quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Corno

Sinopse

"Acostumado a realizar um fetiche bem específico de casais, Lucas atende um casal macabro".
-
Todo homem gosta de ver sua mulher transando com outro.

Eu jogo essas palavras na mesa e dou um longo gole da minha cerveja para que meus companheiros de bar tenham tempo de reagir. Eles riem. Dizem que estou falando merda, que já bebi além da conta.

Eu explico que com exceção deles, que provavelmente descobriram a própria sexualidade chupando os coleguinhas no banheiro da escola, a maioria dos garotos de nossa geração mataram sua curiosidade sexual com revistas de mulher pelada e fitas pornôs que achavam na gaveta do pai.

Por anos, os anos de formação, diga-se de passagem, cada ereção que o moleque tem é através de algum estímulo visual. Cada gozada que ele dá é vendo outras pessoas fodendo. Isso deixa uma marca no cérebro.

Os anos passam e esse rapaz cresce e se casa. Logo, ele cansa de meter na mesma mulher o tempo todo. Ele precisa de algo novo. Subconscientemente, ele volta às origens. Ele precisa de estímulo visual de novo, igual a quando era um pivete e cada punheta era uma aventura. Então ele começa a visualizar sua mulher na cama com outro cara. É algo novo, mas ao mesmo familiar.

Eles riem mais, balançam a cabeça, reviram os olhos e dizem que sou louco.

- Então, Lucas – me pergunta um deles – se um dia você se casar, todos nós podemos entender que em algum momento você vai assistir ela com outro macho na cama?

Todos os copos estão pousados sobre a mesa, todos os olhos voltados para mim e todos os ouvidos aguardando minha resposta.

- Eu não serei o corno assistindo – eu respondo – serei o cara sendo assistido.

Há sites em que você pode encontrar pessoas dispostas a ter essa experiência. Você conversa com elas por um tempo e então, se eles sentirem-se seguros com você, marca um encontro cara a cara. Os homens não querem ser vistos como cornos e nem as mulheres como putas, então pode demorar um tempo.

Boa parte dos casais é composto por um homem careca e barrigudo que nem consegue mais dar conta da mulher que tem em casa e uma mulher ainda sedenta por sexo. Há um elemento de compensação nessa prática. Eles vão atrás de alguém que dê pra mulher o que eles não mais podem dar. Outros são simplesmente capachos das esposas. Eles dizem “sim” pra tudo que a mulher pede e querem sempre agradar.

Entretanto, mesmo aqueles que fazem a contragosto acabam se divertindo ao assistir no final das contas. Alguns filmam. É como se eles transformassem a própria esposa na atriz pornô que eles tanto queriam foder na juventude.

Eu conto à eles o caso do seu Dorval. Um cara cheio de grana e com uma imagem a zelar. Foram quase seis meses de conversa até ele aceitar me encontrar pessoalmente e o encontro tinha que ser na cidade vizinha. Vocês tinham que ver. Ele falava como se tivesse declamando um poema e só o terno dele custava mais que todo consumo de álcool anual de todo mundo nessa mesa.

Era bem visível que ele não estava a vontade com a situação. Já a esposa dele estava bem empolgada, era toda sorrisos pra mim. O nome dela era Clara. Depois de dois drinks, ela já estava sentada mais próximo de mim que dele e colocava a mão na minha coxa a cada duas frases que dizia. Ela queria ir até o fim.

Nós fomos para o quarto. Ele puxou uma cadeira e sentou no canto. Clara parecia um peão faminto que acabou de receber uma marmita quando tirou minhas roupas. Ela partiu pra cima de mim com tudo, sem frescura. Ela me pediu que batesse nela e metesse em todas as posições possíveis e sabia fazer coisas com língua que até hoje não achei ninguém capaz de fazer igual.

Enquanto isso, Dorval estava ali no canto, sentado, sem mover um músculo a princípio. Ele não sabia o que fazer com as mãos nem pra onde olhar direito. Eu evitei ficar olhando pra ele porque eu não queria broxar. Eu estava lá com a esposa dele cavalgando em cima de mim, gritando todo tipo de palavrão e com as unhas cravadas no meu peito e quando me dou conta, seul Dorval está de pé, ao lado da cama, tocando uma. Ele estava ofegante e a expressão dele é de quem estava no mais completo transe.

Foram seis meses até ele topar me encontrar pessoalmente. Hoje em dia, ele me manda mensagens toda semana querendo saber quando estarei na cidade de novo.

- Cara, isso é muito doido – diz um dos presentes depois de um longo intervalo em que apenas o som dos copos sendo cheios podiam ser ouvidos.

Eu revelo que estou fazendo isso a quase dois anos e que se tem uma coisa que aprendi, é que os maridos acabam gostando tanto quanto as esposas. Brinco que talvez até algum deles já tenha feito algo parecido ou venha a ter essa experiência um dia.

- Você chega da minha esposa com esse teu pinto murcho e eu corto ele fora, isso sim.

- Se qualquer um conseguir chegar perto da tua esposa sem que o pinto murche, ele merece um carinho no saco pela coragem.

As gargalhadas ecoam pelo bar. Passo o resto da noite contando anedotas de meu passatempo não mais secreto. Vou embora não muito tarde. Preciso descansar. Quero estar disposto pra encontrar um novo casal no dia seguinte.

Esse casal mora numa área relativamente nobre da cidade. A casa é grande, vasos pesados com belas plantas decoram a calçada. O muro é alto e com uma cerca elétrica no topo circulando o terreno. Não é possível pra quem passa na rua ver o que há por trás daquelas paredes.

Sou recebido por Michele. Ela é uma ruiva de trinta e quatro anos de idade com seios fartos e um sorriso composto por dentes claramente afetados pelo fumo. Ela é bonita, embora o excesso de maquiagem quase consiga estragar isso.

Ela me dá um abraço e um beijo em cada bochecha. Diz que sou ainda maior do que eu parecia na foto. O que era ótimo, ela acrescentou, com uma piscadinha.

Michele pede que eu não repare na bagunça e me oferece uma seleção de bebidas. Eu escolho whisky. Ela e o marido se mudaram recentemente, ela me conta, e ainda não tiveram tempo de contatar uma designer de interiores para lhes ajudar com a decoração. O marido é militar e por isso eles acabam ficando apenas alguns anos em cada cidade. Eles já moraram em vários estados.

Eu pergunto onde o marido está. Ela admite que se sente constrangida fazendo o que eles vão fazer com o marido presente no mesmo aposento, então ele vai acompanhar pela câmera do computador que ela colocou no quarto apontada pra a cama. Eles não iam gravar nada e, se eu quisesse, tem uma máscara que eu podia usar como garantia.

- Não se preocupe com isso – eu digo – mas então, tudo isso foi ideia dele? Por isso você não se sente tão a vontade?

Ela diz que é complicado. Ela e o marido tem gostos pouco convencionais. Portanto, eles fizeram um acordo. Eles se revezam realizando as fantasias um do outro. Mês passado, por exemplo, depois de dez anos de casada, ela fez anal pela primeira vez. Era algo que ele queria desde o primeiro encontro e ela sempre recusou.

Eu deixo escapar uma risada. Digo que sexo anal não é tão “não convencional” assim. Michele discorda. Ela sempre achou a ideia nojenta. Nunca entendeu a fascinação em volta disso. Ela já tinha feito umas boas loucuras com o marido, mas aquela era uma experiência que ela estava mais que satisfeita em nunca ter. Ela acabou concordando porque o marido finalmente aceitou que ela dormisse com outro homem.

Confuso, eu questiono o porquê dela sentir-se desconfortável se a ideia foi dela. Acontece que ter alguém assistindo não era parte do plano inicial. O marido insistiu pois queria garantir que eu não “abriria a porta dos fundos” pra outro homem depois de todo o tempo que ele teve que esperar. Esse é um privilégio dele. Ele realmente acha que ela está doida pra repetir a experiência. É o preço que se paga por ser bom em fingir orgasmos.

- Então você não gostou nem um pouco da experiência?

- Não foi tão ruim quanto eu imaginava. Seria difícil ser. Mas definitivamente não é algo que eu pretendo repetir tão cedo.

Michele pouco me encara e dá várias risadinhas constrangidas enquanto revela tudo isso. Eu a acho bem charmosa. Ela me parece uma daquelas “moças de família” que só agora na vida adulta sentiu-se livre para explorar os próprios desejos e ainda não se acostumou totalmente com a liberdade.

Eu pego gentilmente sua mão e a puxo para perto de mim. Nossos primeiros beijos são lentos e suaves. Com as mãos em volta de sua cintura, eu encosto nossos corpos enquanto sinto ela invadir minha camisa com uma das mãos e segurar minha cabeça com a outra. Nossos toques são carinhosos, como dois amantes se tocariam.

De repente, ela morde meu lábio e puxa com força. Não consigo conter um gemido de dor. Ao abrir meus olhos, a expressão dela é bem clara em sua mensagem: prepare-se.

Ela praticamente me joga dentro do quarto. A porta se abre com violência enquanto passamos ainda entre beijos. Ela se desvencilha de mim apenas por alguns instantes para garantir que a câmera está funcionando e apontada para a direção certa.

Ela é incrível. Ela assume total controle da situação. Suas unhas percorrem minha pele deixando um rastro de dor e prazer ao longo de minhas costas. Ela beija meu pescoço e meu peito vorazmente. Sou jogado de costas na cama e ela deita em cima de mim, aproximando os lábios de meu ouvido. Ela diz que está noite eu sou dela, que ela que manda e eu sou seu escravo. Eu digo que sim.

Ela se ajoelha na cama e apoia as mãos na parede. Ela ordena que eu a possua como a cadela que ela é. Ela não precisa pedir duas vezes. Os sons dos seus gemidos me dão tanto prazer quanto a sensação de estar dentro dela. Não sei quanto tempo serei capaz de me segurar.

Estou tão em êxtase que não ouço a porta se abrindo novamente. Não ouço os passos pesados indo em nossa direção nem o deslocamento do ar causado pelo objeto que me atinge na cabeça.

É como se meu corpo reiniciasse nos poucos segundos que levam pra eu cair da cama até o chão. Ouço gritos. Eles dizem algo que não consigo identificar. Todos os meus sentidos estão confusos e o quarto não para de girar ao meu redor. Passos pesados parecem estar se aproximando. Vejo diante de mim apenas a forma de um homem embaçado pelas lágrimas que enchem meus olhos antes de sentir minha perna direita se rasgando.

Eu grito. Mais alto que jamais gritei na vida. Minha garganta se rasga. Os cantos da minha boca parecem prestes a fazer o mesmo. A faca penetra por todas as camadas de pele e atinge o osso. Eu me debato no chão. Tento segurar minha perna, mas a faca é girada e puxada sem cerimônia. Estou banhado em vermelho. Um poça de sangue surge embaixo de mim e aumenta rapidamente.

Alguns minutos se passam até que eu consiga me acostumar com a dor o suficiente pra olhar ao meu redor. Michele continua na cama com uma expressão fria e enrolada no lençol. Ela está contra a parede como se tentasse ficar tão longe quanto fosse possível de nosso agressor.

Ele é um homem magro, esquelético. Ele limpa a faca ensanguentada em sua camisa com a mão direita e segura um taco na mão esquerda. Ele olha de mim para Michele e de volta pra mim repetidas vezes. Seu olhar é maníaco e ele sorri maquiavelicamente.

- Então é você que gosta de comer a mulher dos outros?

- Geraldo, calma. Por favor.

- Calada, piranha. Sempre assim, né? Casa nova, macho novo. Que mentira você contou pra esse aí? Que eu estava viajando? Que estamos nos separando?

Geraldo falava calmamente, mas seu rosto era extremamente ameaçador. Seus olhos estavam arregalados e não piscavam em nenhum momento. Ele tinha uma sorriso maníaco e parecia estar apreciando imensamente ver o pânico em nossos rostos.

Tentando controlar minha respiração pra poder falar, eu imploro que ele pare com aquilo. Aquilo foi um mal entendido. Mas eu gaguejo e as palavras saem da minha boca completamente emboladas. Tento levantar, mas minha perna ferida torna isso impossível. Sangue, suor e lágrimas se misturam em meu rosto.

- Realmente foi um mal entendido. Essa ninfomaníaca aqui entendeu errado o horário que eu ia voltar pra casa. É uma pena que você tenha que pagar pelo erro dela.

- Meu amor, por favor. Pense no que você está fazendo. Você não é assim. Você não é um monstro.

Geraldo gargalhou. Sua risada era alta, mas forçada. Claramente falsa.

- Talvez você tenha me tornado um monstro. Talvez todos os anos que eu te dei amor e carinho, teto e comida enquanto você chupava qualquer pau que ficasse parado na sua frente por tempo o suficiente tenham me afetado dessa forma.

Ele olha pra mim dos pés a cabeça com uma expressão de mais puro nojo. Eu quero falar algo, mas sinto que se abrir a minha boca eu vou acabar vomitando. Eu encaro o chão, intimidado demais pra devolver o olhar de meu agressor. Ele começa a falar enquanto se aproxima de mim a passos lentos.

- Você. Ricardão. Já amou alguém? Já amou alguém que aceita todo teu amor mas em nenhum momento o retribui a altura? Essa é minha vida. Eu faço de tudo por essa mulher, eu faço de tudo pra vê-la feliz e só o que quero é que ela sinta o mesmo por mim. É pedir muito? Eu não achava, mas pra minha esposa aqui, parece ser impossível. Uma pessoa se dedica de corpo e alma a alguém, só que ninguém valoriza. Ninguém quer mais saber de ter uma família de verdade. Dão mais valor a putaria que ao amor.

- Meu amor, você sabe que eu te amo. Te segui pra todo lugar do Brasil que você se mudou porque quero estar ao seu lado.

- Mas não só ao meu lado, não é? Eu não sou o bastante. Sou bom pra te dar a boa vida que você gosta, mas no quarto você precisa de mais. Precisa de um merda como esse.

Ele estava ao meu lado agora. Ele se abaixa e se ajoelha eu meu lado. A faca ainda com vestígios do meu próprio sangue está apontada para meu rosto. Eu tento me arrastar pra longe dele, mas não há espaço o suficiente.

- Como você se sentiu quando metia nela? Sentiu-se melhor que eu? Sentiu-se superior por estar satisfazendo uma mulher enquanto o frouxo do marido dela estava trabalhando que nem um otário?  Sentiu-se mais homem?

Ainda incapaz de formar frases coerentes, eu só consigo dizer que eu fui chamado pra realizar um fetiche. Que achava que ele estaria assistindo.

Ele ri novamente. Dessa vez uma risada verdadeira. Ele se levanta virando para a esposa.

- Essa deve ter sido a melhor até agora. É isso que você quer? Transar com todo homem que passa na sua frente não é suficiente? Quer que eu assista também?

- Meu amor...

- POR QUE? Me explique que prazer doentio é esse que você tem em me humilhar desse jeito.

Com várias veias saltadas no pescoço e o rosto enrubescendo, Geraldo parecia estar tremendo da cabeça aos pés.

- Você me conhece – disse Michele – todos esses anos, você sabe como eu sou. Eu não gosto de te ver sofrendo, meu querido. Mas não posso mudar minha natureza assim como você não pode mudar a sua.

Geraldo subiu na cama e colocou suas mãos ao redor do pescoço de sua esposa. Ele também chorava agora. Michele não parecia sentir o menor medo, simplesmente levantou seus braços para os lados, como que dando permissão para que seu marido fizesse o que achasse melhor. Seu rosto avermelhou-se, mas ela não se moveu mesmo após vários segundos que pareciam se arrastar.

- Você tem razão – disse ele, afrouxando o aperto – eu queria muito mudar. Eu queria muito ser capaz de fazer tudo o que quero fazer com você agora. Mas...

- Mas você não vai – disse ela, séria – porque no fundo você sabe que o que sentimos um pelo outro é mais importante que qualquer noite que eu possa passar com outra pessoa.

Geraldo então larga-se nos braços de Michele que acaricia seu cabelo enquanto ele chora audivelmente. É um choro infantil, patético.

Eu volto a tentar me arrastar sem que eles percebam. Cada movimento gera pontadas agonizantes em minha perna que me deixam zonzo. Eu perco a luta contra meu estômago e vômito no chão.

Michele diz que quase tinha esquecido de mim. Ela deixa o marido e vem em minha direção calmamente. Ela me pede desculpas. Não queria que aquilo acontecesse. Diz que eu pareço uma boa pessoa. E espera que eu um dia possa perdoa-la. Eu imploro que me deixem ir. Que me levem ao hospital. Juro que não contarei nada a ninguém. Que inventaria alguma história.

- Você quer ir embora? Acho que não – diz Geraldo – Acha que sou homem de deixar um vagabundo trepar com minha mulher e sair andando por aí pra poder ficar se gabando nas mesas de bar que me meteu um par de chifres?

- Meu amor, ele não tem culpa – diz Michele sem qualquer emoção na voz – não pode fazer isso com ele.

Eu choro copiosamente. Tento me arrastar mais rápido e eles apenas observam. Eu grito “por favor” repetidas vezes.

Geraldo pega sua faca e se aproxima de mim. Michele fica entre nós dois.

- Saí da minha frente. Por que está defendendo esse merda?

- Ele não tem culpa. Você já fez o suficiente, deixa ele ir.

- Ele tem mais que culpa. Ele sabia o que estava fazendo. Achava que ia se divertir me pondo chifres e eu ainda ia achar bom. Que eu ia agradecer a ele. O que eu fiz até agora ainda foi pouco.

- Geraldo, não.

- Você gosta dele, né? Eu ouvi você enquanto entrava. Estava se divertindo a beça. Parecia uma cadela no cio. Você adorou ele te pegando, né? Adorou pegar no pau dele. Meter o pau dele na boca.  Sentar no pau dele. Não é?

- Chega, escuta só como você fala, parece um completo idiot...

Geraldo dá um tapa com o peito da mão na cara de sua esposa. Ela cambaleia pra trás. Em choque. Claramente não achava que aquilo seria possível.

- Eu disse que talvez você tenha me transformado num monstro – disse Geraldo, também surpreso com o próprio gesto – eu posso não ser capaz te machucar ainda, mas posso te dar incentivo o bastante pra pensar duas vezes antes de repetir tua aventura de hoje.

Com o taco na mão. Ele se posiciona de modo a me deixar entre suas pernas. Eu peço que saia. Não tenho forças para fazer qualquer outra coisa. Até meu “por  favor” saí na forma de um suspiro.

- Já que gostou tanto do pau dele. Talvez devesse guardar para você.

O taco é erguido. O taco é abaixado. Escuridão total.

***

Estou num supermercado colocando frutas na minha cesta. O som de uma música sertaneja sobre algum cara que foi largado pela esposa domina o ambiente. Estou caminho em direção do caixa preferencial com ajuda da minha bengala quando ouço uma voz que me faz sentir calafrios.

- Lucas?

Seu Dorval me encarava. Ele empurrava um carrinho quase cheio de compras. Um largo sorriso em sua expressão de reconhecimento. O sorriso desapareceu depois de ver a bengala.

- Você tá bem?

Sinto meu rosto tremer. Não consigo encará-lo.

- E-estou bem. Isso aqui foi só um acidente. Nada sério.

- Ah, que bom. E que bom te ver, cara. Tentamos te ligar várias vezes nos últimos meses.

- Eu mudei de número.

- Entendo. Pode me dar o teu número novo? Estava pensando que a gente podia marcar um jantar ou algo do tipo.

Sinto as lágrimas vindo. Minha respiração fica pesada. Eu deixo minha cesta cair. Maçãs rolam pelo chão.

- Não faço mais essas coisas.

Eu saio andando tão rápido quanto sou capaz. Ignoro o chamado de seu Dorval. Tento evitar que as imagens de seis meses atrás retornem a minha mente. As imagens de quando fui largado na frente de um hospital altamente sedado. A imagem de acordar num leito e receber a notícia de que a casa era alugada e os nomes Michele e Geraldo eram falsos e não há pistas de onde estão.

Tento não pensar no espaço vazio entre minhas pernas e a visão que tenho sempre que tomo banho. Mas é tudo em vão.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Vingança

Sinopse:

"Após sofrer uma perda dolorosa, Seu Francisco busca uma profissional que pode lhe dar a justiça que tanto precisa"

-

Seu Francisco estava parado diante da loja a quase dez minutos. Parecia uma loja normal de roupas femininas, mas não era. Foi o que prometeu o homem que lhe deu o cartão que segurava firmemente entre seus dedos.

Ele olhou mais uma vez do cartão para o letreiro da loja. Era a sétima vez que repetia o gesto. Não pra confirmar que estava no lugar certo, já não restava dúvidas quanto a isso, mas apenas pra ter o que fazer, visto que suas pernas pareciam incapazes de decidir entre o rumo da loja ou o de volta para casa.

Era uma piada. Tinha que ser. Alguém com senso de humor doentio estava se aproveitando do pior momento de sua vida para dar umas boas risadas e ele era estúpido o bastante pra cair na brincadeira quando devia estar em casa com sua esposa.

Seu Francisco pensou em sua esposa. E pensou em sua filha. Sua filha.

Ele entrou na loja.

Seu Francisco olhou para todos os lados em busca de algo fora do normal. A loja era razoavelmente espaçosa. As duas paredes laterais eram totalmente tomadas por roupas penduradas que iam até o teto. Mesas enfileiradas formavam três corredores que iam até os fundos da loja. Sobre elas, diversas roupas amontoadas em promoção. Tudo perfeitamente normal.

- Posso ajudá-lo, senhor?

Seu Francisco virou-se de sobressalto e deparou-se com uma moça jovem e sorridente que usava uma calça jeans e uma camisa polo roxa que tinha bordada a mesma logomarca do cartão e do letreiro da loja com as palavras “Moda Afrodite”.

Com a voz enfrentando dificuldades de deixar sua garganta, tudo que Seu Francisco conseguiu dizer foi “Aah”.

- Está procurando algo específico? – insistiu a moça simpática – Temos roupas de todos os tipos: pra gordas e magras, altas e baixas, velhas e jovens. Nossa seleção é ótima.

Seu Francisco lentamente ergueu o cartão e o mostrou a moça, cujo sorriso desapareceu assim que viu o que se tratava.

- Estou procurando algo especial, que eu preciso muito, mas que não consigo achar em nenhum lugar – disse Seu Francisco finalmente.

A vendedora pegou o cartão e o colocou no bolso de trás da calça. Ela olhou Seu Francisco dos pés a cabeça, avaliando-o.

- Siga-me.

Mesmo ainda incerto, Seu Francisco seguiu a vendedora até os fundos da loja. Passaram por outra vendedora conversando com uma cliente e pela moça do caixa que encontrava-se distraída por uma revista sobre o balcão. Eles cruzaram uma porta que dizia “Apenas Pessoas Autorizadas” e entraram num corredor estreito e longo com três portas do lado direito. Eles passaram direto pela primeira porta e a vendedora abriu a segunda para que ele entrasse.

- Aguarde aqui um minuto.

Era uma sala pequena. Todos os cantos estavam cobertos de teia de aranha. Apenas uma escrivaninha e duas cadeiras, uma de cada lado, mobiliavam o aposento. Uma barata em avançado estágio de decomposição podia ser vista perto da porta. Parecia um escritório em fase final de mudança.

Seu Francisco sentou-se e aguardou. Cada segundo de espera parecia horas naquela sala claustrofóbica e malcheirosa. A ideia de que tudo não se tratava de uma piada só ganhava forças em sua cabeça. Ele estava quase levantando, pronto pra voltar pra casa e cuidar de sua esposa quando a porta se abriu.

Um homem grande o bastante pra precisar se curvar ao passar pela porta entrou. Ele possuía um olhar que intimidaria a mais corajosa das pessoas. Seu Francisco levantou-se, mas permaneceu encurvado, mal conseguindo encarar o recém-chegado nos olhos.

- Senhor, pode colocar as mãos na parede? Preciso te revistar - disse o homem com uma voz grave que Seu Francisco pôde sentir seus ossos vibrarem.

- O-o que? Por que? Quem é você?

- Só o segurança. A gerente já vem falar com você assim que eu garantir que você está limpo.

Dividido entre o medo do gigante e o próprio orgulho, Seu Francisco não se mexeu imediatamente, mas seu orgulho logo fraquejou. O gigante apalpou seus braços, pernas, torso e cintura cuidadosamente. Quando se deu por satisfeito, ele abriu outra porta pra deixar entrar uma outra pessoa.

A gerente era uma mulher que aparentava estar acima dos 50 anos, usava um longo vestido florido, óculos pendurados por um fio em volta do pescoço e várias pulseiras nos braços gordos e flácidos. Seu cabelo era curto e castanho com uma boa parcela de grisalho. Era a aparência ideal pra quem gerenciava uma loja de roupas, não pra quem tinha um segurança de prontidão para revistar qualquer um que viesse falar com ela.

- Bom dia. Meu nome é Maria das Dores, e o senhor? - disse a gerente após sentar na cadeira do outro lado da escrivaninha.

- Meu nome é Francisco e... eu não estou certo do que está acontecendo aqui.

- Bem, Francisco – diz Maria, num tom de voz doce – você veio aqui com um de nossos cartões e usou a nossa senha, então eu suponho que o senhor tenha sofrido alguma perda recente e não acredita que a polícia seja a melhor opção para ajudá-lo. Estou certa até agora?

- Sim, está. É minha filha.

- Quer me contar o que aconteceu?

Seu Francisco demorou um pouco a responder. Ele foi levado as lágrimas cada vez que falou sobre sua filha nos últimos dias e não estava disposto a chorar diante daquela estranha. Ele inspirou profundamente algumas vezes e começou.

- Ela foi... a-assassinada. Pelo marido. De acordo com os vizinhos, eles discutiram a noite toda e bem alto. De manhã, eles ouviram apenas o carro dele ir embora. Ele não voltou a noite.

- Minha esposa ficou o dia sem receber notícias dela e nenhum dos dois respondiam mensagens ou atendiam as ligações. Então ela foi até a casa deles e a encontrou.

- Minha filha estava no banheiro. Morta. Espancada. Jogada no próprio vômito e sangue. Cheia de hematomas pelo corpo, especialmente no pescoço. Isso foi o que a polícia me disse. Minha esposa mal conseguiu juntar duas palavras desde aquele dia. Ela está definhando.

- A polícia falou com a família e amigos dele e todos dizem não saber de nada e é isso. Parece que estão satisfeitos. Estão simplesmente esperando que ele apareça um dia. Ele tem dinheiro, pode estar num hotel 5 estrelas agora enquanto minha filha... minha filha...

Seu Francisco respirava pesadamente. Seus olhos estavam marejados mas nenhuma lágrima foi derramada. Maria das Dores abriu uma gaveta da escrivaninha e puxou uma caixa de lenços umedecidos e a empurrou em sua direção. Ele não pegou nenhum.

- Eu sinto muito por sua perda, qual o nome da sua filha?

- Isabela.

- É um lindo nome.

- É sim. Minha esposa escolheu. Escute. O homem que me deu esse cartão disse que vocês podiam me ajudar. Como?

- Nós temos algumas opções. A mais barata seria encontrarmos o sujeito pra você e o entregarmos a polícia. É a opção ideal caso ainda tenha alguma fé em nosso sistema de justiça que não prende ninguém por mais de trinta anos e tem o péssimo hábito de libertá-los com apenas um terço da pena cumprido.

- A segunda opção seria encontrarmos e darmos um fim nele nós mesmos. Isso custaria um pouco mais.

- A terceira e mais cara opção é igual a segunda, mas você mesmo cuidaria dele do jeito que achar melhor.

Seu Francisco pensou. Sabia que opção era a mais tentadora, mas não sabia se era capaz de executá-la. Não sabia se queria ser o tipo de pessoa capaz de executá-la.

- Eu não sou um assassino.

Maria das Dores o encarou por alguns segundos e puxou da mesma gaveta uma agenda de capa preta. Ela a abriu numa página em que havia uma foto que ela olhou tristemente.

- É algo terrível quando alguém nos tira aquilo que mais amamos. Pior ainda é quando não conseguimos justiça pra eles. Sentimos que o desapontamos da pior forma possível.

- Eu já estive nessa situação. Infelizmente, eu não contava com os recursos e experiência que tenho hoje. Então posso apenas torcer para que o monstro que tirou meu filho tenha encontrado o destino que eu reservei pra ele de outro modo.

- Você tem uma opção aqui. Você não precisa passar o resto de seus dias imaginando o assassino de sua filha levando uma vida calma e normal enquanto ela apodrece no cemitério. Essa é a pior parte, sabe? Nossa imaginação.

Enquanto ela falava, Seu Francisco pode visualizar claramente o rosto de seu genro e todos seus maneirismos. Lembrou-se  do modo que ele contava piadas e as estragava ao ficar rindo durante toda a história. Lembrou o modo que ele conseguia imitar todos perfeitamente. Pôde também vê-lo fazendo tudo isso com outra família em algum lugar distante em alguns anos, seu crime bárbaro relegado ao passado.

Seu Francisco pegou um lenço.

- Apenas traga ele de volta. Eu pago o que você quiser. Decido o que fazer quando ele estiver aqui.

- Muito bem. Vamos precisar de algumas informações. Qual o nome dele?

- Maurício Almeida.

Uma longa entrevista se sucedeu em que Seu Francisco contou tudo que podia lembrar sobre o genro. Melhores amigos, lugares que frequentava, até de que banco era cliente. Após todas as perguntas, Maria das Dores o acompanhou de volta ao corredor até a porta que dava acesso a loja.

- Não se preocupe – disse ela – Tenho certeza absoluta que podemos achá-lo. Até hoje não falhei com nenhum cliente. Agora, eu preciso lembrá-lo que essa nossa pequena reunião nunca aconteceu. Ninguém, sem exceção, pode saber que o senhor esteve aqui.

Seu Francisco apenas assentiu e adentrou a loja, escoltado pelo gigante.

Maria das Dores esperou ele estar de volta a rua e foi em direção a terceira porta do corredor e a destrancou. Era uma sala um pouco maior que a da escrivaninha, mas não muito. Várias caixas, uma em cima da outra, estavam empilhadas junto as paredes. Uma pia e um vaso sanitário em um dos cantos e no centro, um homem amarrado a uma cadeira com um saco preto em sua cabeça.

Maria das Dores postou-se diante do indivíduo e removeu o saco. Sua boca era mantida fechada por uma fita que dava várias voltas ao redor de sua cabeça, seu nariz estava quebrado e o sangue seco ia até seu peito. Ele encarou Maria das Dores com o mais profundo medo em sua face.

- Bom dia, Maurício. Receio que tenho más notícias para você.

***

Maurício estava amarrado àquela cadeira a seis dias, a julgar pelas refeições que recebia. Um café da manhã composto por um copo de suco de maracujá e três mistos, um prato de macarrão com molho de tomate para o almoço e, na janta, pedaços de banana e maçã com aveia. A comida lhe era servida em sua boca por alguma das vendedoras. Ele era levado ao vaso sanitário uma vez ao dia pelo homem de mais de dois metros de altura que o capturou e quebrou seu nariz no processo.

Três dias atrás, a mulher da camisa florida veio falar que em breve eles o entregariam para seu sogro. Foi tudo que ele ouviu de qualquer uma daquelas pessoas. Nenhuma delas lhe dirigia qualquer palavra, não importava o quando ele implorasse.

A mulher gorda voltou hoje. Ela trazia uma bandeja com uma tampa. Maurício ensaiou em sua cabeça várias vezes o que diria quando ela reaparecesse.

- Olá, Maurício. Trouxe algo especial para você – ela retirou a tampa, exibindo vários rolos de sushi preenchendo toda a superfície da bandeja – Pelo que eu vi nas tuas redes sociais, você adora isso. Eu, particularmente, acho nojento, mas não estou aqui para julgar. Só queria que comesse algo que apreciasse na sua última refeição.

Toda a conversa ensaiada por Maurício em sua mente desapareceu imediatamente.

- O que? Como assim?

- O pagamento do teu sogro caiu hoje. O levaremos até ele mais tarde. É melhor comer.

Ela sentou-se diante dele com a bandeja em seu colo e pegou um par de hashi, pegou um rolo de sushi e o levou em direção a boca de Maurício. Ele não comeu.

- Olha, vamos conversar, tá legal? Não tem que ser assim. Seja lá o que ele pagou, eu posso pagar mais. Você só tem que me deixar ir embora. Só isso.

- Coma – disse Maria das Dores, calmamente. Maurício obedeceu – Você parece ter uma ideia equivocada do que está acontecendo aqui. Isso não é um leilão. Não vou fornecer meus serviços pra quem paga mais. Você vai responder por seu crime. Simples assim.

Maurício quase se engasgou engolindo o sushi. Sua mente trabalhava mais rápido que nunca em busca de algum argumento salvador.

- Me entregue à polícia então. Eu confesso tudo. Eu vou pra cadeia. Eu prometo.

- Tarde demais para isso, infelizmente.

- Por que? Estou oferecendo dinheiro pra me deixar ir pra cadeia. Você pode dizer a ele que eu fugi. É um bom negócio.

Maria das Dores olhou pra ele quase que com pena, mas ao mesmo tempo exibia um sorriso debochado.

- Sabe, por muito tempo eu estive em conflito entre dois princípios. Eu não acredito que alguém que tire a vida de uma pessoa inocente mereça viver. Mas eu também não acredito na pena de morte, não acho que o Estado deva ter o direito de matar. Não são dois conceitos que casam bem. Por um lado, eu quero que o governo faça o possível pra ressocializar criminosos. Por outro, sei que não posso pedir que uma família em luto tenha a mesma misericórdia.

- Um dia, eu achei a solução. Veja bem, Maurício, eu acredito que a vingança deve ser um direito de todos, mas não um que o Estado forneça. Se alguém comete assassinato, a família da vítima tem o direito de matar esse indivíduo, mas caso a polícia o encontre primeiro, faça-se valer o processo legal.

- Então eu construí um negócio em volta desse conceito. Nós achamos criminosos que aparecem nos jornais, contatamos os familiares e, por um bom preço, lhes damos a oportunidade de escolherem o destino do assassino.

Ela pausou e deu mais um sushi para Mauricio.

- Quer saber quantos escolheram a polícia até agora? – Ela concluiu, o sorriso debochado aumentando.

Antes que pudesse se conter, Maurício cuspiu no rosto de Maria das Dores com toda a força que conseguiu reunir, todo seu corpo tomado pela fúria. Tão rápido quanto surgiu, a raiva se dissipou, deixando para trás apenas medo e desesperança.

Maria das Dores permaneceu parada alguns segundos com os olhos fechados. Saliva e pedaços de arroz escorriam por sua bochecha. Ela pegou um lenço do bolso e limpou seu rosto.

- Sabe – disse ela – nós nunca contamos aos parentes que já temos o assassino. Eles poderiam simplesmente ir à polícia. Em vez disso, nós os fazemos nos contratarem primeiro. Dessa forma, eles se tornam os mandantes. A maioria não tem coragem de finalizar o serviço, então sobra pra gente fazer o trabalho sujo. Seu sogro me pareceu o tipo sem coragem também. Se for o caso, quero que saiba que sujarei minhas mãos com todo o prazer.

Maria das Dores pegou o saco preto e violentamente colocou Maurício de volta na escuridão.

***

O carro de Seu Francisco balançava acentuadamente enquanto ele dirigia pela estrada de terra rumo à chácara que Maria das Dores lhe disse pra ir. Ao seu lado, uma mulher baixa e de aparência extremamente frágil acariciava uma cruz pendurada em seu colar.

A casa era pequena, não devia ter mais que dois quartos, uma cozinha e uma sala. Ao seu lado, um carro estacionado e o gigante que trabalha na loja de pé encostado no porta-malas.

Seu Francisco parou o carro e olhou para a mulher.

- Tem certeza que quer fazer isso? Você pode ficar aqui.

Ela não respondeu, apenas continuou olhando para a casa por alguns segundos e então abriu a porta do carro e saiu. Seu Francisco saiu em seguida.

- Quem é ela? Era pra você vir sozinho – disse o gigante de modo ameaçador.

- É minha esposa. Antônia. Está tudo bem. Ela é a única que sabe disso. Eu garanto.

O gigante estava com uma das mãos nas costas. Ele olhava de um para o outro desconfiado.

- Vá embora – disse ele – você quebrou o acordo.

- O que? Não. Eu cumpri o acordo. Eu paguei o que me pediram. Agora cumpra a sua.

- Vamos cumprir nossa parte. E quando sentirmos que é seguro, te daremos provas. Agora saia daqui.

- Não, não, não – Seu Francisco elevou sua voz e já se aproximava lentamente do gigante apontando o dedo pra ele – Eu quero vê-lo. Vocês não vão tirar isso de mim. Não irei embora até vê-lo.

O gigante puxou uma arma que guardava atrás de si e deu um passo pra frente. Os dois homens ficaram ali se encarando até que Maria das Dores apareceu.

- Cavalheiros, não vamos nos exaltar. Isso é tão desnecessário.

Ela estava na porta da casa. Um sorriso meigo extremamente falso estampado no rosto.

- Você entende nossa preocupação, não é, Seu Francisco? Tínhamos acordado que ninguém mais ficaria sabendo de nosso acordo. E agora você pede que acreditemos que não vai mais abrir o bico quando você claramente já abriu?

- Eu não ia contar, mas eu lembrei do que você falou sobre passar a vida imaginando ele livre... eu não podia tirar esse peso de mim e deixar minha esposa continuar carregando ele sozinha.

- E quanto aos tios dela? Os primos, amigos, avós? Vai tirar o peso de todos eles quando parecerem tristes durante a ceia de natal?

- Não... Veja...

- Posso vê-lo? – Disse Antônia, aproximando-se. Sua voz era quase inaudível – Por favor.

Maria das Dores olhou para aquela senhora minúscula. Antônia era significativamente menor que todos ali. Seus olhos já anunciavam lágrimas que, sem dúvida, não demorariam a cair. Ela parecia incapaz de permanecer de pé caso fosse atingida pela mais leve brisa.

- Muito bem – disse Maria das Dores – Vamos acabar com isso.

O gigante abriu o porta-malas. Maurício estava lá dentro amarrado dos pés a cabeça e com fita cobrindo sua boca. O gigante o puxou para fora e o largou no chão sem o menor cuidado. Em seguida, o pôs sentado apoiado no carro.

Seu Francisco olhou para ele completamente enojado, suas mãos se convertendo em punhos. Antônia se aproximou e ajoelhou-se diante de Maurício e retirou a fita de sua boca.

- Preciso te fazer algumas perguntas – disse ela, quase num sussurro.

- Dona Antônia – Maurício respondeu, claramente desesperado – Por favor, vocês não precisam fazer isso.

- Por que você fez aquilo com minha filha?

- Dona Antônia, por favor.

- Por que você fez aquilo? Responda – a voz de Antônia aumentou consideravelmente.

- Eu posso explicar tudo, mas vamos sair daqui. Foi tudo um mal entendido.

- Por que você fez aquilo? – Ela já estava quase gritando.

- Me escute, as coisas não aconteceram como vocês acham. Acredite em mim, eu amava sua fi...

BAM!

O tapa que Antônia deu foi tão forte que certamente machucou sua mão, embora ela não tenha demonstrado dor em nenhum instante. As lágrimas que ela derramava eram de pura raiva.

- Não se atreva. Não se atreva a dizer que amava minha filha. Eu a encontrei. Não havia nada parecido com amor naquele lugar. Só havia dor e sofrimento. Você a destruiu. Você...

Maurício agora chorava também. Não se arriscava a olhar para a sogra mais. Mantinha sua face voltada para o chão, soluçando.

- Eu sei porque você a matou. Ela sempre falou que você era ciumento e esquentado. Nunca pensei que pudesse chegar a esse ponto. Nem no meu pior pesadelo. Nós gostávamos de você. Nós confiamos em você.

Antônia pegou o rosto de Maurício com as duas mão e o fez olhar para ela.

- Você se arrepende do que fez? Seja sincero. Por favor.

Maurício tentou falar, mas estava sem ar de tanto chorar. Ele respirou pesadamente algumas vezes antes conseguir pronunciar uma palavra completa.

- Si-Sim. Eu sinto muito. Não era pra ter acontecido. Eu não queria que tivesse acontecido. Não mesmo.

Antônia o abraçou. Um abraço delicado. Um abraço de mãe. Ela o largou e olhou bem nos olhos de Maurício.

- Eu acredito em você. Eu te perdoo. E rezo para que Deus o perdoe também.

Antônia levantou-se, deu as costas pra ele e se dirigiu ao carro. Maurício mal teve tempo de processar as palavras finais dela quando sentiu seu peito explodindo.

Seu Francisco estava diante dele segurando a arma fumegante ainda na posição em que a disparou. Maria das Dores e o gigante se assustaram com o barulho. Até então, eles observavam toda a cena fascinados. Antônia continuou andando até o carro sem olhar para trás e entrou.

As costas de Maurício bateram no chão. Choque espalhado pela sua face que lutava pra continuar respirando. Seu Francisco aproximou-se mais ainda e mirou cuidadosamente entre os olhos do assassino de sua filha. Maurício tentou falar algo, mas um disparo final da arma o calou para sempre.

Seu Francisco ficou ali parado por um tempo. Antes que Maria das Dores pudesse falar algo, ele curvou-se e, com uma mão na barriga, vomitou bem ao lado do corpo inerte de seu genro.

Ele cambaleou e vomitou ainda mais ao lado de algumas plantas próximas do carro. O cheiro do conteúdo regurgitado de seu estômago misturando-se com o do conteúdo agora presente nas calças de Maurício. Maria das Dores voltou a sorrir.

- Não é tão simples quanto você imaginou que seria, eu suponho.

Seu Francisco ignorou a pergunta.

- Você vai fazer ele desaparecer, certo? – disse ele, limpando a boca.

- Naturalmente.

- Tem certeza de que pode fazer isso?

- Nenhum dos outros foi encontrado até hoje.

Sem dizer mais nada, Seu Francisco partiu em direção ao carro, onde sua esposa estava sentada no banco do passageiro olhando para o próprio colo.

- Estou confusa – disse Maria das Dores
- Ela realmente o perdoou, ou foi só uma tortura final pra ele?

- Minha esposa acredita que todos merecem a chance de se arrependerem de seus pecados e pedir perdão a Deus. Ela quis dar a ele essa chance.

- Então... se sua esposa está certa e ele realmente se arrependeu e foi perdoado por Deus... isso não quer dizer que você acabou de mandá-lo para o Paraíso? – disse Maria das Dores num tom insinuante.

Seu Francisco olhou para ela com se quisesse usar sua arma novamente, mas conteve-se. Ele ponderou por alguns instantes.

- Tudo o que sei é que não seria capaz de viver em paz enquanto ele estivesse respirando. Quanto ao que acontece depois, não faço ideia, mas – ele pausa e olha melancolicamente para a esposa – eu espero sinceramente que ela esteja errada.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Dona Maria Aurélia

Dona Maria Aurélia demorou a atender a campainha. Ela ficou um longo minuto se olhando no espelho mais uma vez. Olhou para seu cabelo cuja maioria dos fios já se encontrava branca. Comtemplou o próprio rosto tomado por marcas da passagem dos anos que ela tentou em vão disfarçar com maquiagem. Encarou os próprios olhos e perguntou-se mais uma vez se estaria louca ao fazer aquilo. Despertou de seu autoquestionamento apenas ao segundo tocar da campainha.

Ela abriu a porta e esboçou um sorriso para o rapaz que agora sorria de volta. O sorriso dele, porém, era aberto, exibindo seus dentes perfeitamente alinhados e alvos. Um sorriso confiante de quem se sente confortável com a situação, de quem já está acostumado. O rapaz era forte e alto, sem dúvida um desses tipod que iam sempre à academia. Ele até mesmo usava um desses cortes de cabelo qur ela já viu em vários garotos na rua.

- Boa noite. Dona Aurélia?

Ela tentou retribuir o cumprimento, mas sua voz não passou pela sua garganta. Ela então fez apenas um aceno de cabeça pra confirmar sua identidade e abriu passagem para o rapaz. Ele entrou prontamente, pôs-se no meio da sala e olhou ao redor, observando os retratos na parede de parentes que estavam ou mortos ou que a muito tinham deixado de se importar com ela.

-Meu nome é Anderson - ele diz virando-se pra ela ainda com aquele sorriso no rosto - Você tem uma bela casa. Parece ser bem confortável.

A voz de dona Aurélia falou de novo.

- Primeira vez, certo? - ele pergunta, aproximando-se lentamente - Não se preocupe. Faremos isso do jeito que você se sentir mais confortável. Que tal uma bebida?

Ter um estranho lhe oferecendo uma bebida em sua própria casa era o oposto do que Aurélia considerava confortável, mas ela apenas confirmou novamente e apontou o caminho para a cozinha. Anderson veio logo atrás dela, a alguns passos de distancia. Ela pegou uma garrafa de vinho do qual já tinha bebido quase metade durante o dia por causa do nervosismo e apenas uma taça.

- Não vai me acompanhar? – Sua voz soava quase debochada para Aurélia, ela estava certa que ele estava sentindo pena dela e que no dia seguinte falaria da idosa caduca com quem ele teve que passar a noite.

Ela pegou mais uma taça para si e os dois começaram a beber o vinho lentamente, sem dizer nenhuma palavra a principio, o rapaz começou a fazer perguntas e ela respondia com nada além de algumas frases curtas. Monossilábicas até.

- Você mora aqui sozinha?

- Sim.

- Há quanto tempo?

- Uns sete anos.

- Você gosta?

- Às vezes.

- Eu me mudei recentemente, primeira vez morando fora da casa da minha mãe. Estou me acostumando ainda.

- Ah.

Uma longa pausa. Anderson percebe que puxar assunto não vai ajudar muito. Melhor ir logo ao que interessa antes que ela fique muito desconfortável e desista de tudo.

- Você está encantadora hoje.

Ele se aproxima e toca seu braço, olhando diretamente em seus olhos, ainda com o sorriso estampado no rosto. Ele não parou de sorrir um segundo sequer desde que entrara. Dona Aurélia não consegue evitar um pequeno espasmo no braço ao sentir os dedos do rapaz, tampouco conseguia olhá-lo nos olhos.

- Está tudo bem, você não precisa ficar nervosa – Ele diz suavemente, enquanto aproximava seu rosto do dela.

Ele beijou-a suavemente na bochecha, fazendo-a fechar os olhos e recolher os braços para junto de seu corpo. Ele colocou seus fortes braços ao redor do corpo dela e a puxou pra junto de si, enquanto continuava a beijar-lhe o rosto e aproximando lentamente de seus lábios. Ao finalmente tocá-los, porém, Aurélia abaixou o rosto, pôs suas mãos nos braços do rapaz e respirando pesadamente começou derramar pesadas lágrimas.

A pobre senhora deixou escapar um gemido pesaroso enquanto tentava inutilmente conter o choro que agora lhe escapava. O rapaz continuou abraçando-a, sem saber bem o que fazer. Confusão e terror se misturavam em sua face. Finalmente havia parado de sorrir. O corpo de Dona Aurélia começou a ficar mole, então ele puxou a cadeira mais próxima e ajudou-a a sentar-se.

- Você tá bem? Quer um copo d’água ou alguma outra coisa?

Dona Aurélia demorou a responder. Não conseguia olhá-lo. Continuou olhando para baixo enquanto enxugava as lágrimas com as mãos. 

- Desculpe-me. Estou sendo tola. Esse encontro todo foi uma situação totalmente tola. Fruto da minha cabeça tola. Eu vou te dar teu dinheiro e você pode ir embora, só peço que não conte a ninguém sobre hoje. Já é ridículo o bastante saber que você vai embora sabendo o quão patética eu sou. Imaginar você contando pra outras pessoas e rindo da minha cara... por favor, seria demais.

Anderson não falou anda. Ela continuava falando e pedindo desculpas e dando explicações desconexas sobre como tinha parado naquela situação. Na sua breve carreira, ele já havia deparado com algumas situações peculiares, mas não com aquele nível de vulnerabilidade. Desejou nunca ter ido até aquele apartamento e decidiu não mais aceitar o chamado de senhoras de idade. Queria partir pra bem longe dali, mas algo em si se mostrava incapaz de simplesmente dar as costas a uma senhora em sofrimento.

- Eu não vou contar nada a ninguém. Não tenho a quem contar.

Dona Aurélia continuou soluçando mais alguns minutos. Anderson continuou sem ação. Ela inspirou o ar profundamente várias vezes até que aos poucos parecia estar recuperando a calma. O que deixou Anderson mais tranquilo.

- Sabe quanto tempo que eu não sou tocada por ninguém com carinho? Ou desejo? Desde pelo menos 10 anos antes da morte do meu marido. Nos amávamos muito ainda, mas o desejo físico já tinha morrido a muito tempo nele. Nem mesmo um velho como ele conseguia se excitar com uma velha como eu. Ele ficava feliz apenas indo pra praça e observar moças correndo com aquelas calças coloridas e apertadas. Eu tinha virado apenas uma colega de quarto pra ele.

- Eu não sou especialista no assunto – Anderson falou cautelosamente, temendo falar algo que provocasse outra crise de choro – Mas me parece normal que um casal depois de tanto tempo junto perca um pouco desse desejo. Não deveria enxergar isso como por causa da sua aparência. Tenho certeza que tem gente que ainda a desejaria.

- Isso não é verdade. Mesmo em centro de idosos eu sou a pessoa mais velha do local. Eu excedi a expectativa de vida. Sou uma velha entre os velhos. Nenhum deles nem me olha duas vezes. Preferem as senhoras que ainda conseguem dançar salsa a noite inteira. Se eu tentasse dançar provavelmente pararia no hospital com o quadril deslocado.

Sua voz foi enfraquecendo enquanto falava e ao final de sua última frase ela já estava soluçando de novo. Anderson a tocou no braço carinhosamente e ela colocou a sua outra mão sobre a dele. Seu toque era leve, carinhoso.

- Eu nem queria muito, sabe? Já desisti de um dia receber meus filhos novamente. Provavelmente só aparecerão no meu funeral e mesmo assim apenas pra manter as aparências enquanto esperam pra ver o que podem conseguir de herança. Os poucos amigos que eu tinha já estão ou mortos ou ocupados demais sendo avôs ou avós de alguém pra lembrarem que eu existo. Família, amigos. Não me importo mais com nada disso. Só o que eu queria era uma noite de prazer. Uma noite de prazer no meio a todas de tédio que são a constante na minha vida – Ela então o olhou nos olhos, não exibindo mais qualquer sinal de vulnerabilidade – É pedir muito?

Anderson não sabia o que dizer. Imaginou-se na idade daquela senhora. Completamente sozinho. Já estava sozinho fazia muito tempo.  Entrou nesse ramo justamente por não ser bom em mais nada na vida. Só o que sabia fazer era frequentar a academia. Não seria capaz de achar um emprego decente se tentasse. Nunca teve cabeça pra faculdade. Era burro demais pra manter um relacionamento com alguém que tivesse mais de dois neurônios funcionais. Sua aparência só lhe servia pra conseguir mulheres em bares. Eram as únicas noites em que sentia alguma conexão, mesmo que puramente física, com alguém. Então ele entendia bem o que uma noite de fuga poderia significar pra alguém, mesmo que não fosse capaz de articular esse pensamento em palavras nem pra si mesmo.

Sem saber direito como isso aconteceu, estava na cama com ela. Explorando seu corpo e tendo o seu tocado de maneira que não sabia ser possível até então. Não saberia dizer quanto tempo se passou entre o momento em que entrou pela porta o que saiu. Era como se ele tivesse saído da realidade e entrado num transe que não conseguiria explicar. Foi embora se sentindo confuso, mas satisfeito. Nem lembrou que tinha dinheiro a receber.

Dona Aurélia estava em sua casa, guardando de volta o dinheiro que havia separado pra aquela noite. Mais uma em que não precisou usá-lo. Mais uma em que provou a quem disse que ela era uma mulher manipuladora e que morreria sozinha e triste que estavam errados. Manipuladora talvez ela fosse, mas nunca estava sozinha e certamente não estava triste. De volta ao seu quarto ela pegou o jornal que estava em seu criado mudo, riscou o anúncio com o nome de Anderson da lista e começou a discar o número do próximo.

sábado, 18 de março de 2017

O Homem no Espelho

Celebramos a noite toda. Fomos ao restaurante que normalmente reservamos pra comemorações de aniversários. Pareceu-me apropriado uma vez que estávamos comemorando o começo de uma nova vida. Minha tão aguardada promoção no trabalho tinha finalmente chegado. Muitas novas responsabilidades cairiam sobre meus ombros, acompanhadas de uma quantidade proporcional de dinheiro que cairia em meus bolsos.

Minha filha comeu toda a pizza e sorvete que foi capaz de aguentar, minha esposa e eu quase pedimos o vinho mais caro do cardápio, mas como o dinheiro da nova vida ainda não tinha chegado, tivemos que ficar com o sétimo. Enquanto comíamos, fazíamos planos para o futuro envolvendo viagens, uma casa maior e talvez até um irmãozinho pra Larissa. A discussão sobre se teríamos um cachorro ou gato foi adiada pra não estragar a celebração.

Foi uma das melhores noites da minha vida.

Acordei pela manhã extremamente fraco, cego pela luz do dia que entrava pela janela. Levantei-me lentamente e cambaleei em direção ao banheiro, guiado mais pelo tato que pela visão. Lavei meu rosto, eliminando parte do sono que me consumia, esfreguei meu rosto repetidas vezes até voltar meu olhar para o espelho, mas me assustei ao não reconhecer o homem que me encarava de volta.

Ele me olhava com a mesma expressão abobada que também se encontrava em meu rosto. Levei minha mão à cabeça e o homem no espelho fez o mesmo gesto tocando seus poucos cabelos grisalhos ainda não levados pela calvície, pisquei várias vezes e o homem me copiou com precisão. Senti sua barba branca e espessa ao tocar minha própria face. Seu lábio inferior tremia ligeiramente do mesmo jeito que eu sentia o meu fazendo.


Uma sensação de terror começou a tomar conta de mim, fechei os olhos e contei até dez, torcendo pra aquele pesadelo desperto terminasse. Não deu certo. O homem estranho continuava a me observar, tão confuso e amedrontado quanto eu.

Voltei para o quarto e só então notei que ele estava completamente diferente do que eu recordava. Olhei-me no espelho da cômoda que eu não me lembrava de ter comprado e lá estava o homem, usando a mesma calça que usei pra dormir e sem camisa, assim como eu. Ele tinha uma barriga proeminente, manchas senis nas mãos cujas veias eram bem visíveis sob a pele. Olhei para baixo e vi as mesmas manchas em minhas próprias mãos, e vi tudo que estava no homem no espelho em mim mesmo.

Na cama, a mulher que deitava ainda adormecida não era aquela com quem me casei e tive uma filha. Não podia ver seu rosto por completo, parcialmente coberto pelos cabelos também grisalhos, mas com certeza se tratava de outra pessoa, bem mais velha. Tomado pelo pânico, decidi sair dali antes que ela acordasse. Caminhei com os passos mais silenciosos possíveis em direção à porta e girei a maçaneta lentamente. Meu coração quase parou quando a porta rangeu ao abrir e a mulher mexeu-se na cama.

Ela despertou e olhou ao redor até seus olhos encontrarem os meus. Eu não tinha ideia do que dizer e não consegui emitir nenhum outro som ou sequer me mover. Agindo de forma totalmente normal, ela sentou-se na cama, me encarou com um olhar profundamente carinhoso e um sorriso simpático estranhamente familiar e disse:

- Já está de pé? Você devia aproveitar pra acordar mais tarde agora que está aposentado.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cicatrizes

- Nós estávamos voltando pra casa do restaurante, o cara veio por trás de nós, encostou a faca na minha costa e pediu nossos celulares. Eu entreguei o meu, minha irmã entregou o dela. Então ele pediu o relógio que minha irmã estava usando. Aquilo eu não podia permitir. Vejam bem, sou completamente contra reagir a um assalto, acho que nossa vida vale mais que celulares, carteiras, ou qualquer quantia de dinheiro que você possa estar carregando, mas aquele relógio era a única herança que nossa avó deixou. Ela morreu quando ainda éramos crianças, mas nós éramos muito próximos a ela. Eu não podia deixar um delinquente drogado levá-lo. E como ele estava apenas usando uma faca, eu reagi. A gente lutou um pouco, eu segurando o braço dele, minha irmã meio que paralisou com o medo. Ele conseguiu me cortar, mas mesmo sangrando eu acho que ele viu que não valia a pena tentar brigar comigo pelo relógio, então ele correu.

Era uma reunião entre amigos, meu irmão contava esta história de forma extremamente dramática sob o olhar atento e admirado de uma moça que um de nossos amigos trouxe. Ela ouvia cada palavra fazendo expressões faciais exageradas em pontos chaves da história demonstrando surpresa e apreensão. Meu irmão a levou pra casa naquela noite.

Essa era sua versão favorita de como ele conseguiu sua cicatriz. Tinha também a versão durante uma corrida de Motocross, num acidente que o fez desistir da carreira profissional. Outra versão incluía um acidente de trânsito em que ele acabou resgatando duas crianças de um carro em chamas. Uma que ele não usa mais em que ele viajara para África e era atacado por um leão. Acho que ele percebeu que essa era exagerada demais.

Acho que ninguém fora da família e dos amigos mais antigos sabe a verdadeira história por trás da cicatriz. Quando eu perguntei pra quê ele se dá ao trabalho de inventar e lembrar-se de todas essas versões diferentes, e de qual ele contou pra cada pessoa, a resposta foi bem simples.

- Mana, mana, mana, cicatrizes são maravilhosas. Eu posso inventar qualquer história sobre elas e as pessoas vão acreditar porque a própria cicatriz serve como prova do relato que eu acabei fazer.

Sempre me incomodou como ele conseguia enganar a todos com suas historinhas, talvez pelo fato de eu ter convivido tantos anos com ele diariamente e saber que ele seria incapaz de fazer o que diz ter feito nessas fantasias todas. Também me incomodava o fato de que ele criava histórias que o faziam parecer corajoso e aventureiro quando a verdadeira revela justamente o oposto.

Nós estávamos subindo na árvore que ficava no quintal da casa da vovó pra pegar abacate. Nesse dia fizemos uma aposta de quem conseguia chegar o mais alto na árvore. Eu ganhei, claro. Na hora de descer, ele ficou paralisado com o medo da altura. Tentei conversar com ele pra acalmá-lo e quando finalmente consegui convencê-lo a se mexer, ele se pisou em falso no meio da descida e se cortou em um pedaço de galho quebrado. Por sorte, ele conseguiu segurar em um outro galho e evitou fazer o resto do caminho caindo, mas assim ele ganhou a cicatriz que anos depois ele usaria pra conseguir mulheres e impressionar os amigos.

Eu também tenho uma cicatriz. Essa sim tem uma história interessante por trás, eu apenas não a uso pra impressionar os outros como meu irmão faz.

Meu filho tinha começado a andar fazia alguns meses e neste dia estávamos passeando pelo bairro. Quando dobramos a esquina da rua de nossa casa, vimos que o cachorro da dona Alice tinha escapado. Ele viu meu filho, que estava alguns passos a minha frente, e avançou. Meu peito parecia que ia explodir com a velocidade que meu coração começou a bater. Quando ele pulou no Betinho, eu me pus no meio do caminho e agarrei o cachorro pelo pescoço.

Meu filho começou a chorar e o cachorro latia enquanto eu colocava meu corpo sobre o dele. Alguns vizinhos viram minha luta e vieram em meu auxilio. Mas não antes do cachorro conseguir colocar os dentes em mim. Depois que ele tinha sido seguro pelos outros, eu corri pra abraçar meu filho, que ainda estava desesperado, pra acalmá-lo. Até hoje ele não gosta de cachorros.


Essa sim foi uma história emocionante. Sempre que eu conto as pessoas acham inacreditável. Ainda bem que tenho minha cicatriz pra provar.