Romero
teve uma vida difícil. Ele era o que qualquer um chamaria de azarado. Quase
todas as suas empreitadas em vida deram errado, sejam na vida profissional ou
pessoal. Tornou-se um alcoólatra. Compreensivelmente, diria qualquer um que
conhecesse a sua história. Virou o beberrão do bairro, uma daquelas figuras que
todos conhecem e se divertem com os casos. Todos menos ele.
O alcoolismo teve um preço, morreu ainda jovem ao tentar beijar um dos traficantes do bairro depois de confundi-lo com uma mulher por causa de seus longos cabelos. Sua última lembrança em vida era de paramédicos tentando salvá-lo. Depois um longo silêncio.
Em
seguida vieram os aplausos. A dor física e os efeitos do álcool passaram, ele
se sentia melhor do que jamais se sentira. Abriu os olhos, olhava para cima e
via nada além de uma infinita alvura. Ao seu redor, pessoas de roupas e asas
brancas o ajudavam a levantar-se, o aplaudiam e lhe davam tapinhas nas costas.
Um deles postou-se diante dele e estendeu a mão.
-
Bem vindo, seu Romero. Estávamos aguardando o senhor.
-
O que está acontecendo? – Respondeu o recém-falecido, ainda confuso com toda a
comoção ao seu redor.
-
O senhor morreu, aqui é o paraíso, estou aqui para lhe receber e apresentar o
local. Infelizmente, a notícia de onde você surgiria vazou e seus fãs decidiram
vir recebê-lo também.
- Fãs? Como...
como assim? Onde estou? Quem são vocês?
-
Eu me chamo Ezequiel. Você está no Paraíso. O senhor era a estrela de um dos
shows favoritos por aqui e que se encerrou hoje com sua morte.
-
Show? Do que está falando? Estou sonhando? Isso é um sonho?
Ezequiel
tentava afastar Romero da multidão, alguns traziam até cartazes dizendo que ele
era o melhor. Outros estendiam canetas e pediam que ele assinasse suas asas.
Romero estava extremamente assustado, mas seu guia não parecia se importar e
continuou a explicação gritando aos seus ouvidos.
-
Entendo sua confusão, mas não se preocupe que logo você se acostuma. Veja bem,
tudo que acontece na Terra é parte de um metashow roteirizado, produzido e
dirigido por Deus. E você tem sido um dos grandes sucessos das últimas décadas.
-
Metashow? Como assim?
-
Aiai. Humanos. Sempre lentos pra entender. Veja bem. Depois que banimos
Lúcifer, Deus quis fazer um agrado para os soldados vencedores e criou o seu
universo e o ser humano. Era só um entretenimento barato a princípio. Tudo
começou muito simples, na primeira temporada havia apenas um casal. Mas a coisa
foi crescendo até o ponto que os humanos estão hoje. Cada um de vocês é um
personagem.
- Todos? Então
como eu me tornei essa estrela, e quem são vocês?
- Bem, alguns
humanos são mais interessantes que outros. Veja bem, todo ser humano é
protagonista da própria história, coadjuvante na de alguns outros, e figurante
na dos demais. Nós, anjos, arcanjos, santos escolhemos qual vida seguir, cada
pessoa é como um canal diferente. Você era coadjuvante na história de seus
pais, que por sua vez eram figurantes na história do seu Chico da farmácia. Ele
era viciado em remédios, foi um sucesso vinte anos atrás. Depois que a
audiência dele começou a cair, Deus cancelou o show, se é que me entende. Então
precisávamos de outro personagem principal pro seu núcleo. Deus escolheu você,
foi quando ele escreveu aquele incidente em que você urinou nas calças na
frente da sala toda.
- Deus fez
aquilo? Eu fui a piada da escola o ano inteiro.
- Eu sei, tenho
gravado vários dos episódios, algumas pessoas ainda têm produtos do Garoto
Fraldinha.
-
Garoto Fraldinha? É o apelido que me deram depois daquilo. Nossa. Toda a
humilhação, tudo aquilo foi pra diversão de vocês?
-
Claro. Nem todo mundo gosta de assistir aqueles dramas políticos, e alguns tem
estomago muito fraco pra todas aquelas atrocidades na África, aquilo é mais pra
gente com um gosto mais mórbido.
-
Tudo na minha vida foi só pra entreter vocês? E aquela vez que eu vomitei na
garota quando estava perto de ter a minha primeira vez?
-
Hilário.
- O
incêndio da minha loja depois de apenas uma semana de funcionamento?
- Recorde de
audiência.
-
E todas as vezes que eu rezei por ajuda? Ele ao menos deu ouvidos?
-
Bem, Deus é um pouco orgulhoso, ele não gosta de sugestões dos atores. Às vezes
quando ele tá de bom humor e se for ajudar o show, ele concede alguma coisa.
Mas entenda, o seu show era um sucesso justamente por tudo dar errado pra você.
-
Que bom! Todo meu sofrimento serviu pra entreter vocês, me sinto tão realizado.
Eu
simplesmente não sei o que pensar. E agora? O que acontece agora?
simplesmente não sei o que pensar. E agora? O que acontece agora?
-
Não sei, eu só vim te inteirar da situação, pode fazer o que quiser agora. A
adaptação pode demorar um pouco, mas pelo menos você está no Paraíso agora,
todo mundo é legal. Você receberá bastante ajuda.
- Muito legais.
Vocês se divertem vendo o sofrimento dos outros e se acham legais?
-
Ora vamos, seu Romero. Era só um programa de TV, já acabou. Agora você tem
livre-arbítrio de verdade. Parece estranho por enquanto, mas é só porque você é
novo. Faça o seguinte. Venha assistir com a gente, não temos certeza ainda, mas
acho que o a dona Marieta vai ser o grande sucesso de sua zona agora. Adoro os
barracos que ela arruma. Você tinha que ter visto quando ela pegou o marido na
cama com outro homem. Ezequiel foi embora, deixando Romero com os próprios
pensamentos. Ele lembrou-se da história de dona Marieta. Aconteceu semana
passada, o bairro todo comentou.
- É, acho que posso dar uma olhada.