quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A bancada julgadora

Eu me movia a uma velocidade no limite entre o andar e o correr. Demorei um pouco a tocar a campainha para poder recuperar o fôlego. Apesar do meu atraso, Amanda atendeu a porta com um largo sorriso.

- Oi, desculpa a demora. O trânsito estava terrível. Houve um acidente, o braço do motoqueiro foi parar no sentido contrário da rua. Terrível.

- Não tem problema, isso nos deu mais tempo pra dar uma última revisada no nosso questionário. Entre.

- Questionário? Que questionário? – Perguntei enquanto cruzava a porta só pra me deparar com três mulheres sentadas lado a lado no sofá me encarando e uma cadeira vazia posta de frente pra elas.

- Sente-se.

Obedeci na cadeira diante das moças enquanto acenava para elas, nenhuma parecia especialmente amistosa.

- O que tá acontecendo?

- Bem, Carlos, é o seguinte: nós dois já saímos algumas vezes e eu acho que estou começando a realmente gostar de você. O problema é que os últimos três namorados que eu tive começaram do mesmo jeito. Eles pareciam ótimos, charmosos, educados e o segundo era até bom de cama. O problema é que todos acabaram do mesmo jeito: O primeiro me traiu com minha irmã, o segundo me traiu com várias mulheres da academia que ele frequentava e o terceiro me traiu com vários homens da academia que ele frequentava.

- Entendo – eu disse sem entender onde aquilo ia parar.

- Em todos esses relacionamentos, sem exceção, minhas amigas me avisaram que não os achavam tão maravilhosos quanto eles pareciam. Eu não dei ouvidos e agora tenho três pares de chifre na minha cabeça como recordação de cada namorado. Trinta e seis, se contarmos um par pra cada pessoa diferente que com quem eles me traíram. Que eu saiba. Então, quando começamos a sair, decidi que não ia deixar meu pobre julgamento me prejudicar de novo, e pedi que minhas amigas o avaliassem, assim me poupando de um possível coração partido. E aí entra o questionário que preparamos.

- Isso é estranho, eu preciso mesmo fazer isso?

- Você pode fazer isso ou nunca mais vê-la. – Disse a moça na extremidade esquerda do sofá.

- Bem. Essa é Ana – disse Amanda apontando para a tal moça - minha amiga desde a escola. Esta é Clara – continuou ela apontando para a jovem ao meio - nos conhecemos na faculdade, e essa é Alana, minha irmã – apontou pra jovem à direita – pessoal, este é Carlos.

Enquanto acenava novamente para cada uma conforme era apresentado, percebi que Ana era a menos amistosa do trio, nem ao menos esboçando um sorriso, enquanto Clara se mostrou mais receptiva e chegou a acenar pra mim com as mãos. Já Alana tinha no rosto uma expressão de quem obviamente não queria estar.

- Essa é a irmã que ficou com seu primeiro namorado?

- Sim.

- Você vai deixar sua irmã que ficou com seu primeiro namorado avaliar seu possível novo namorado?

- Aquilo foi muito tempo atrás, nós superamos.

- Como?

- Ela colocou laxante na minha comida. No dia do meu casamento – Disse ela cruzando os braços.

- Ah.

- Eu tenho uma pergunta pra você, Carlos: você frequenta alguma academia?

- Não.

- Fique longe de qualquer uma e eu te dou minha aprovação. Posso ir embora? – Ela finalizou com um olhar antipático para a irmã.

- Não. Você vai ficar aí mesmo. Preciso te lembrar de que ainda tenho o vídeo do seu vestido de casamento deixando de ser completamente branco?

- Ok, continuando – Disse Ana tirando alguns papeis que estavam grampeados de dentro de sua bolsa que estava no chão - Carlos, eu tenho em mãos o relatório que Amanda nos passou de todas as interações que vocês tiveram até agora. Após uma cuidadosa análise, percebi que você tem a tendência a fazer muitos elogios a respeito da aparência dela. No primeiro encontro você fez um total de 11 comentários a esse respeito, incluindo frases sobre o “olhar misterioso”, “cabelos brilhantes” e “pinta engraçadinha na bochecha”. Você diria que a aparência é muito importante pra você?

- Bem, eu diria que sim, ao menos a princípio. Aparência é a primeira coisa que nos chama atenção quando conhecemos uma pessoa nova. É o que desperta o nosso primeiro interesse, para depois conhecermos quem aquela pessoa é no interior.

- Muito bem, digamos que daqui uns anos, quando você já estiver acostumado com a beleza de Amanda, você encontre uma mulher que considere igualmente ou mais bela, você iria querer conhecer o “interior” dela?

- Bem, é provável que eu a olhasse por instinto, mas se eu estiver em um relacionamento firme com alguém, eu não faria nada além disso.

Ela anotou algo num caderninho, pelo movimento labial foi possível ver que entre as palavras estavam “papo furado” e “instinto”.

- Sente-se confiante nisso? Você alguma vez já traiu alguma namorada?

Nessa pergunta eu paralisei. Queria muito olhar para Amanda, mas não tive coragem.

- Sim. Já traí duas, pra ser exato. Uma no ensino médio, outra na faculdade. Uma eu traí durante uma festa em que eu bebi demais e outra eu traí com uma ex-namorada.

Ana e Clara fizeram anotações em seus blocos.

- Escutem, eu sei que errei ao fazer isso e se eu pudesse voltar atrás eu não faria de novo. Bem, talvez a primeira. Mas certamente nunca mais farei algo assim.

- Tem certeza? – Perguntou Clara, em um tom insinuante – Nem com o incentivo dos teus amigos você cairia numa tentação?

- O que quer dizer?

- Verificamos os amigos com que você mais interage nas redes sociais. E vimos, por exemplo, seu amigo Ronaldo postando um texto romântico copiado e colado e erroneamente atribuído a Shakespeare para a namorada em comemoração aos três meses de namoro, enquanto em outra rede social, não mais que uma semana atrás ele postava sobre como a festa que ele foi só tinha, e eu cito, “mulher gostosa e bêbada”, postagem que recebeu uma curtida sua.

- Amigos curtem tudo que os outros amigos postam. E vocês não podem me julgar pelas atitudes dele.

- Pode se dizer muito sobre alguém através das companhias que ele mantém.

- Foi um comentário numa rede social. Pode ter sido estúpido, mas isso não quer dizer que ele seja. Ele é fiel à namorada, disso eu tenho certeza. Assim como todos os meus outros amigos – eu pauso e penso o quanto elas sabem dos meus outros amigos – com exceção do Júlio, Matheus, Antônio e o Marcelo. Mas eu nem falo com eles tão frequentemente assim.

- Vocês jogam futebol juntos aos domingos e se reúnem pra happy hour pelo menos uma vez por semana – disse Ana consultando seus papeis.

- Exato. Raramente nos vemos.

Mais anotações. Senti que não estava indo muito bem.

- Ele tá suando, estou começando a gostar disso – disse a irmã, sorrindo pela primeira vez – diga-me, Carlos, como é seu relacionamento com suas ex-namoradas?

- Não tenho contato com a maioria delas. Uma ainda é uma amiga com quem tenho contato ocasionalmente...

- Ocasionalmente como seus amigos de happy hour?

-... e uma outra que... bem... é minha vizinha.

As três me olharam em silêncio, surpresas.

- Essa é a ex com quem você traiu uma de suas namoradas? – pergunta a irmã estreitando os olhos.

- Sim. Ela é minha vizinha desde a infância e foi a minha primeira namorada.

- Interessante.

As três fizeram anotações em seus papeis.

- Muito bem, eu cansei – disse enquanto me levantava – Vocês já se divertiram bastante, mas já chega. Amanda, se você quiser realmente me conhecer vai ter que ser do modo antigo: convivendo comigo. Eu aposto que se eu vasculhasse a vida de vocês, o que vocês postam na internet, com quem vocês andam, eu encontraria centenas de motivos pra não namorar qualquer uma de vocês. Eu vou pra casa, você disse que estava começando a gostar de mim. Se isso é verdade, me dê uma chance de provar que sou mais que meu perfil numa rede social. De que não é uma entrevista que vai dizer se sou o cara certo pra você.

Amanda não falou para alguns segundos e ficou apenas imóvel olhando para o chão até começar a andar lentamente em minha direção. Ela parou diante de mim e tocou meu rosto com as duas mãos e me olhou nos olhos pelo que me pareceu uma eternidade antes de falar.


- Carlos, o resultado da sua avaliação sai em 48 horas. Entraremos em contato. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário