De todas as qualidades que compunham a
perfeição que era Sabrina, minha favorita sempre foi o sorriso. Seu sorriso
comunicava tudo que alguém precisava saber sobre seu estado de espírito. Seu
sorriso valia mais que mil palavras. Foi assim do primeiro ao último.
O primeiro veio quando fomos apresentados na
festa de um amigo em comum. Era um sorriso pequeno e acanhado, um substituto
para o “oi” que sua timidez extrema a impediu de dizer. Não quis ser
apresentado a mais ninguém pelo resto da noite.
Semanas depois, após jogarmos boliche com
alguns amigos, ofereci carona para ela. Primeira vez que ficamos sozinhos. Foi
uma viagem de vinte minutos. Vinte minutos que foram o bastante pra transformar
suas risadinhas educadas em verdadeiras gargalhadas. O bastante pra me dar
confiança de dizer que devíamos sair juntos um dia.
Quando ela riu abertamente de um trocadilho
idiota que fiz foi que percebi que ela realmente gostava de mim. Todos os
outros deram risadas constrangidas da tolice de meu comentário, ela riu de
verdade. Não se ri de verdade de um comentário daqueles, apenas se gostar
bastante de seu autor ou se for um completo idiota. E ela não nem um pouco
idiota. Ela era perfeita.
O sorriso constrangido, mas indubitavelmente
feliz, que ela deu depois de nos beijarmos pela primeira vez me deu a certeza
de que começávamos algo real ali. Aquele não seria um momento único, mas um
começo. Eu dizia “tchau”, mas me recusava a largar sua mão quando ela tentava
ir embora, seu sorriso cada vez que eu fazia isso me dizia o quanto ela também
não queria se despedir.
Quando a pedi em casamento, o sorriso banhado
em lágrimas que ela me deu enquanto eu estava de joelhos tornou o “sim” que o
seguiu redundante, eu sabia que passaria o resto da vida sendo presenteado com
aquele rosto feliz. Sorrimos juntos e ininterruptamente por vários dias depois.
No nascimento de nosso filho vi um sorriso
que nunca vira antes e nunca vi depois. Era um sorriso pleno, de alguém que
está vivenciando o melhor momento de sua vida. Se houvesse um premio pra
sorriso mais lindo do mundo, aquele ali seria impedido de participar pra não
ser injusto com a concorrência.
A primeira vez que notei alguma mudança foi
alguns anos depois, quando eu repeti o comentário tolo de quando nos
conhecíamos, agora num evento de sua empresa. Não consegui nem a risada educada
habitual, nem a risada incrédula balançando a cabeça de quando eu a deixava
embaraçada. Consegui nada. O sorriso que ela deu foi para seus amigos. Um
sorriso de quem pede desculpas.
Com o passar dos anos, sorrisos comuns foram
ficando cada vez mais significativos conforme iam ficando mais e mais raros.
Buscava ver neles um raio de esperança que tudo voltasse ao normal, mas pra
cada sorriso genuíno, eu recebia outro ressentido quando eu pedia desculpas
após uma briga.
Quando finalmente concordei com o divórcio e
assinei os papéis, ela me deu um sorriso de um milésimo de segundo, que mais
parecia um espasmo muscular. Foi como um triste ponto final de uma bela poesia
composta de todas suas expressões alegres que testemunhei.
Só me restavam os sorrisos pequenos e
acanhados quando deixamos nosso filho na casa um do outro, substitutos do “oi”
que seu ressentimento não lhe permitia dizer, e as lembranças de todos os
antigos. O que eu não faria pra receber um deles novamente.
Num jantar em família em que celebrávamos a
formatura do ensino médio de Marquinhos, nos lembramos de sua infância, das
gracinhas que fazia e o quanto ele cresceu rápido, já estava caminho da
universidade e namorando sério. No meio de tantas recordações felizes, falei
daquele trocadilho imbecil. Marquinhos ficou incrédulo com a tolice de seu
jovem pai.
Já Sabrina riu. De verdade.
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