domingo, 9 de novembro de 2014

Os Sorrisos de Sabrina



De todas as qualidades que compunham a perfeição que era Sabrina, minha favorita sempre foi o sorriso. Seu sorriso comunicava tudo que alguém precisava saber sobre seu estado de espírito. Seu sorriso valia mais que mil palavras. Foi assim do primeiro ao último.

O primeiro veio quando fomos apresentados na festa de um amigo em comum. Era um sorriso pequeno e acanhado, um substituto para o “oi” que sua timidez extrema a impediu de dizer. Não quis ser apresentado a mais ninguém pelo resto da noite.

Semanas depois, após jogarmos boliche com alguns amigos, ofereci carona para ela. Primeira vez que ficamos sozinhos. Foi uma viagem de vinte minutos. Vinte minutos que foram o bastante pra transformar suas risadinhas educadas em verdadeiras gargalhadas. O bastante pra me dar confiança de dizer que devíamos sair juntos um dia.

Quando ela riu abertamente de um trocadilho idiota que fiz foi que percebi que ela realmente gostava de mim. Todos os outros deram risadas constrangidas da tolice de meu comentário, ela riu de verdade. Não se ri de verdade de um comentário daqueles, apenas se gostar bastante de seu autor ou se for um completo idiota. E ela não nem um pouco idiota. Ela era perfeita.

O sorriso constrangido, mas indubitavelmente feliz, que ela deu depois de nos beijarmos pela primeira vez me deu a certeza de que começávamos algo real ali. Aquele não seria um momento único, mas um começo. Eu dizia “tchau”, mas me recusava a largar sua mão quando ela tentava ir embora, seu sorriso cada vez que eu fazia isso me dizia o quanto ela também não queria se despedir.

Quando a pedi em casamento, o sorriso banhado em lágrimas que ela me deu enquanto eu estava de joelhos tornou o “sim” que o seguiu redundante, eu sabia que passaria o resto da vida sendo presenteado com aquele rosto feliz. Sorrimos juntos e ininterruptamente por vários dias depois.

No nascimento de nosso filho vi um sorriso que nunca vira antes e nunca vi depois. Era um sorriso pleno, de alguém que está vivenciando o melhor momento de sua vida. Se houvesse um premio pra sorriso mais lindo do mundo, aquele ali seria impedido de participar pra não ser injusto com a concorrência.

A primeira vez que notei alguma mudança foi alguns anos depois, quando eu repeti o comentário tolo de quando nos conhecíamos, agora num evento de sua empresa. Não consegui nem a risada educada habitual, nem a risada incrédula balançando a cabeça de quando eu a deixava embaraçada. Consegui nada. O sorriso que ela deu foi para seus amigos. Um sorriso de quem pede desculpas.

Com o passar dos anos, sorrisos comuns foram ficando cada vez mais significativos conforme iam ficando mais e mais raros. Buscava ver neles um raio de esperança que tudo voltasse ao normal, mas pra cada sorriso genuíno, eu recebia outro ressentido quando eu pedia desculpas após uma briga.

Quando finalmente concordei com o divórcio e assinei os papéis, ela me deu um sorriso de um milésimo de segundo, que mais parecia um espasmo muscular. Foi como um triste ponto final de uma bela poesia composta de todas suas expressões alegres que testemunhei.

Só me restavam os sorrisos pequenos e acanhados quando deixamos nosso filho na casa um do outro, substitutos do “oi” que seu ressentimento não lhe permitia dizer, e as lembranças de todos os antigos. O que eu não faria pra receber um deles novamente.

Num jantar em família em que celebrávamos a formatura do ensino médio de Marquinhos, nos lembramos de sua infância, das gracinhas que fazia e o quanto ele cresceu rápido, já estava caminho da universidade e namorando sério. No meio de tantas recordações felizes, falei daquele trocadilho imbecil. Marquinhos ficou incrédulo com a tolice de seu jovem pai. 

Já Sabrina riu. De verdade.

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