quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Diálogos com a Morte #01 - O Suicida.

A dor durou apenas um milésimo de segundo, talvez até menos. Eu a senti porque ele sentiu. Agora ele se contorce estranhamente enquanto volta à consciência. Quando me vê, sua boca se abre, mas nenhum som é emitido. Ele se move pateticamente ainda ignorante do fato que aqui as regras são diferentes. Eu penso, ele escuta.

- Acalme-se. Não tente falar. Não existe ar aqui para o som se propagar. Respirar também não é possível, nem necessário. Deixe as palavras que quer dizer passarem pela sua mente. Eu saberei. Não precisa andar, basta pensar e irá se mover. Embora todo lugar aqui seja igual ao anterior. Você está no Vazio.

Ele olha pra mim em pânico. Ainda não se acostumou com a falta de gravidade. As emoções humanas ainda não o deixaram completamente, mas falta pouco.

- Estou morto? – Ele pensa.

Eu surjo ao seu lado. Ele não se assusta. Medo é sempre a primeira sensação a desaparecer.

- Sim, você está morto. Era o que queria, não?

- Achei que tudo ia acabar. Por que ainda estou... aqui?

- Porque sua vida acabou, mas não sua existência. A realidade de que escapou era apenas um estágio da completude da experiência humana. Estou aqui pra prepará-lo para o próximo.

- Qual é o próximo?

- Não sou eu que decido ou informo. Eu apenas o ajudo a aceitar o fim de sua existência anterior. No caso dos suicidas, costuma ser mais fácil. Vocês costumam aceitar o fim rapidamente, já aceitar a continuidade leva algum tempo.

- O fato de eu ter me matado influencia no que acontece a seguir? Onde eu nasci, na religião em que fui criado, sempre me foi dito que os suicidas vão para o inferno.

-. O que vem a seguir é algo além de minha compreensão, não me foi dado o dom ou liberdade de conhecer o que acontece além deste patamar. Uma coisa eu sei, porém, é que não há inferno. Pelo menos não do modo que os humanos criaram em suas mitologias.

Ele mexe o corpo no Vazio lentamente. Experimentando as novas sensações que fogem as leis da física que estava acostumando, por um segundo, parece até esquecer que está acompanhado. Eu decido lembrar-lhe deste fato.

- Já lidei com muitos suicidas, com os mais diversos motivos: doença terminal, desilusão amorosa, depressão. Qual foi o seu?

- Você não sabe?

- Não sou onisciente. O instante em que você puxou o gatilho foi a primeira vez que soube da sua existência. Tudo o que sei sobre você é o seu fim e o que você me contar.

Ele olha para todos os lados por alguns segundos, contemplando a vastidão sombria, procurando as palavras pra expressar, talvez pela primeira vez, aquilo que ele certamente nunca falou pra ninguém durante sua vida.

- Você chamou esse lugar de O Vazio. Eu uso essa palavra pra descrever como eu me senti a vida inteira. Eu não tinha qualquer doença terminal, nunca amei ninguém pra me desiludir e nunca fui diagnosticado com depressão, não que eu já tenha ido a um psiquiatra pra descobrir. Eu não sentia qualquer apego à vida, ou a qualquer pessoa. Eu vivia sozinho. Não me entenda mal, eu não queria a companhia de ninguém, não tinha nenhum grande objetivo. Ainda sim, me via cheio de obrigações: trabalho, pagar contas, socializar, entre tantas outras. Eu fazia tudo isso sem motivo algum além do fato que fui ensinado que devia. Um dia eu simplesmente cansei.

- Escutei discursos similares antes. Normalmente eles são concluídos com um evento dramático que faz o suicida cansar da espera e apressar a minha chegada. Qual foi o seu evento?

Ele pensa um pouco, talvez pela primeira vez percebendo que sua história não é única. Que o que ele passou, outras pessoas passaram também. Que ele não é especial.

- Fui demitido do meu emprego. Não era um emprego particularmente bom, mas me dava uma vida confortável o bastante pra me manter vivendo um dia após o outro. Depois que o perdi, reavaliei minha vida e acho que decidi que não valia a pena ir atrás de outro e voltar à velha rotina sem sentido.

- Você se matou pra não ter que procurar um emprego?

- Não. Perder o emprego me fez perceber que eu não queria viver. Ir todo dia àquele trabalho, que minha mãe arrumou pra mim, diga-se de passagem, me mantinha inerte, seguindo em ciclos diários sem nem ao menos pensar no que estava fazendo. Nos primeiros dias em que fiquei casa, sozinho, fora desse ciclo, percebi que não queria voltar pra ele ou pra qualquer outro. Foi quando fui atrás de uma arma.

- E colocou uma bala em sua cabeça.

Eu mostro a ele na palma da minha mão a bala destruiu seu crânio. Ele olha pra ela inexpressivamente, então ele estende a própria mão e a bala já se encontra em sua palma e ele começa a girá-la entre seus dedos. Ele dominou as regras desse mundo bem facilmente.

- Por que escolheu um tiro na cabeça? – Eu pergunto.

- Eu queria algo imediato, instantâneo. Não queria pular de um prédio e me arrepender no meio da queda. Não queria cortar os pulsos e me arrepender antes do sangue terminar de deixar meu corpo. Não queria me enforcar e me arrepender enquanto sufocava.

- E se arrepende agora que sabe que existe um depois da morte?

- Não tenho certeza. Não me arrependo de deixar minha antiga vida. Talvez me arrependa quando souber o que é esse próximo estágio. Algum dos outros já se arrependeu aqui, enquanto falava com você?

- Alguns. Eles teriam chorado se ainda fossem capazes de fazer isto aqui. Você não me parece o tipo que choraria.

- Só chorei uma vez em vida. Chorei quando meu pai morreu. Chorei pelo que me pareceu horas enquanto minha mãe me abraçava. Ela já sabe que eu morri?

- Sim e não. Estamos num plano fora da noção de tempo empregada na realidade em que você viveu. Você acabou de morrer, você morreu 10 mil anos atrás e ainda nem nasceu. E o mesmo vale pra todo ser vivente.

- Isso é tudo muito confuso.

- Eu não posso responder sua pergunta. Como eu disse, tudo o que sei sobre qualquer pessoa é o seu fim e o que ela me conta neste estágio. O que posso dizer é que ela morre idosa, numa casa de repouso.

Noto uma sutil expressão de alívio enquanto ele se permite acreditar em minha mentira.

- Você se importa com o sentimento causado pelo seu suicídio?

- Sim, me importo. Eu sei que minha vida importava pra alguns. Sei que algumas pessoas ficarão tristes, talvez até devastadas. Mas eu apenas não estava disposto a viver uma vida que eu não queria pra satisfazer os outros. No fim do dia, ninguém sabe como era viver na minha cabeça.

- Lembro que quando eu era criança e reclamava de algo, minha me dizia que eu deveria ser grato por estar vivo. Depois de anos ouvindo esse discurso, eu comecei a ver que não era bem assim. Todos nós somos trazidos à vida pelas escolhas dos outros, de nossos pais. Esperam que sigamos até que a vida acabe naturalmente ou por acaso independente do que nos aconteça. Não eu. Não pedi minha vida, mas ela era minha e se eu tinha o direito de decidir o que fazer com ela, também tinha o direito de decidir como ela acabaria. Nos meus próprios termos, não como obra do acaso ou destino. Eu decido quando as coisas acontecem pra mim.

Ele olha diretamente pra mim. O rosto com uma expressão séria, decidida.

- Estou pronto. Mostre-me o próximo passo.

Eu aponto pra porta de madeira a nossa frente que não estava lá segundos atrás.

- Aí está. Não precisa bater. Tem certeza que é hora?

- Pra que esperar mais? Obrigado por me ouvir, mas já passei tempo demais no Vazio.

Com um pensamento ele está de pé diante da porta. Ele gira a maçaneta e entra sem hesitar. Poucas vezes vi alguém atravessar aquela porta com tanta convicção. Ele realmente queria deixar a vida que tinha para trás.

Este ambiente de transição é um reflexo da alma sendo coletada. A maioria dos suicidas ainda trás algo pra cá: lembranças dolorosas, esperanças destruídas, oceanos de lágrimas. Este realmente não trouxe nada. Uma vida finalizada sem nunca ter de fato começado.

Uma vida vazia.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Bêbado com razão

Eu andava lentamente a passos irregulares enquanto o mundo girava ao meu redor. A garrafa vazia na minha mão estava extremamente leve, mas mesmo assim eu fui incapaz de impedir que ela escapasse por entre meus dedos e se quebrasse no chão, provavelmente por ter sido a nona que eu esvaziava naquela noite.

Eu sentei na parada de ônibus, alguns carros passavam diante de mim a uma velocidade que seria impossível durante o dia e um cachorro fedorento estava deitado alguns metros ao meu lado. O vento frio da noite fazia o efeito da bebida passar aos poucos, fazendo-me lembrar do motivo de eu ter começado a beber em primeiro lugar, mas eu não queria relembrar.

Vasculho meus bolsos torcendo pra encontrar mais dinheiro para outras bebidas, mas só encontro algumas moedas, as mesmas que estavam lá da última vez que procurei antes de sair do bar. Moedas que provavelmente nem pagariam uma passagem de ônibus. Eu tento lutar contra as lágrimas, mas sempre fui péssimo em lutas.

Será que eles ainda estão acordados? Era muito tarde para ainda estarem um sobre o outro, gemendo e tocando-se em todas as partes do corpo. Provavelmente estavam dormindo, de conchinha, ou talvez ela estivesse deitada sobre ele. Talvez ela tivesse adormecido depois de meia hora de cafuné. Ou pior, talvez estivessem acordados, conversando sobre seus sonhos, fazendo planos para o futuro, decidindo o que fazer no domingo a tarde.

Eu dou socos no banco em que estou sentado. A princípio, fracos, mas que logo vão se intensificando. Sinto meus dedos inchando e doendo, mas não paro. Meus dentes estão cerrados a ponto de minha mandíbula doer. Perco a luta contra as lágrimas. Perco como perdi minha esposa pra aquele personal trainer fajuto de academia barata.

O pior era perceber o quão insignificante eu era para ela. Ela nem se deu ao trabalho de tentar disfarçar muito. Todas as vezes que eu a traí eu me desdobrei, gastei grandes quantias de dinheiro, justamente pra que ela nunca soubesse e vivesse feliz na ignorância. Isso é amor de verdade. Isso é se importar com seu parceiro.

Já ela. Praticamente gritou aos quatro ventos o quanto achava o Celio... Caio... Cícero, seja lá qual for o nome do sujeito, gostoso.  E durante os treinos, mesmo eu estando do lado, ela conseguia um jeito de apalpar os músculos dele. Posso nem ficar com raiva do Célio... Caio... Cícero por ter ido pra cama com ela. Eu com certeza iria.

Eu poderia viver com isso. Poderia prosseguir com minha vida fingindo que não sabia de nada. Os vizinhos que a ouviam gritando no meio da tarde provavelmente iam me lembrar, mas bastava nos mudarmos. Não era muito difícil. Mas aí veio o vídeo na internet.

Eu não assisti ao vídeo. Não todo. Ainda. Mas não acredito que ela foi capaz de fazer aquelas coisas. Coisas que eu implorava que fizéssemos e sempre recebia um não, as vezes com nojo na voz. Então num belo dia, chega um cara com um corpo perfeito e realiza minhas fantasias com minha esposa. Aí é demais. Se ainda tivesse uma bebida, eu faria um brinde ao pivete que roubou o celular de minha esposa e postou o vídeo na internet. Eu nunca saberia o tipo de pessoa que eu tinha casado se não fosse por ele.

Sim, sou um babaca, mas estou bêbado e chifrudo. Mereço ser um pouco babaca. Só um pouquinho, vai.

Não posso voltar pra casa. E assim que faço essa decisão, vejo o primeiro ônibus do dia vindo ao longe. Decido entrar nele, não sei aonde ele vai e nem me importo. Só quero ir pra bem longe. Pego as moedas em meu bolso e entrego ao cobrador. Ele me olha com sua cara de sono e me fala:

“Tá faltando 35 centavos”.