Celebramos
a noite toda. Fomos ao restaurante que normalmente reservamos pra comemorações
de aniversários. Pareceu-me apropriado uma vez que estávamos comemorando o
começo de uma nova vida. Minha tão aguardada promoção no trabalho tinha
finalmente chegado. Muitas novas responsabilidades cairiam sobre meus ombros,
acompanhadas de uma quantidade proporcional de dinheiro que cairia em meus
bolsos.
Minha
filha comeu toda a pizza e sorvete que foi capaz de aguentar, minha esposa e eu
quase pedimos o vinho mais caro do cardápio, mas como o dinheiro da nova vida
ainda não tinha chegado, tivemos que ficar com o sétimo. Enquanto comíamos, fazíamos
planos para o futuro envolvendo viagens, uma casa maior e talvez até um
irmãozinho pra Larissa. A discussão sobre se teríamos um cachorro ou gato foi
adiada pra não estragar a celebração.
Foi
uma das melhores noites da minha vida.
Acordei
pela manhã extremamente fraco, cego pela luz do dia que entrava pela janela.
Levantei-me lentamente e cambaleei em direção ao banheiro, guiado mais pelo
tato que pela visão. Lavei meu rosto, eliminando parte do sono que me consumia,
esfreguei meu rosto repetidas vezes até voltar meu olhar para o espelho, mas me
assustei ao não reconhecer o homem que me encarava de volta.
Ele
me olhava com a mesma expressão abobada que também se encontrava em meu rosto. Levei
minha mão à cabeça e o homem no espelho fez o mesmo gesto tocando seus poucos cabelos grisalhos ainda não levados pela calvície, pisquei várias vezes e o homem
me copiou com precisão. Senti sua barba branca e espessa ao tocar minha própria
face. Seu lábio inferior tremia ligeiramente do mesmo jeito que eu sentia o meu
fazendo.
Uma
sensação de terror começou a tomar conta de mim, fechei os olhos e contei até
dez, torcendo pra aquele pesadelo desperto terminasse. Não deu certo. O homem
estranho continuava a me observar, tão confuso e amedrontado quanto eu.
Voltei
para o quarto e só então notei que ele estava completamente diferente do que eu
recordava. Olhei-me no espelho da cômoda que eu não me lembrava de ter comprado
e lá estava o homem, usando a mesma calça que usei pra dormir e sem camisa,
assim como eu. Ele tinha uma barriga proeminente, manchas senis nas mãos cujas veias
eram bem visíveis sob a pele. Olhei para baixo e vi as mesmas manchas em minhas
próprias mãos, e vi tudo que estava no homem no espelho em mim mesmo.
Na
cama, a mulher que deitava ainda adormecida não era aquela com quem me casei e
tive uma filha. Não podia ver seu rosto por completo, parcialmente coberto
pelos cabelos também grisalhos, mas com certeza se tratava de outra pessoa, bem
mais velha. Tomado pelo pânico, decidi sair dali antes que ela acordasse.
Caminhei com os passos mais silenciosos possíveis em direção à porta e girei a
maçaneta lentamente. Meu coração quase parou quando a porta rangeu ao abrir e a
mulher mexeu-se na cama.
Ela
despertou e olhou ao redor até seus olhos encontrarem os meus. Eu não tinha
ideia do que dizer e não consegui emitir nenhum outro som ou sequer me mover.
Agindo de forma totalmente normal, ela sentou-se na cama, me encarou com um
olhar profundamente carinhoso e um sorriso simpático estranhamente familiar e
disse:
-
Já está de pé? Você devia aproveitar pra acordar mais tarde agora que está
aposentado.
