domingo, 14 de dezembro de 2014

Um personagem de Deus

Romero teve uma vida difícil. Ele era o que qualquer um chamaria de azarado. Quase todas as suas empreitadas em vida deram errado, sejam na vida profissional ou pessoal. Tornou-se um alcoólatra. Compreensivelmente, diria qualquer um que conhecesse a sua história. Virou o beberrão do bairro, uma daquelas figuras que todos conhecem e se divertem com os casos. Todos menos ele.

O alcoolismo teve um preço, morreu ainda jovem ao tentar beijar um dos traficantes do bairro depois de confundi-lo com uma mulher por causa de seus longos cabelos. Sua última lembrança em vida era de paramédicos tentando salvá-lo. Depois um longo silêncio.

Em seguida vieram os aplausos. A dor física e os efeitos do álcool passaram, ele se sentia melhor do que jamais se sentira. Abriu os olhos, olhava para cima e via nada além de uma infinita alvura. Ao seu redor, pessoas de roupas e asas brancas o ajudavam a levantar-se, o aplaudiam e lhe davam tapinhas nas costas. Um deles postou-se diante dele e estendeu a mão.

- Bem vindo, seu Romero. Estávamos aguardando o senhor.

- O que está acontecendo? – Respondeu o recém-falecido, ainda confuso com toda a comoção ao seu redor.

- O senhor morreu, aqui é o paraíso, estou aqui para lhe receber e apresentar o local. Infelizmente, a notícia de onde você surgiria vazou e seus fãs decidiram vir recebê-lo também.

- Fãs? Como... como assim? Onde estou? Quem são vocês?

- Eu me chamo Ezequiel. Você está no Paraíso. O senhor era a estrela de um dos shows favoritos por aqui e que se encerrou hoje com sua morte.

- Show? Do que está falando? Estou sonhando? Isso é um sonho?

Ezequiel tentava afastar Romero da multidão, alguns traziam até cartazes dizendo que ele era o melhor. Outros estendiam canetas e pediam que ele assinasse suas asas. Romero estava extremamente assustado, mas seu guia não parecia se importar e continuou a explicação gritando aos seus ouvidos.

- Entendo sua confusão, mas não se preocupe que logo você se acostuma. Veja bem, tudo que acontece na Terra é parte de um metashow roteirizado, produzido e dirigido por Deus. E você tem sido um dos grandes sucessos das últimas décadas.

- Metashow? Como assim?

- Aiai. Humanos. Sempre lentos pra entender. Veja bem. Depois que banimos Lúcifer, Deus quis fazer um agrado para os soldados vencedores e criou o seu universo e o ser humano. Era só um entretenimento barato a princípio. Tudo começou muito simples, na primeira temporada havia apenas um casal. Mas a coisa foi crescendo até o ponto que os humanos estão hoje. Cada um de vocês é um personagem.
- Todos? Então como eu me tornei essa estrela, e quem são vocês?

- Bem, alguns humanos são mais interessantes que outros. Veja bem, todo ser humano é protagonista da própria história, coadjuvante na de alguns outros, e figurante na dos demais. Nós, anjos, arcanjos, santos escolhemos qual vida seguir, cada pessoa é como um canal diferente. Você era coadjuvante na história de seus pais, que por sua vez eram figurantes na história do seu Chico da farmácia. Ele era viciado em remédios, foi um sucesso vinte anos atrás. Depois que a audiência dele começou a cair, Deus cancelou o show, se é que me entende. Então precisávamos de outro personagem principal pro seu núcleo. Deus escolheu você, foi quando ele escreveu aquele incidente em que você urinou nas calças na frente da sala toda.

- Deus fez aquilo? Eu fui a piada da escola o ano inteiro.

- Eu sei, tenho gravado vários dos episódios, algumas pessoas ainda têm produtos do Garoto Fraldinha.

- Garoto Fraldinha? É o apelido que me deram depois daquilo. Nossa. Toda a humilhação, tudo aquilo foi pra diversão de vocês?

- Claro. Nem todo mundo gosta de assistir aqueles dramas políticos, e alguns tem estomago muito fraco pra todas aquelas atrocidades na África, aquilo é mais pra gente com um gosto mais mórbido.

- Tudo na minha vida foi só pra entreter vocês? E aquela vez que eu vomitei na garota quando estava perto de ter a minha primeira vez?

- Hilário.

- O incêndio da minha loja depois de apenas uma semana de funcionamento?

- Recorde de audiência.

- E todas as vezes que eu rezei por ajuda? Ele ao menos deu ouvidos?

- Bem, Deus é um pouco orgulhoso, ele não gosta de sugestões dos atores. Às vezes quando ele tá de bom humor e se for ajudar o show, ele concede alguma coisa. Mas entenda, o seu show era um sucesso justamente por tudo dar errado pra você.

- Que bom! Todo meu sofrimento serviu pra entreter vocês, me sinto tão realizado. Eu
simplesmente não sei o que pensar. E agora? O que acontece agora?

- Não sei, eu só vim te inteirar da situação, pode fazer o que quiser agora. A adaptação pode demorar um pouco, mas pelo menos você está no Paraíso agora, todo mundo é legal. Você receberá bastante ajuda.

- Muito legais. Vocês se divertem vendo o sofrimento dos outros e se acham legais?

- Ora vamos, seu Romero. Era só um programa de TV, já acabou. Agora você tem livre-arbítrio de verdade. Parece estranho por enquanto, mas é só porque você é novo. Faça o seguinte. Venha assistir com a gente, não temos certeza ainda, mas acho que o a dona Marieta vai ser o grande sucesso de sua zona agora. Adoro os barracos que ela arruma. Você tinha que ter visto quando ela pegou o marido na cama com outro homem. Ezequiel foi embora, deixando Romero com os próprios pensamentos. Ele lembrou-se da história de dona Marieta. Aconteceu semana passada, o bairro todo comentou.

- É, acho que posso dar uma olhada.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Meus Vizinhos

Mudei-me para um bairro bem afastado do centro da cidade. Um lugar que ainda preserva boa quantidade de selva em seus arredores. O tipo de lugar em que é impossível não saber da vida de seus vizinhos, pois os próprios faziam questão de anunciar tudo de alguma forma.

Ao lado direito de minha casa mora uma família que realiza cultos de sua igreja toda segunda-feira. Não sei exatamente qual a religião deles, exceto que certamente adoram um deus surdo a julgar pela necessidade que sentem de cantar suas músicas nos mais altos volumes. Ou talvez eles apenas achem que, em meio a tantas vozes fazendo pedidos ao redor do mundo, quanto mais alto eles cantarem, maiores as chances de serem atendidos.

Em frente a minha casa mora um rapaz que frequentemente dá festas até a madrugada. Ele recebe algumas dezenas de amigos que aparecem, bebem a noite toda e em seguida vão embora dirigindo. Ele não socializa muito com os demais habitantes da rua, só descobri seu nome quando uma jovem alcoolizada certa noite começou a bater em seu portão implorando pra que ele reatasse o namoro. Ela o chamava de Diego. Também o chamava de Amor, Bem, Maldito, Mentiroso, Desgraçado e Cafajeste. Parece ser um sujeito interessante.

Na casa a minha esquerda mora um casal cujo motivo pra estarem juntos é um mistério para mim. Certamente não era amor, considerando que quase toda noite era possível ouvir suas discussões acaloradas que invariavelmente resultavam em barulho de utensílios domésticos se quebrando. A polícia já foi chamada uma vez, mas ambos negaram qualquer transtorno. Depois disso, os vizinhos parecem ter decidido que a relação deles devia ser perfeita a seu próprio modo e não fizeram mais nada.

Pergunto-me como todas essas discussões afetaram seu filho Matheus. Um rapaz adolescente que vivia brincando na rua ou comprando bebidas para as festas de Diego, lugares mais acolhedores que entre as paredes daquela casa, eu imagino. Ele desapareceu quase uma semana atrás e embora ainda haja a possibilidade de seqüestro, muitos têm a opinião que ele simplesmente fugiu por não aguentar mais viver sob aquele teto.

Esses são meus vizinhos. Pessoas com suas qualidades e defeitos cujas vidas eu acabei conhecendo mesmo que involuntariamente. E o que os próprios não revelam acaba sendo descoberto pela dona Márcia, uma idosa que mora na esquina que está sempre pronta para trocar informação sobre alguém com qualquer um que ela cruze na rua ou que espere ao seu lado na fila do mercado.

Posso apenas torcer para que minha vida não seja tão transparente quanto as dos demais. Torcer para que meus vizinhos não percebam que minhas visitas entram, mas nunca saem, e que ao invés disso passam a residir palmos sob a terra em meu quintal. Torcer para que o isolamento acústico em meu quarto seja o bastante pra bloquear os gritos de horror de minhas companhias. Por sorte, o som das festas de Diego ajuda nesse propósito.

Após o desaparecimento do jovem Matheus, as coisas mudaram. O casal a minha esquerda diminuiu as brigas, unidos em seu sofrimento. A mãe até passou a frequentar as reuniões da igreja e todos resolveram cooperar nas buscas. Temos que ser bons vizinhos, afinal. Podia muito bem ter sido qualquer um de nós.

E aqui estou eu, caminhando entre as árvores ajudando a procurar o adolescente desaparecido. A face de sua mãe é a definição da dor, desespero e incerteza. Eu poderia acabar com tudo isso a levando para minha casa e mostrando em minha geladeira quais partes pertencem ao filho dela. Logo em seguida eu os uniria e talvez até os deixassem lado a lado em minha próxima refeição. Acho que o grupo da igreja aprovaria essa demonstração de misericórdia.

Preciso ter bastante cuidado ao fazer isso. Os vizinhos podem notar.

domingo, 30 de novembro de 2014

Aos que ficam...



Estou olhando pra baixo. O som da brisa é quase uma triste trilha sonora do fim. Os quinze andares entre o chão e eu são mais que o suficiente. Várias vezes eu estive aqui, decidi que seria o lugar perfeito pra me matar. A vista é linda, especialmente ao pôr-do-sol e a noite, quando a cidade está toda iluminada. Gostaria que esta fosse minha última visão. Algo, porém, sempre me impediu de ir adiante. Os segundos finais da queda.

Pergunto-me se eu me sentiria em paz. Seria irônico, sentir paz, alivio, ou qualquer sentimento agradável no momento em que finalmente conseguisse me jogar para morte. Ou talvez eu me desesperasse e desejasse não ter pulado. O que seria uma constatação terrível pra se ter enquanto se aproxima do chão. Pelo menos eu não teria tanto tempo assim pra ficar arrependido.

Talvez você esteja se perguntando por que eu quero pular daqui, pra começo de conversa. Ou talvez nem se importe. E aí está um dos motivos, ninguém se importa. Que clichê! Você deve estar pensando. Bem, os clichês nascem justamente pela repetição. Então desculpa se eu não sou exatamente um caso excepcional.

Tentei fazer amigos a vida toda. Até consegui alguns, mas logo se tornou óbvio que não tinha nada a acrescentar na vida de quem quer que seja e era deixado de lado. Meus relacionamentos mais duradouros foram com outros rejeitados, mas estes também só duravam até que elas achassem um rejeitado mais interessante. Não as culpo por isso, também não enxergo qualquer atrativo em mim que pudesse segurar qualquer pessoa. Não falo isso querendo pena de alguém, só estou... bem, dane-se, estou preste a me matar, talvez eu mereça um pouco de pena. Mas sério, só queria explicar a situação.

Já são quarenta anos disso. Sei que não vou mudar agora. Sabe essas histórias de velhinhos que se graduam na universidade depois dos noventa ou que dão a volta ao mundo? Eu não sou um desses, sou do outro tipo. Do tipo que fica rabugento e reclama dos garotos que fazem barulho na rua.

Se você chegou até aqui, deve estar pensando que não é a toa que ninguém me atura. Que bom. Não quero que ninguém fique triste com minha partida. Talvez uma ou outra ex-namorada, mas a essa altura duvido que elas sequer tenham como saber de minha morte. Não mantenho contato com muita gente.

Falo com você porque não deixei nenhum bilhete. Não haveria ninguém pra ler. Nem muito pra escrever. Não tenho nenhum grande motivo real pra fazer isso. Nenhuma doença terminal que me condenaria a anos de sofrimento, nem alguma grande desilusão amorosa nem fui à falência. Não tenho motivos pra morrer, apenas também não tenho nenhum pra viver.

Talvez por isso tenha subido até aqui tantas vezes e descido pelo elevador ao invés de pelo lado de fora. Penso em pessoas que de fato se matam porque não aguentam mais viver após anos de sofrimento ou porque não querem os anos de sofrimento que sabem que terão. Elas não vem aqui várias vezes. Não olham pra baixo e passam horas pensando, e se pensam provavelmente isso só lhes dá mais motivos pra pular. E então elas o fazem.

Quando somos crianças e aprendemos que um dia todos vamos morrer, criamos um medo da morte porque tudo é divertido e mágico e não queremos que acabe. Mas quando a diversão se esgota a morte não parece tão assustadora.

Já tentei fazer trabalho voluntário tentando assim me iludir de que minha vida tinha algum significado maior. Mas a verdade é que não me importo com outras pessoas a ponto de fazer do ato de ajudá-las um hábito. Por isso não culpo ninguém por não se importarem comigo. O sentimento é recíproco.

Depois de toda essa conversa eu acho que seria muito anticlimático se eu não pulasse. Mas também não vou me apressar só por causa de vocês. Desculpa. Ou talvez você esteja esperando uma epifania que me faça enxergar que a vida é bela e que tenho muito pelo que viver e que eu devo pegar o elevador e sair em busca do amor. Acredite, não vai acontecer.

Já estive aqui no alto várias vezes esperando essa epifania que nunca veio. Mas a verdade que apenas uma coisa me mantém vivo. Aqueles malditos segundos finais.

domingo, 23 de novembro de 2014

Um Rosto Conhecido



Eu estava encarando o casal duas mesas distante da minha há quase dez minutos quando finalmente reconheci aquele homem. Aquilo estava realmente me incomodando. Sabia que conhecia aquele rosto, mas não fazia ideia de onde.

Vasculhei toda a minha memória. Talvez se tratasse de alguém que tenha estudado no mesmo colégio que eu, ou algum zelador de algum prédio em que trabalhei, ou um primo de segundo grau de alguma antiga namorada.

Precisei regressar até minhas memórias mais antigas pra resposta finalmente aparecer. Tentei imaginar aquele rosto bem mais jovem e uma imagem foi se formando em minha mente. Crianças brincando de futebol numa rua de asfaltamento irregular usando suas sandálias como trave e uma bola velha e encardida. Casas ao redor com portões enferrujados e muros com pinturas descascando e cheias de lodo. E no meio disso tudo, aquele rosto.

Como uma fileira de dominós, uma lembrança foi trazendo outras em sequência. Comecei a lembrar de todo tipo de brincadeira que eu, aquele homem e nossos vários colegas da vizinhança fazíamos. Policial e ladrão, Cobra ou Passarinho e tantas outras.

Ele era o mais ousado e aventureiro de nós. Era sempre o primeiro a tentar coisas que em nossas mentes infantis eram bastante arriscadas, como andar de bicicleta sem a as mãos, apertar a campainha recém instalada do seu Braga e sair correndo ou pegar escondidos as revistas adultas de seu pai. Só não conseguia me lembrar do seu nome.

Conseguia lembrar o nome de todos os meus amigos, menos o dele. Tinha o Ítalo, ou 32 polegadas por causa de sua cabeça enorme e quadrada que lembrava uma TV. Tinha o Augusto, ou puro osso, que dispensa explicações. Já o homem no mesmo restaurante que eu, nada. Era algo tipo Marcos, Marcelo ou Marcio. Ah!, lembrei, era Felipe.

Não pude evitar sorrir sozinho agora que todas as lembranças estavam de volta. Era como se toda a alegria que tive durante aquela época tivesse voltado de uma vez só. Anos de felicidade infantil resgatadas em um minuto. Mesmo o mais amargurado dos adultos sorriria.

Tentava decidir se devia ir falar com ele. Seria lembranças de infância compartilhadas o bastante pra justificar abordar um estranho? Sim, éramos estranhos agora. Havia mais anos desde que nos vimos pela última vez do que nós tínhamos de idade na época que nos conhecemos.

De repente, ele olha pra mim e eu, instintivamente, desvio o olhar para o meu prato de comida quase intocado e já frio. Posso sentir que ele ainda me observa e me pergunto se ele tenta me reconhecer também ou só está imaginando porque um estranho o encarava e a sua namorada/esposa/amante.

Quando ele e sua companhia se levantam e passam por mim no caminho até a porta, já decidi que não deveria falar com ele. Não quero saber que tipo de pessoa meu amigo se tornou.

Analisando minha própria vida, vejo quantos sonhos de infância não cumpri, quantas expectativas não se concretizaram e lamento. Mas não quero saber que aquele rapaz tão cheio de vida virou um babaca ou um burocrata sem imaginação. Mesmo que seja um grande cara, não há como superar os sonhos de criança. Seria uma decepção. Quero minhas lembranças de infância puras pelo que podia ter vindo seguir, não maculadas com a realidade do que realmente veio.

Quando vejo a porta se fechar atrás de meu velho amigo, sua imagem presente começa rapidamente a se esvair, deixando apenas sua imagem infantil que de fato conheci, mas, desta vez, com a certeza de que não esquecerei.

domingo, 16 de novembro de 2014

Túmulo sem Flores



Após uma vida ingerindo mais bebidas alcoólicas que água, Antenor finalmente morreu. Poucos compareceram a seu enterro. Menos ainda de fato lamentavam sua morte. Segue aqui o que algumas delas pensaram enquanto seu caixão era posto sob a terra.

Lucas, sobrinho de 16 anos.

“Será que eu devia estar sentindo algo? Só vi este homem duas vezes que sou capaz de lembrar. Deu-me um carrinho de controle remoto no meu quinto aniversário. E me deu meu primeiro gole de cerveja numa festa de ano novo sem que minha mãe soubesse. Ele é família, sinto que deveria estar lamentando sua morte, mas não sinto nada. Vejo apenas um estranho. Um estranho que provavelmente foi como eu um dia.”

“Vejo minha mãe e tia com bons empregos e em famílias estáveis e me pergunto como ele pode ter tomado um rumo tão diferente. Seria culpa de meu avô de alguma forma ou você acabou desse jeito unicamente por tuas próprias escolhas? Seria apenas azar que faz uma irmã virar gerente de um grande banco enquanto o outro vive na miséria até a morte? O que aconteceu com você?”

Seu Antônio, colega de bar.

“Descanse em paz, meu camarada. Poucas pessoas conseguiam me acompanhar numa mesa de bar. Poucas falavam tanta besteira também, mas você foi uma boa companhia. Agora só sobrei eu da velha turma, sempre soube que eu ia ficar por último.”

“Vou fazer o bar brindar a sua memória hoje, vai ser mais que essas suas irmãs almofadinhas vão fazer por você, aposto. Fingem que nem me veem, agora sei o porquê de você odiar elas. Duas patricinhas de nariz empinado se achando melhor que gente tipo eu e você.”

“Toma umas boas com o Célio e o Braga aí no céu. Avise todo mundo que, do jeito que as coisas vão aqui dentro, eu não devo demorar pra chegar.”

Dona Marieta, irmã mais velha.

“Ah, meu Deus, leve o Toninho pro seu lado, sei que ele não teve muito juízo e fez um monte de bobada, mas no fundo ele não era má pessoa. Se o papai tivesse tentado mais quando ele ainda era jovem, lhe dado mais uma chance, tenho certeza que ele teria se ajeitado.”

“Não posso pedir que todos aqui o perdoem pelo que fez, nem eu sei se eu sou capaz. Mas o Senhor é. Só o Senhor teria misericórdia o bastante pra fazer isso. Falei com ele várias vezes no hospital. Sei que debaixo da pose ele sabia dos erros que cometeu e se arrependia deles. Ele já sofreu tanto nos últimos meses, deixe que ele tenha um pouco de paz agora.”
“Não pense no homem que ele se tornou, lembre daquele jovem cheio de energia e engraçado que dizia que ia ser jogador de futebol ou astronauta. Sei que mesmo perto do fim, aquele garoto ainda existia em algum lugar. Receba esse garoto em Seus braços. Ele merece.”

Dona Carla, irmã mais nova.

“Quanto tempo será que isso demora? Até depois de morto esse traste me dá trabalho. Aposto que era isso queria. Não podia ir embora sem deixar uma última dor de cabeça pra nós. Nem dinheiro pro próprio caixão ele tinha. Ainda bem que depois de hoje não vou mais ter que me incomodar com esse infeliz.”

“Devia ter deixado te enterrarem como indigente, assim você continuaria depois de morto aquilo que foi em vida: um ninguém. Ou ao menos eu gostaria que você tivesse sido um ninguém, assim o papai não teria passado o que passou por sua causa.”

“Deus me perdoe por pensar assim num enterro, mas não tem como ser de outra forma. Mas espero mesmo que você esteja em algum lugar melhor, meu irmão, pois este lugar aqui está melhor sem você.”

Ricardo. Coveiro.

“Já vi muitos rostos em enterros. Já vi rostos desesperados, em negação, resignados pelos que se foram. Já vi rostos compadecidos pelos que ficaram. Poucas vezes vi rostos como o de hoje. Não tenho certeza, mas se tivesse que descrever o que vejo aqui só poderia chamar de alivio.”

“Não sei quem foi esse sujeito, se foi alguém terrível que merece se despedir do mundo sem nenhuma lágrima derramada sobre seu caixão. Ou se foi apenas alguém que passou anônimo na vida, incapaz de causar saudades em quem quer que seja. Só sei que essa lápide nunca receberá visitas. Pertence a alguém que deixou esse mundo sendo amado por ninguém. Um túmulo sem flores.”

“Como será o túmulo de todos nós. Um dia.”