Sinopse
"Acostumado a realizar um fetiche bem específico de casais, Lucas atende um casal macabro".
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Todo homem gosta de ver sua mulher transando com outro.
Eu jogo essas palavras na mesa e dou um longo gole da minha cerveja para que meus companheiros de bar tenham tempo de reagir. Eles riem. Dizem que estou falando merda, que já bebi além da conta.
Eu explico que com exceção deles, que provavelmente descobriram a própria sexualidade chupando os coleguinhas no banheiro da escola, a maioria dos garotos de nossa geração mataram sua curiosidade sexual com revistas de mulher pelada e fitas pornôs que achavam na gaveta do pai.
Por anos, os anos de formação, diga-se de passagem, cada ereção que o moleque tem é através de algum estímulo visual. Cada gozada que ele dá é vendo outras pessoas fodendo. Isso deixa uma marca no cérebro.
Os anos passam e esse rapaz cresce e se casa. Logo, ele cansa de meter na mesma mulher o tempo todo. Ele precisa de algo novo. Subconscientemente, ele volta às origens. Ele precisa de estímulo visual de novo, igual a quando era um pivete e cada punheta era uma aventura. Então ele começa a visualizar sua mulher na cama com outro cara. É algo novo, mas ao mesmo familiar.
Eles riem mais, balançam a cabeça, reviram os olhos e dizem que sou louco.
- Então, Lucas – me pergunta um deles – se um dia você se casar, todos nós podemos entender que em algum momento você vai assistir ela com outro macho na cama?
Todos os copos estão pousados sobre a mesa, todos os olhos voltados para mim e todos os ouvidos aguardando minha resposta.
- Eu não serei o corno assistindo – eu respondo – serei o cara sendo assistido.
Há sites em que você pode encontrar pessoas dispostas a ter essa experiência. Você conversa com elas por um tempo e então, se eles sentirem-se seguros com você, marca um encontro cara a cara. Os homens não querem ser vistos como cornos e nem as mulheres como putas, então pode demorar um tempo.
Boa parte dos casais é composto por um homem careca e barrigudo que nem consegue mais dar conta da mulher que tem em casa e uma mulher ainda sedenta por sexo. Há um elemento de compensação nessa prática. Eles vão atrás de alguém que dê pra mulher o que eles não mais podem dar. Outros são simplesmente capachos das esposas. Eles dizem “sim” pra tudo que a mulher pede e querem sempre agradar.
Entretanto, mesmo aqueles que fazem a contragosto acabam se divertindo ao assistir no final das contas. Alguns filmam. É como se eles transformassem a própria esposa na atriz pornô que eles tanto queriam foder na juventude.
Eu conto à eles o caso do seu Dorval. Um cara cheio de grana e com uma imagem a zelar. Foram quase seis meses de conversa até ele aceitar me encontrar pessoalmente e o encontro tinha que ser na cidade vizinha. Vocês tinham que ver. Ele falava como se tivesse declamando um poema e só o terno dele custava mais que todo consumo de álcool anual de todo mundo nessa mesa.
Era bem visível que ele não estava a vontade com a situação. Já a esposa dele estava bem empolgada, era toda sorrisos pra mim. O nome dela era Clara. Depois de dois drinks, ela já estava sentada mais próximo de mim que dele e colocava a mão na minha coxa a cada duas frases que dizia. Ela queria ir até o fim.
Nós fomos para o quarto. Ele puxou uma cadeira e sentou no canto. Clara parecia um peão faminto que acabou de receber uma marmita quando tirou minhas roupas. Ela partiu pra cima de mim com tudo, sem frescura. Ela me pediu que batesse nela e metesse em todas as posições possíveis e sabia fazer coisas com língua que até hoje não achei ninguém capaz de fazer igual.
Enquanto isso, Dorval estava ali no canto, sentado, sem mover um músculo a princípio. Ele não sabia o que fazer com as mãos nem pra onde olhar direito. Eu evitei ficar olhando pra ele porque eu não queria broxar. Eu estava lá com a esposa dele cavalgando em cima de mim, gritando todo tipo de palavrão e com as unhas cravadas no meu peito e quando me dou conta, seul Dorval está de pé, ao lado da cama, tocando uma. Ele estava ofegante e a expressão dele é de quem estava no mais completo transe.
Foram seis meses até ele topar me encontrar pessoalmente. Hoje em dia, ele me manda mensagens toda semana querendo saber quando estarei na cidade de novo.
- Cara, isso é muito doido – diz um dos presentes depois de um longo intervalo em que apenas o som dos copos sendo cheios podiam ser ouvidos.
Eu revelo que estou fazendo isso a quase dois anos e que se tem uma coisa que aprendi, é que os maridos acabam gostando tanto quanto as esposas. Brinco que talvez até algum deles já tenha feito algo parecido ou venha a ter essa experiência um dia.
- Você chega da minha esposa com esse teu pinto murcho e eu corto ele fora, isso sim.
- Se qualquer um conseguir chegar perto da tua esposa sem que o pinto murche, ele merece um carinho no saco pela coragem.
As gargalhadas ecoam pelo bar. Passo o resto da noite contando anedotas de meu passatempo não mais secreto. Vou embora não muito tarde. Preciso descansar. Quero estar disposto pra encontrar um novo casal no dia seguinte.
Esse casal mora numa área relativamente nobre da cidade. A casa é grande, vasos pesados com belas plantas decoram a calçada. O muro é alto e com uma cerca elétrica no topo circulando o terreno. Não é possível pra quem passa na rua ver o que há por trás daquelas paredes.
Sou recebido por Michele. Ela é uma ruiva de trinta e quatro anos de idade com seios fartos e um sorriso composto por dentes claramente afetados pelo fumo. Ela é bonita, embora o excesso de maquiagem quase consiga estragar isso.
Ela me dá um abraço e um beijo em cada bochecha. Diz que sou ainda maior do que eu parecia na foto. O que era ótimo, ela acrescentou, com uma piscadinha.
Michele pede que eu não repare na bagunça e me oferece uma seleção de bebidas. Eu escolho whisky. Ela e o marido se mudaram recentemente, ela me conta, e ainda não tiveram tempo de contatar uma designer de interiores para lhes ajudar com a decoração. O marido é militar e por isso eles acabam ficando apenas alguns anos em cada cidade. Eles já moraram em vários estados.
Eu pergunto onde o marido está. Ela admite que se sente constrangida fazendo o que eles vão fazer com o marido presente no mesmo aposento, então ele vai acompanhar pela câmera do computador que ela colocou no quarto apontada pra a cama. Eles não iam gravar nada e, se eu quisesse, tem uma máscara que eu podia usar como garantia.
- Não se preocupe com isso – eu digo – mas então, tudo isso foi ideia dele? Por isso você não se sente tão a vontade?
Ela diz que é complicado. Ela e o marido tem gostos pouco convencionais. Portanto, eles fizeram um acordo. Eles se revezam realizando as fantasias um do outro. Mês passado, por exemplo, depois de dez anos de casada, ela fez anal pela primeira vez. Era algo que ele queria desde o primeiro encontro e ela sempre recusou.
Eu deixo escapar uma risada. Digo que sexo anal não é tão “não convencional” assim. Michele discorda. Ela sempre achou a ideia nojenta. Nunca entendeu a fascinação em volta disso. Ela já tinha feito umas boas loucuras com o marido, mas aquela era uma experiência que ela estava mais que satisfeita em nunca ter. Ela acabou concordando porque o marido finalmente aceitou que ela dormisse com outro homem.
Confuso, eu questiono o porquê dela sentir-se desconfortável se a ideia foi dela. Acontece que ter alguém assistindo não era parte do plano inicial. O marido insistiu pois queria garantir que eu não “abriria a porta dos fundos” pra outro homem depois de todo o tempo que ele teve que esperar. Esse é um privilégio dele. Ele realmente acha que ela está doida pra repetir a experiência. É o preço que se paga por ser bom em fingir orgasmos.
- Então você não gostou nem um pouco da experiência?
- Não foi tão ruim quanto eu imaginava. Seria difícil ser. Mas definitivamente não é algo que eu pretendo repetir tão cedo.
Michele pouco me encara e dá várias risadinhas constrangidas enquanto revela tudo isso. Eu a acho bem charmosa. Ela me parece uma daquelas “moças de família” que só agora na vida adulta sentiu-se livre para explorar os próprios desejos e ainda não se acostumou totalmente com a liberdade.
Eu pego gentilmente sua mão e a puxo para perto de mim. Nossos primeiros beijos são lentos e suaves. Com as mãos em volta de sua cintura, eu encosto nossos corpos enquanto sinto ela invadir minha camisa com uma das mãos e segurar minha cabeça com a outra. Nossos toques são carinhosos, como dois amantes se tocariam.
De repente, ela morde meu lábio e puxa com força. Não consigo conter um gemido de dor. Ao abrir meus olhos, a expressão dela é bem clara em sua mensagem: prepare-se.
Ela praticamente me joga dentro do quarto. A porta se abre com violência enquanto passamos ainda entre beijos. Ela se desvencilha de mim apenas por alguns instantes para garantir que a câmera está funcionando e apontada para a direção certa.
Ela é incrível. Ela assume total controle da situação. Suas unhas percorrem minha pele deixando um rastro de dor e prazer ao longo de minhas costas. Ela beija meu pescoço e meu peito vorazmente. Sou jogado de costas na cama e ela deita em cima de mim, aproximando os lábios de meu ouvido. Ela diz que está noite eu sou dela, que ela que manda e eu sou seu escravo. Eu digo que sim.
Ela se ajoelha na cama e apoia as mãos na parede. Ela ordena que eu a possua como a cadela que ela é. Ela não precisa pedir duas vezes. Os sons dos seus gemidos me dão tanto prazer quanto a sensação de estar dentro dela. Não sei quanto tempo serei capaz de me segurar.
Estou tão em êxtase que não ouço a porta se abrindo novamente. Não ouço os passos pesados indo em nossa direção nem o deslocamento do ar causado pelo objeto que me atinge na cabeça.
É como se meu corpo reiniciasse nos poucos segundos que levam pra eu cair da cama até o chão. Ouço gritos. Eles dizem algo que não consigo identificar. Todos os meus sentidos estão confusos e o quarto não para de girar ao meu redor. Passos pesados parecem estar se aproximando. Vejo diante de mim apenas a forma de um homem embaçado pelas lágrimas que enchem meus olhos antes de sentir minha perna direita se rasgando.
Eu grito. Mais alto que jamais gritei na vida. Minha garganta se rasga. Os cantos da minha boca parecem prestes a fazer o mesmo. A faca penetra por todas as camadas de pele e atinge o osso. Eu me debato no chão. Tento segurar minha perna, mas a faca é girada e puxada sem cerimônia. Estou banhado em vermelho. Um poça de sangue surge embaixo de mim e aumenta rapidamente.
Alguns minutos se passam até que eu consiga me acostumar com a dor o suficiente pra olhar ao meu redor. Michele continua na cama com uma expressão fria e enrolada no lençol. Ela está contra a parede como se tentasse ficar tão longe quanto fosse possível de nosso agressor.
Ele é um homem magro, esquelético. Ele limpa a faca ensanguentada em sua camisa com a mão direita e segura um taco na mão esquerda. Ele olha de mim para Michele e de volta pra mim repetidas vezes. Seu olhar é maníaco e ele sorri maquiavelicamente.
- Então é você que gosta de comer a mulher dos outros?
- Geraldo, calma. Por favor.
- Calada, piranha. Sempre assim, né? Casa nova, macho novo. Que mentira você contou pra esse aí? Que eu estava viajando? Que estamos nos separando?
Geraldo falava calmamente, mas seu rosto era extremamente ameaçador. Seus olhos estavam arregalados e não piscavam em nenhum momento. Ele tinha uma sorriso maníaco e parecia estar apreciando imensamente ver o pânico em nossos rostos.
Tentando controlar minha respiração pra poder falar, eu imploro que ele pare com aquilo. Aquilo foi um mal entendido. Mas eu gaguejo e as palavras saem da minha boca completamente emboladas. Tento levantar, mas minha perna ferida torna isso impossível. Sangue, suor e lágrimas se misturam em meu rosto.
- Realmente foi um mal entendido. Essa ninfomaníaca aqui entendeu errado o horário que eu ia voltar pra casa. É uma pena que você tenha que pagar pelo erro dela.
- Meu amor, por favor. Pense no que você está fazendo. Você não é assim. Você não é um monstro.
Geraldo gargalhou. Sua risada era alta, mas forçada. Claramente falsa.
- Talvez você tenha me tornado um monstro. Talvez todos os anos que eu te dei amor e carinho, teto e comida enquanto você chupava qualquer pau que ficasse parado na sua frente por tempo o suficiente tenham me afetado dessa forma.
Ele olha pra mim dos pés a cabeça com uma expressão de mais puro nojo. Eu quero falar algo, mas sinto que se abrir a minha boca eu vou acabar vomitando. Eu encaro o chão, intimidado demais pra devolver o olhar de meu agressor. Ele começa a falar enquanto se aproxima de mim a passos lentos.
- Você. Ricardão. Já amou alguém? Já amou alguém que aceita todo teu amor mas em nenhum momento o retribui a altura? Essa é minha vida. Eu faço de tudo por essa mulher, eu faço de tudo pra vê-la feliz e só o que quero é que ela sinta o mesmo por mim. É pedir muito? Eu não achava, mas pra minha esposa aqui, parece ser impossível. Uma pessoa se dedica de corpo e alma a alguém, só que ninguém valoriza. Ninguém quer mais saber de ter uma família de verdade. Dão mais valor a putaria que ao amor.
- Meu amor, você sabe que eu te amo. Te segui pra todo lugar do Brasil que você se mudou porque quero estar ao seu lado.
- Mas não só ao meu lado, não é? Eu não sou o bastante. Sou bom pra te dar a boa vida que você gosta, mas no quarto você precisa de mais. Precisa de um merda como esse.
Ele estava ao meu lado agora. Ele se abaixa e se ajoelha eu meu lado. A faca ainda com vestígios do meu próprio sangue está apontada para meu rosto. Eu tento me arrastar pra longe dele, mas não há espaço o suficiente.
- Como você se sentiu quando metia nela? Sentiu-se melhor que eu? Sentiu-se superior por estar satisfazendo uma mulher enquanto o frouxo do marido dela estava trabalhando que nem um otário? Sentiu-se mais homem?
Ainda incapaz de formar frases coerentes, eu só consigo dizer que eu fui chamado pra realizar um fetiche. Que achava que ele estaria assistindo.
Ele ri novamente. Dessa vez uma risada verdadeira. Ele se levanta virando para a esposa.
- Essa deve ter sido a melhor até agora. É isso que você quer? Transar com todo homem que passa na sua frente não é suficiente? Quer que eu assista também?
- Meu amor...
- POR QUE? Me explique que prazer doentio é esse que você tem em me humilhar desse jeito.
Com várias veias saltadas no pescoço e o rosto enrubescendo, Geraldo parecia estar tremendo da cabeça aos pés.
- Você me conhece – disse Michele – todos esses anos, você sabe como eu sou. Eu não gosto de te ver sofrendo, meu querido. Mas não posso mudar minha natureza assim como você não pode mudar a sua.
Geraldo subiu na cama e colocou suas mãos ao redor do pescoço de sua esposa. Ele também chorava agora. Michele não parecia sentir o menor medo, simplesmente levantou seus braços para os lados, como que dando permissão para que seu marido fizesse o que achasse melhor. Seu rosto avermelhou-se, mas ela não se moveu mesmo após vários segundos que pareciam se arrastar.
- Você tem razão – disse ele, afrouxando o aperto – eu queria muito mudar. Eu queria muito ser capaz de fazer tudo o que quero fazer com você agora. Mas...
- Mas você não vai – disse ela, séria – porque no fundo você sabe que o que sentimos um pelo outro é mais importante que qualquer noite que eu possa passar com outra pessoa.
Geraldo então larga-se nos braços de Michele que acaricia seu cabelo enquanto ele chora audivelmente. É um choro infantil, patético.
Eu volto a tentar me arrastar sem que eles percebam. Cada movimento gera pontadas agonizantes em minha perna que me deixam zonzo. Eu perco a luta contra meu estômago e vômito no chão.
Michele diz que quase tinha esquecido de mim. Ela deixa o marido e vem em minha direção calmamente. Ela me pede desculpas. Não queria que aquilo acontecesse. Diz que eu pareço uma boa pessoa. E espera que eu um dia possa perdoa-la. Eu imploro que me deixem ir. Que me levem ao hospital. Juro que não contarei nada a ninguém. Que inventaria alguma história.
- Você quer ir embora? Acho que não – diz Geraldo – Acha que sou homem de deixar um vagabundo trepar com minha mulher e sair andando por aí pra poder ficar se gabando nas mesas de bar que me meteu um par de chifres?
- Meu amor, ele não tem culpa – diz Michele sem qualquer emoção na voz – não pode fazer isso com ele.
Eu choro copiosamente. Tento me arrastar mais rápido e eles apenas observam. Eu grito “por favor” repetidas vezes.
Geraldo pega sua faca e se aproxima de mim. Michele fica entre nós dois.
- Saí da minha frente. Por que está defendendo esse merda?
- Ele não tem culpa. Você já fez o suficiente, deixa ele ir.
- Ele tem mais que culpa. Ele sabia o que estava fazendo. Achava que ia se divertir me pondo chifres e eu ainda ia achar bom. Que eu ia agradecer a ele. O que eu fiz até agora ainda foi pouco.
- Geraldo, não.
- Você gosta dele, né? Eu ouvi você enquanto entrava. Estava se divertindo a beça. Parecia uma cadela no cio. Você adorou ele te pegando, né? Adorou pegar no pau dele. Meter o pau dele na boca. Sentar no pau dele. Não é?
- Chega, escuta só como você fala, parece um completo idiot...
Geraldo dá um tapa com o peito da mão na cara de sua esposa. Ela cambaleia pra trás. Em choque. Claramente não achava que aquilo seria possível.
- Eu disse que talvez você tenha me transformado num monstro – disse Geraldo, também surpreso com o próprio gesto – eu posso não ser capaz te machucar ainda, mas posso te dar incentivo o bastante pra pensar duas vezes antes de repetir tua aventura de hoje.
Com o taco na mão. Ele se posiciona de modo a me deixar entre suas pernas. Eu peço que saia. Não tenho forças para fazer qualquer outra coisa. Até meu “por favor” saí na forma de um suspiro.
- Já que gostou tanto do pau dele. Talvez devesse guardar para você.
O taco é erguido. O taco é abaixado. Escuridão total.
***
Estou num supermercado colocando frutas na minha cesta. O som de uma música sertaneja sobre algum cara que foi largado pela esposa domina o ambiente. Estou caminho em direção do caixa preferencial com ajuda da minha bengala quando ouço uma voz que me faz sentir calafrios.
- Lucas?
Seu Dorval me encarava. Ele empurrava um carrinho quase cheio de compras. Um largo sorriso em sua expressão de reconhecimento. O sorriso desapareceu depois de ver a bengala.
- Você tá bem?
Sinto meu rosto tremer. Não consigo encará-lo.
- E-estou bem. Isso aqui foi só um acidente. Nada sério.
- Ah, que bom. E que bom te ver, cara. Tentamos te ligar várias vezes nos últimos meses.
- Eu mudei de número.
- Entendo. Pode me dar o teu número novo? Estava pensando que a gente podia marcar um jantar ou algo do tipo.
Sinto as lágrimas vindo. Minha respiração fica pesada. Eu deixo minha cesta cair. Maçãs rolam pelo chão.
- Não faço mais essas coisas.
Eu saio andando tão rápido quanto sou capaz. Ignoro o chamado de seu Dorval. Tento evitar que as imagens de seis meses atrás retornem a minha mente. As imagens de quando fui largado na frente de um hospital altamente sedado. A imagem de acordar num leito e receber a notícia de que a casa era alugada e os nomes Michele e Geraldo eram falsos e não há pistas de onde estão.
Tento não pensar no espaço vazio entre minhas pernas e a visão que tenho sempre que tomo banho. Mas é tudo em vão.
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