domingo, 23 de novembro de 2014

Um Rosto Conhecido



Eu estava encarando o casal duas mesas distante da minha há quase dez minutos quando finalmente reconheci aquele homem. Aquilo estava realmente me incomodando. Sabia que conhecia aquele rosto, mas não fazia ideia de onde.

Vasculhei toda a minha memória. Talvez se tratasse de alguém que tenha estudado no mesmo colégio que eu, ou algum zelador de algum prédio em que trabalhei, ou um primo de segundo grau de alguma antiga namorada.

Precisei regressar até minhas memórias mais antigas pra resposta finalmente aparecer. Tentei imaginar aquele rosto bem mais jovem e uma imagem foi se formando em minha mente. Crianças brincando de futebol numa rua de asfaltamento irregular usando suas sandálias como trave e uma bola velha e encardida. Casas ao redor com portões enferrujados e muros com pinturas descascando e cheias de lodo. E no meio disso tudo, aquele rosto.

Como uma fileira de dominós, uma lembrança foi trazendo outras em sequência. Comecei a lembrar de todo tipo de brincadeira que eu, aquele homem e nossos vários colegas da vizinhança fazíamos. Policial e ladrão, Cobra ou Passarinho e tantas outras.

Ele era o mais ousado e aventureiro de nós. Era sempre o primeiro a tentar coisas que em nossas mentes infantis eram bastante arriscadas, como andar de bicicleta sem a as mãos, apertar a campainha recém instalada do seu Braga e sair correndo ou pegar escondidos as revistas adultas de seu pai. Só não conseguia me lembrar do seu nome.

Conseguia lembrar o nome de todos os meus amigos, menos o dele. Tinha o Ítalo, ou 32 polegadas por causa de sua cabeça enorme e quadrada que lembrava uma TV. Tinha o Augusto, ou puro osso, que dispensa explicações. Já o homem no mesmo restaurante que eu, nada. Era algo tipo Marcos, Marcelo ou Marcio. Ah!, lembrei, era Felipe.

Não pude evitar sorrir sozinho agora que todas as lembranças estavam de volta. Era como se toda a alegria que tive durante aquela época tivesse voltado de uma vez só. Anos de felicidade infantil resgatadas em um minuto. Mesmo o mais amargurado dos adultos sorriria.

Tentava decidir se devia ir falar com ele. Seria lembranças de infância compartilhadas o bastante pra justificar abordar um estranho? Sim, éramos estranhos agora. Havia mais anos desde que nos vimos pela última vez do que nós tínhamos de idade na época que nos conhecemos.

De repente, ele olha pra mim e eu, instintivamente, desvio o olhar para o meu prato de comida quase intocado e já frio. Posso sentir que ele ainda me observa e me pergunto se ele tenta me reconhecer também ou só está imaginando porque um estranho o encarava e a sua namorada/esposa/amante.

Quando ele e sua companhia se levantam e passam por mim no caminho até a porta, já decidi que não deveria falar com ele. Não quero saber que tipo de pessoa meu amigo se tornou.

Analisando minha própria vida, vejo quantos sonhos de infância não cumpri, quantas expectativas não se concretizaram e lamento. Mas não quero saber que aquele rapaz tão cheio de vida virou um babaca ou um burocrata sem imaginação. Mesmo que seja um grande cara, não há como superar os sonhos de criança. Seria uma decepção. Quero minhas lembranças de infância puras pelo que podia ter vindo seguir, não maculadas com a realidade do que realmente veio.

Quando vejo a porta se fechar atrás de meu velho amigo, sua imagem presente começa rapidamente a se esvair, deixando apenas sua imagem infantil que de fato conheci, mas, desta vez, com a certeza de que não esquecerei.

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