domingo, 16 de novembro de 2014

Túmulo sem Flores



Após uma vida ingerindo mais bebidas alcoólicas que água, Antenor finalmente morreu. Poucos compareceram a seu enterro. Menos ainda de fato lamentavam sua morte. Segue aqui o que algumas delas pensaram enquanto seu caixão era posto sob a terra.

Lucas, sobrinho de 16 anos.

“Será que eu devia estar sentindo algo? Só vi este homem duas vezes que sou capaz de lembrar. Deu-me um carrinho de controle remoto no meu quinto aniversário. E me deu meu primeiro gole de cerveja numa festa de ano novo sem que minha mãe soubesse. Ele é família, sinto que deveria estar lamentando sua morte, mas não sinto nada. Vejo apenas um estranho. Um estranho que provavelmente foi como eu um dia.”

“Vejo minha mãe e tia com bons empregos e em famílias estáveis e me pergunto como ele pode ter tomado um rumo tão diferente. Seria culpa de meu avô de alguma forma ou você acabou desse jeito unicamente por tuas próprias escolhas? Seria apenas azar que faz uma irmã virar gerente de um grande banco enquanto o outro vive na miséria até a morte? O que aconteceu com você?”

Seu Antônio, colega de bar.

“Descanse em paz, meu camarada. Poucas pessoas conseguiam me acompanhar numa mesa de bar. Poucas falavam tanta besteira também, mas você foi uma boa companhia. Agora só sobrei eu da velha turma, sempre soube que eu ia ficar por último.”

“Vou fazer o bar brindar a sua memória hoje, vai ser mais que essas suas irmãs almofadinhas vão fazer por você, aposto. Fingem que nem me veem, agora sei o porquê de você odiar elas. Duas patricinhas de nariz empinado se achando melhor que gente tipo eu e você.”

“Toma umas boas com o Célio e o Braga aí no céu. Avise todo mundo que, do jeito que as coisas vão aqui dentro, eu não devo demorar pra chegar.”

Dona Marieta, irmã mais velha.

“Ah, meu Deus, leve o Toninho pro seu lado, sei que ele não teve muito juízo e fez um monte de bobada, mas no fundo ele não era má pessoa. Se o papai tivesse tentado mais quando ele ainda era jovem, lhe dado mais uma chance, tenho certeza que ele teria se ajeitado.”

“Não posso pedir que todos aqui o perdoem pelo que fez, nem eu sei se eu sou capaz. Mas o Senhor é. Só o Senhor teria misericórdia o bastante pra fazer isso. Falei com ele várias vezes no hospital. Sei que debaixo da pose ele sabia dos erros que cometeu e se arrependia deles. Ele já sofreu tanto nos últimos meses, deixe que ele tenha um pouco de paz agora.”
“Não pense no homem que ele se tornou, lembre daquele jovem cheio de energia e engraçado que dizia que ia ser jogador de futebol ou astronauta. Sei que mesmo perto do fim, aquele garoto ainda existia em algum lugar. Receba esse garoto em Seus braços. Ele merece.”

Dona Carla, irmã mais nova.

“Quanto tempo será que isso demora? Até depois de morto esse traste me dá trabalho. Aposto que era isso queria. Não podia ir embora sem deixar uma última dor de cabeça pra nós. Nem dinheiro pro próprio caixão ele tinha. Ainda bem que depois de hoje não vou mais ter que me incomodar com esse infeliz.”

“Devia ter deixado te enterrarem como indigente, assim você continuaria depois de morto aquilo que foi em vida: um ninguém. Ou ao menos eu gostaria que você tivesse sido um ninguém, assim o papai não teria passado o que passou por sua causa.”

“Deus me perdoe por pensar assim num enterro, mas não tem como ser de outra forma. Mas espero mesmo que você esteja em algum lugar melhor, meu irmão, pois este lugar aqui está melhor sem você.”

Ricardo. Coveiro.

“Já vi muitos rostos em enterros. Já vi rostos desesperados, em negação, resignados pelos que se foram. Já vi rostos compadecidos pelos que ficaram. Poucas vezes vi rostos como o de hoje. Não tenho certeza, mas se tivesse que descrever o que vejo aqui só poderia chamar de alivio.”

“Não sei quem foi esse sujeito, se foi alguém terrível que merece se despedir do mundo sem nenhuma lágrima derramada sobre seu caixão. Ou se foi apenas alguém que passou anônimo na vida, incapaz de causar saudades em quem quer que seja. Só sei que essa lápide nunca receberá visitas. Pertence a alguém que deixou esse mundo sendo amado por ninguém. Um túmulo sem flores.”

“Como será o túmulo de todos nós. Um dia.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário