Já fui do tipo de leitor totalmente zeloso.
Do tipo que considerava qualquer amasso ou mancha nas folhas de meus livros
como olhar um belo rosto repleto de cicatrizes. Não importava que encontrar um
trecho marcante era quase impossível, o trabalho de procurar aquela frase
específica apenas com uma vaga ideia de que parte do livro ela estava parecia
um preço pequeno a pagar para manter meu livro imaculado.
Mas o que vem a ser um livro imaculado? A meu
ver, um desperdício. Afinal, cicatrizes, mesmo não sendo visualmente
agradáveis, podem significar grandes histórias.
Ao comprarmos um livro, pegamos algo que foi
fabricado ao lado de outros milhares idênticos. Você leva esse exemplar
aleatório e se torna seu dono, o lê e absorve algo dele. Talvez se apaixone
pelos personagens contidos naquelas páginas ou fique fascinado pelo universo
criado usando apenas da palavra e da imaginação. Então o coloca em alguma
prateleira após ter deixado algo de suas páginas em você.
Não lhe parece um desperdício? Não lhe parece
uma oportunidade perdida? Você retirou daquelas folhas algo que enriqueceu sua
vida, por que não tirar algo de sua vida para enriquecer aquelas páginas?
Ao criar esse hábito de escrever as reflexões
que um livro me provoca em suas margens, me vejo dialogando com esse objeto que
tanto me ensina. Ao destacar os trechos que mais ressoaram em minha alma
mantenho fresco na memória aquele sentimento que eu compartilho com o autor,
mas que ele conseguiu expressar de forma melhor que eu jamais conseguiria.
No final do processo, o livro em minha
prateleira não será mais apenas um objeto que comprei para consumo. Será um pedaço
de mim e verdadeiramente único.
Nenhum comentário:
Postar um comentário