domingo, 2 de novembro de 2014

Livros Maculados

Já fui do tipo de leitor totalmente zeloso. Do tipo que considerava qualquer amasso ou mancha nas folhas de meus livros como olhar um belo rosto repleto de cicatrizes. Não importava que encontrar um trecho marcante era quase impossível, o trabalho de procurar aquela frase específica apenas com uma vaga ideia de que parte do livro ela estava parecia um preço pequeno a pagar para manter meu livro imaculado.



Mas o que vem a ser um livro imaculado? A meu ver, um desperdício. Afinal, cicatrizes, mesmo não sendo visualmente agradáveis, podem significar grandes histórias.



Ao comprarmos um livro, pegamos algo que foi fabricado ao lado de outros milhares idênticos. Você leva esse exemplar aleatório e se torna seu dono, o lê e absorve algo dele. Talvez se apaixone pelos personagens contidos naquelas páginas ou fique fascinado pelo universo criado usando apenas da palavra e da imaginação. Então o coloca em alguma prateleira após ter deixado algo de suas páginas em você.



Não lhe parece um desperdício? Não lhe parece uma oportunidade perdida? Você retirou daquelas folhas algo que enriqueceu sua vida, por que não tirar algo de sua vida para enriquecer aquelas páginas?



Ao criar esse hábito de escrever as reflexões que um livro me provoca em suas margens, me vejo dialogando com esse objeto que tanto me ensina. Ao destacar os trechos que mais ressoaram em minha alma mantenho fresco na memória aquele sentimento que eu compartilho com o autor, mas que ele conseguiu expressar de forma melhor que eu jamais conseguiria.



No final do processo, o livro em minha prateleira não será mais apenas um objeto que comprei para consumo. Será um pedaço de mim e verdadeiramente único.

Nenhum comentário:

Postar um comentário