Eu estava encarando o casal duas mesas
distante da minha há quase dez minutos quando finalmente reconheci aquele
homem. Aquilo estava realmente me incomodando. Sabia que conhecia aquele rosto,
mas não fazia ideia de onde.
Vasculhei toda a minha memória. Talvez se
tratasse de alguém que tenha estudado no mesmo colégio que eu, ou algum zelador
de algum prédio em que trabalhei, ou um primo de segundo grau de alguma antiga
namorada.
Precisei regressar até minhas memórias mais
antigas pra resposta finalmente aparecer. Tentei imaginar aquele rosto bem mais
jovem e uma imagem foi se formando em minha mente. Crianças brincando de
futebol numa rua de asfaltamento irregular usando suas sandálias como trave e
uma bola velha e encardida. Casas ao redor com portões enferrujados e muros com
pinturas descascando e cheias de lodo. E no meio disso tudo, aquele rosto.
Como uma fileira de dominós, uma lembrança
foi trazendo outras em sequência. Comecei a lembrar de todo tipo de brincadeira
que eu, aquele homem e nossos vários colegas da vizinhança fazíamos. Policial e
ladrão, Cobra ou Passarinho e tantas outras.
Ele era o mais ousado e aventureiro de nós.
Era sempre o primeiro a tentar coisas que em nossas mentes infantis eram
bastante arriscadas, como andar de bicicleta sem a as mãos, apertar a campainha
recém instalada do seu Braga e sair correndo ou pegar escondidos as revistas
adultas de seu pai. Só não conseguia me lembrar do seu nome.
Conseguia lembrar o nome de todos os meus
amigos, menos o dele. Tinha o Ítalo, ou 32 polegadas por causa de sua cabeça
enorme e quadrada que lembrava uma TV. Tinha o Augusto, ou puro osso, que
dispensa explicações. Já o homem no mesmo restaurante que eu, nada. Era algo
tipo Marcos, Marcelo ou Marcio. Ah!, lembrei, era Felipe.
Não pude evitar sorrir sozinho agora que
todas as lembranças estavam de volta. Era como se toda a alegria que tive
durante aquela época tivesse voltado de uma vez só. Anos de felicidade infantil
resgatadas em um minuto. Mesmo o mais amargurado dos adultos sorriria.
Tentava decidir se devia ir falar com ele. Seria
lembranças de infância compartilhadas o bastante pra justificar abordar um
estranho? Sim, éramos estranhos agora. Havia mais anos desde que nos vimos pela
última vez do que nós tínhamos de idade na época que nos conhecemos.
De repente, ele olha pra mim e eu,
instintivamente, desvio o olhar para o meu prato de comida quase intocado e já
frio. Posso sentir que ele ainda me observa e me pergunto se ele tenta me
reconhecer também ou só está imaginando porque um estranho o encarava e a sua
namorada/esposa/amante.
Quando ele e sua companhia se levantam e
passam por mim no caminho até a porta, já decidi que não deveria falar com ele.
Não quero saber que tipo de pessoa meu amigo se tornou.
Analisando minha própria vida, vejo quantos
sonhos de infância não cumpri, quantas expectativas não se concretizaram e
lamento. Mas não quero saber que aquele rapaz tão cheio de vida virou um babaca
ou um burocrata sem imaginação. Mesmo que seja um grande cara, não há como
superar os sonhos de criança. Seria uma decepção. Quero minhas lembranças de
infância puras pelo que podia ter vindo seguir, não maculadas com a realidade
do que realmente veio.
Quando vejo a porta se fechar atrás de meu
velho amigo, sua imagem presente começa rapidamente a se esvair, deixando
apenas sua imagem infantil que de fato conheci, mas, desta vez, com a certeza de
que não esquecerei.
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