda tenha alguma fé em nosso sistema de justiça que não prende ninguém por mais de trinta anos e tem o péssimo hábito de libertá-los com apenas um terço da pena cumprido.

- A segunda opção seria encontrarmos e darmos um fim nele nós mesmos. Isso custaria um pouco mais.

- A terceira e mais cara opção é igual a segunda, mas você mesmo cuidaria dele do jeito que achar melhor.

Seu Francisco pensou. Sabia que opção era a mais tentadora, mas não sabia se era capaz de executá-la. Não sabia se queria ser o tipo de pessoa capaz de executá-la.

- Eu não sou um assassino.

Maria das Dores o encarou por alguns segundos e puxou da mesma gaveta uma agenda de capa preta. Ela a abriu numa página em que havia uma foto que ela olhou tristemente.

- É algo terrível quando alguém nos tira aquilo que mais amamos. Pior ainda é quando não conseguimos justiça pra eles. Sentimos que o desapontamos da pior forma possível.

- Eu já estive nessa situação. Infelizmente, eu não contava com os recursos e experiência que tenho hoje. Então posso apenas torcer para que o monstro que tirou meu filho tenha encontrado o destino que eu reservei pra ele de outro modo.

- Você tem uma opção aqui. Você não precisa passar o resto de seus dias imaginando o assassino de sua filha levando uma vida calma e normal enquanto ela apodrece no cemitério. Essa é a pior parte, sabe? Nossa imaginação.

Enquanto ela falava, Seu Francisco pode visualizar claramente o rosto de seu genro e todos seus maneirismos. Lembrou-se  do modo que ele contava piadas e as estragava ao ficar rindo durante toda a história. Lembrou o modo que ele conseguia imitar todos perfeitamente. Pôde também vê-lo fazendo tudo isso com outra família em algum lugar distante em alguns anos, seu crime bárbaro relegado ao passado.

Seu Francisco pegou um lenço.

- Apenas traga ele de volta. Eu pago o que você quiser. Decido o que fazer quando ele estiver aqui.

- Muito bem. Vamos precisar de algumas informações. Qual o nome dele?

- Maurício Almeida.

Uma longa entrevista se sucedeu em que Seu Francisco contou tudo que podia lembrar sobre o genro. Melhores amigos, lugares que frequentava, até de que banco era cliente. Após todas as perguntas, Maria das Dores o acompanhou de volta ao corredor até a porta que dava acesso a loja.

- Não se preocupe – disse ela – Tenho certeza absoluta que podemos achá-lo. Até hoje não falhei com nenhum cliente. Agora, eu preciso lembrá-lo que essa nossa pequena reunião nunca aconteceu. Ninguém, sem exceção, pode saber que o senhor esteve aqui.

Seu Francisco apenas assentiu e adentrou a loja, escoltado pelo gigante.

Maria das Dores esperou ele estar de volta a rua e foi em direção a terceira porta do corredor e a destrancou. Era uma sala um pouco maior que a da escrivaninha, mas não muito. Várias caixas, uma em cima da outra, estavam empilhadas junto as paredes. Uma pia e um vaso sanitário em um dos cantos e no centro, um homem amarrado a uma cadeira com um saco preto em sua cabeça.

Maria das Dores postou-se diante do indivíduo e removeu o saco. Sua boca era mantida fechada por uma fita que dava várias voltas ao redor de sua cabeça, seu nariz estava quebrado e o sangue seco ia até seu peito. Ele encarou Maria das Dores com o mais profundo medo em sua face.

- Bom dia, Maurício. Receio que tenho más notícias para você.

***

Maurício estava amarrado àquela cadeira a seis dias, a julgar pelas refeições que recebia. Um café da manhã composto por um copo de suco de maracujá e três mistos, um prato de macarrão com molho de tomate para o almoço e, na janta, pedaços de banana e maçã com aveia. A comida lhe era servida em sua boca por alguma das vendedoras. Ele era levado ao vaso sanitário uma vez ao dia pelo homem de mais de dois metros de altura que o capturou e quebrou seu nariz no processo.

Três dias atrás, a mulher da camisa florida veio falar que em breve eles o entregariam para seu sogro. Foi tudo que ele ouviu de qualquer uma daquelas pessoas. Nenhuma delas lhe dirigia qualquer palavra, não importava o quando ele implorasse.

A mulher gorda voltou hoje. Ela trazia uma bandeja com uma tampa. Maurício ensaiou em sua cabeça várias vezes o que diria quando ela reaparecesse.

- Olá, Maurício. Trouxe algo especial para você – ela retirou a tampa, exibindo vários rolos de sushi preenchendo toda a superfície da bandeja – Pelo que eu vi nas tuas redes sociais, você adora isso. Eu, particularmente, acho nojento, mas não estou aqui para julgar. Só queria que comesse algo que apreciasse na sua última refeição.

Toda a conversa ensaiada por Maurício em sua mente desapareceu imediatamente.

- O que? Como assim?

- O pagamento do teu sogro caiu hoje. O levaremos até ele mais tarde. É melhor comer.

Ela sentou-se diante dele com a bandeja em seu colo e pegou um par de hashi, pegou um rolo de sushi e o levou em direção a boca de Maurício. Ele não comeu.

- Olha, vamos conversar, tá legal? Não tem que ser assim. Seja lá o que ele pagou, eu posso pagar mais. Você só tem que me deixar ir embora. Só isso.

- Coma – disse Maria das Dores, calmamente. Maurício obedeceu – Você parece ter uma ideia equivocada do que está acontecendo aqui. Isso não é um leilão. Não vou fornecer meus serviços pra quem paga mais. Você vai responder por seu crime. Simples assim.

Maurício quase se engasgou engolindo o sushi. Sua mente trabalhava mais rápido que nunca em busca de algum argumento salvador.

- Me entregue à polícia então. Eu confesso tudo. Eu vou pra cadeia. Eu prometo.

- Tarde demais para isso, infelizmente.

- Por que? Estou oferecendo dinheiro pra me deixar ir pra cadeia. Você pode dizer a ele que eu fugi. É um bom negócio.

Maria das Dores olhou pra ele quase que com pena, mas ao mesmo tempo exibia um sorriso debochado.

- Sabe, por muito tempo eu estive em conflito entre dois princípios. Eu não acredito que alguém que tire a vida de uma pessoa inocente mereça viver. Mas eu também não acredito na pena de morte, não acho que o Estado deva ter o direito de matar. Não são dois conceitos que casam bem. Por um lado, eu quero que o governo faça o possível pra ressocializar criminosos. Por outro, sei que não posso pedir que uma família em luto tenha a mesma misericórdia.

- Um dia, eu achei a solução. Veja bem, Maurício, eu acredito que a vingança deve ser um direito de todos, mas não um que o Estado forneça. Se alguém comete assassinato, a família da vítima tem o direito de matar esse indivíduo, mas caso a polícia o encontre primeiro, faça-se valer o processo legal.

- Então eu construí um negócio em volta desse conceito. Nós achamos criminosos que aparecem nos jornais, contatamos os familiares e, por um bom preço, lhes damos a oportunidade de escolherem o destino do assassino.

Ela pausou e deu mais um sushi para Mauricio.

- Quer saber quantos escolheram a polícia até agora? – Ela concluiu, o sorriso debochado aumentando.

Antes que pudesse se conter, Maurício cuspiu no rosto de Maria das Dores com toda a força que conseguiu reunir, todo seu corpo tomado pela fúria. Tão rápido quanto surgiu, a raiva se dissipou, deixando para trás apenas medo e desesperança.

Maria das Dores permaneceu parada alguns segundos com os olhos fechados. Saliva e pedaços de arroz escorriam por sua bochecha. Ela pegou um lenço do bolso e limpou seu rosto.

- Sabe – disse ela – nós nunca contamos aos parentes que já temos o assassino. Eles poderiam simplesmente ir à polícia. Em vez disso, nós os fazemos nos contratarem primeiro. Dessa forma, eles se tornam os mandantes. A maioria não tem coragem de finalizar o serviço, então sobra pra gente fazer o trabalho sujo. Seu sogro me pareceu o tipo sem coragem também. Se for o caso, quero que saiba que sujarei minhas mãos com todo o prazer.

Maria das Dores pegou o saco preto e violentamente colocou Maurício de volta na escuridão.

***

O carro de Seu Francisco balançava acentuadamente enquanto ele dirigia pela estrada de terra rumo à chácara que Maria das Dores lhe disse pra ir. Ao seu lado, uma mulher baixa e de aparência extremamente frágil acariciava uma cruz pendurada em seu colar.

A casa era pequena, não devia ter mais que dois quartos, uma cozinha e uma sala. Ao seu lado, um carro estacionado e o gigante que trabalha na loja de pé encostado no porta-malas.

Seu Francisco parou o carro e olhou para a mulher.

- Tem certeza que quer fazer isso? Você pode ficar aqui.

Ela não respondeu, apenas continuou olhando para a casa por alguns segundos e então abriu a porta do carro e saiu. Seu Francisco saiu em seguida.

- Quem é ela? Era pra você vir sozinho – disse o gigante de modo ameaçador.

- É minha esposa. Antônia. Está tudo bem. Ela é a única que sabe disso. Eu garanto.

O gigante estava com uma das mãos nas costas. Ele olhava de um para o outro desconfiado.

- Vá embora – disse ele – você quebrou o acordo.

- O que? Não. Eu cumpri o acordo. Eu paguei o que me pediram. Agora cumpra a sua.

- Vamos cumprir nossa parte. E quando sentirmos que é seguro, te daremos provas. Agora saia daqui.

- Não, não, não – Seu Francisco elevou sua voz e já se aproximava lentamente do gigante apontando o dedo pra ele – Eu quero vê-lo. Vocês não vão tirar isso de mim. Não irei embora até vê-lo.

O gigante puxou uma arma que guardava atrás de si e deu um passo pra frente. Os dois homens ficaram ali se encarando até que Maria das Dores apareceu.

- Cavalheiros, não vamos nos exaltar. Isso é tão desnecessário.

Ela estava na porta da casa. Um sorriso meigo extremamente falso estampado no rosto.

- Você entende nossa preocupação, não é, Seu Francisco? Tínhamos acordado que ninguém mais ficaria sabendo de nosso acordo. E agora você pede que acreditemos que não vai mais abrir o bico quando você claramente já abriu?

- Eu não ia contar, mas eu lembrei do que você falou sobre passar a vida imaginando ele livre... eu não podia tirar esse peso de mim e deixar minha esposa continuar carregando ele sozinha.

- E quanto aos tios dela? Os primos, amigos, avós? Vai tirar o peso de todos eles quando parecerem tristes durante a ceia de natal?

- Não... Veja...

- Posso vê-lo? – Disse Antônia, aproximando-se. Sua voz era quase inaudível – Por favor.

Maria das Dores olhou para aquela senhora minúscula. Antônia era significativamente menor que todos ali. Seus olhos já anunciavam lágrimas que, sem dúvida, não demorariam a cair. Ela parecia incapaz de permanecer de pé caso fosse atingida pela mais leve brisa.

- Muito bem – disse Maria das Dores – Vamos acabar com isso.

O gigante abriu o porta-malas. Maurício estava lá dentro amarrado dos pés a cabeça e com fita cobrindo sua boca. O gigante o puxou para fora e o largou no chão sem o menor cuidado. Em seguida, o pôs sentado apoiado no carro.

Seu Francisco olhou para ele completamente enojado, suas mãos se convertendo em punhos. Antônia se aproximou e ajoelhou-se diante de Maurício e retirou a fita de sua boca.

- Preciso te fazer algumas perguntas – disse ela, quase num sussurro.

- Dona Antônia – Maurício respondeu, claramente desesperado – Por favor, vocês não precisam fazer isso.

- Por que você fez aquilo com minha filha?

- Dona Antônia, por favor.

- Por que você fez aquilo? Responda – a voz de Antônia aumentou consideravelmente.

- Eu posso explicar tudo, mas vamos sair daqui. Foi tudo um mal entendido.

- Por que você fez aquilo? – Ela já estava quase gritando.

- Me escute, as coisas não aconteceram como vocês acham. Acredite em mim, eu amava sua fi...

BAM!

O tapa que Antônia deu foi tão forte que certamente machucou sua mão, embora ela não tenha demonstrado dor em nenhum instante. As lágrimas que ela derramava eram de pura raiva.

- Não se atreva. Não se atreva a dizer que amava minha filha. Eu a encontrei. Não havia nada parecido com amor naquele lugar. Só havia dor e sofrimento. Você a destruiu. Você...

Maurício agora chorava também. Não se arriscava a olhar para a sogra mais. Mantinha sua face voltada para o chão, soluçando.

- Eu sei porque você a matou. Ela sempre falou que você era ciumento e esquentado. Nunca pensei que pudesse chegar a esse ponto. Nem no meu pior pesadelo. Nós gostávamos de você. Nós confiamos em você.

Antônia pegou o rosto de Maurício com as duas mão e o fez olhar para ela.

- Você se arrepende do que fez? Seja sincero. Por favor.

Maurício tentou falar, mas estava sem ar de tanto chorar. Ele respirou pesadamente algumas vezes antes conseguir pronunciar uma palavra completa.

- Si-Sim. Eu sinto muito. Não era pra ter acontecido. Eu não queria que tivesse acontecido. Não mesmo.

Antônia o abraçou. Um abraço delicado. Um abraço de mãe. Ela o largou e olhou bem nos olhos de Maurício.

- Eu acredito em você. Eu te perdoo. E rezo para que Deus o perdoe também.

Antônia levantou-se, deu as costas pra ele e se dirigiu ao carro. Maurício mal teve tempo de processar as palavras finais dela quando sentiu seu peito explodindo.

Seu Francisco estava diante dele segurando a arma fumegante ainda na posição em que a disparou. Maria das Dores e o gigante se assustaram com o barulho. Até então, eles observavam toda a cena fascinados. Antônia continuou andando até o carro sem olhar para trás e entrou.

As costas de Maurício bateram no chão. Choque espalhado pela sua face que lutava pra continuar respirando. Seu Francisco aproximou-se mais ainda e mirou cuidadosamente entre os olhos do assassino de sua filha. Maurício tentou falar algo, mas um disparo final da arma o calou para sempre.

Seu Francisco ficou ali parado por um tempo. Antes que Maria das Dores pudesse falar algo, ele curvou-se e, com uma mão na barriga, vomitou bem ao lado do corpo inerte de seu genro.

Ele cambaleou e vomitou ainda mais ao lado de algumas plantas próximas do carro. O cheiro do conteúdo regurgitado de seu estômago misturando-se com o do conteúdo agora presente nas calças de Maurício. Maria das Dores voltou a sorrir.

- Não é tão simples quanto você imaginou que seria, eu suponho.

Seu Francisco ignorou a pergunta.

- Você vai fazer ele desaparecer, certo? – disse ele, limpando a boca.

- Naturalmente.

- Tem certeza de que pode fazer isso?

- Nenhum dos outros foi encontrado até hoje.

Sem dizer mais nada, Seu Francisco partiu em direção ao carro, onde sua esposa estava sentada no banco do passageiro olhando para o próprio colo.

- Estou confusa – disse Maria das Dores
- Ela realmente o perdoou, ou foi só uma tortura final pra ele?

- Minha esposa acredita que todos merecem a chance de se arrependerem de seus pecados e pedir perdão a Deus. Ela quis dar a ele essa chance.

- Então... se sua esposa está certa e ele realmente se arrependeu e foi perdoado por Deus... isso não quer dizer que você acabou de mandá-lo para o Paraíso? – disse Maria das Dores num tom insinuante.

Seu Francisco olhou para ela com se quisesse usar sua arma novamente, mas conteve-se. Ele ponderou por alguns instantes.

- Tudo o que sei é que não seria capaz de viver em paz enquanto ele estivesse respirando. Quanto ao que acontece depois, não faço ideia, mas – ele pausa e olha melancolicamente para a esposa – eu espero sinceramente que ela esteja errada.